Economia da Felicidade

Em 1974, o economista Richard Easterlin publicou um artigo que ficou famoso: “O Crescimento Econômico Melhora a Raça Humana?” Na sequência de um minucioso inquérito sobre felicidade e PIB numa série de países do mundo ele concluiu que, provavelmente, a resposta é «não». Desde então a economia da felicidade expandiu-se, mas a descoberta principal do artigo de Easterlin, o chamado Paradoxo de Easterlin, mantém-se vastamente incontestada.

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no quarto capítulo do livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, em princípio, concordam. “Parece que o enorme progresso nos padrões de vida após a II Guerra Mundial não nos trouxe um acréscimo de felicidade. Talvez Rousseau estivesse sempre certo. Mais dinheiro não nos torna mais felizes.”

Conclusões semelhantes repetiram-se em países do mundo inteiro, quer desenvolvidos quer em desenvolvimento.

Para percebermos os números, temos de partir do princípio de que a felicidade é afetada pela riqueza relativa, não pela riqueza absoluta. Dito de outra forma:

  • a felicidade dos ricos é uma expressão da sua satisfação por estarem no topo da pirâmide de riqueza e
  • a infelicidade dos pobres espelha a sua frustração por estarem embaixo.

Como os ricos se mantêm no teto e os pobres se mantêm no piso seja qual for o rendimento da sociedade como um todo, os níveis médios de felicidade não mudam. Como uma analogia, imagine uma dada fila em um elevador: quem está no fim da fila permanece no fim mesmo quando a fila avança.

O mais importante para as pessoas é o rendimento relativo, não o rendimento absoluto. Muitas das melhores coisas da vida – lindas casas de campo, estâncias de férias em lugares exóticos, as melhores escolas – estão essencialmente limitadas em quantidade e, por isso, acessíveis apenas aos mais ricos. Esses bens posicionais ou oligárquicos são um motivo para a ânsia pelo lucro se manter forte mesmo nas sociedades mais ricas.

Todavia, será o rendimento absoluto irrelevante para a felicidade? Ter bens de consumo durável não acrescentou nada ao nosso bem-estar coletivo? Os economistas da felicidade gostam de nos recordar o poder de adaptação ou habituação. A maioria dos lucros materiais tem apenas um efeito fugaz na disposição, depois do qual esta regressa ao seu nível habitual. Assim, o rendimento pode subir com regularidade enquanto a felicidade não aumenta nada.

Outra explicação popular para a felicidade não subir conjuntamente com a riqueza é a desigualdade. A média de rendimentos no Reino Unido duplicou nos últimos 30 anos, mas o rendimento mediano – isto é, o rendimento da pessoa no meio da distribuição – mudou muito menos. Os ganhos de capital e renda têm estado predominantemente no topo. Assim, mesmo que o rendimento absoluto não seja importante para a felicidade, as estatísticas podem refletir os sentimentos da maioria cujo rendimento absoluto estagnou.

Para além de um determinado patamar, parece que o rendimento absoluto não é importante para a felicidade. Poderia esperar-se que a falta de nutrição, saneamento, educação e habitação adequados tivessem um efeito depressivo. As pessoas avaliam o seu bem-estar material relativo de acordo com um padrão nacional, não com um padrão global.

Então, como é que os economistas da felicidade pretendem aumentar os nossos níveis de felicidade em declínio? Na sua opinião, há dois problemas:

  1. um de irracionalidade individual,
  2. o outro de irracionalidade coletiva.

O primeiro problema surge porque as pessoas:

  1. exageram a felicidade que obterão a longo prazo com o consumo de bens e
  2. subestimam as satisfações do lazer, educação, amizade e outros intangíveis.

O segundo problema surge porque, mesmo que as pessoas sejam racionais no desejo de estarem no topo da pirâmide da riqueza, a lógica da competição posicional dita que nem todos podem estar. O sucesso de A é conseguido à custa do fracasso de B, e desse modo a felicidade global mantém-se constante.

De fato, a felicidade até pode cair, uma vez que a luta posicional é desagradável. Por analogia, quando uma pessoa conversar alto em um ambiente coletivo os outros também têm de gritar, muito embora todos estivessem melhor se falassem baixo.

Os economistas da felicidade respondem a estes dois problemas de formas previsíveis. Se determinados bens não geram melhorias duradouras na felicidade, quer para os seus proprietários quer para a sociedade em geral, porque não taxá-los? Isto desviaria recursos para bens que geram essas melhorias, como o lazer, e aumentariam o rendimento para projetos públicos de aumento da felicidade.

Assim, por exemplo, seria o caso de uma taxa progressiva sobre elevação do consumo para travar os gastos de luxo e encorajar o investimento financeiro. Em outro capítulo, Robert Skidelsky e Edward Skidelsky propõem uma tributação semelhante, embora sem referência à felicidade.

Outras medidas vulgarmente propostas incluem restrições às horas extras de trabalho e a certas formas de publicidade.

De uma maneira geral, os economistas da felicidade preferem uma forma de vida europeia em detrimento da americana, embora a América esteja mais bem classificada nos quadros da felicidade do que a maioria das grandes democracias socialdemocratas europeias.

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