Candidato Popular em Escala Nacional X Candidatos dos Coxinhas

O PT ganhou as quatro últimas eleições presidenciais pela repulsa do eleitorado brasileiro às políticas neoliberais que provocam desemprego e empobrecimento. Os derrotados golpistas não reconhecem que Lula e Dilma tinham como sustentação um partido de base nacional e seus adversários eram — e serão — apenas “coxinhas” da elite paulistana, carioca ou mineira, apoiados pelos donos das mídias locais. Assim, estes concentram seus votos só no Sul-Sudeste, enquanto os candidatos do PT ganham com facilidade no resto do Brasil e perdem por pouco nesse maior eleitorado do Sudeste.

Ricardo Mendonça (Valor, 09/05/17) avalia que a pesquisa Datafolha sobre a disputa presidencial divulgada na semana passada sugere que os últimos dois anos de grande conturbação política não foram suficientes para abalar as polarizações regionais e de renda observadas nas eleições mais recentes. Apesar do golpe parlamentarista na ex-presidenta Dilma Rousseff, eleita democraticamente em regime presidencialista, do avanço da Operação Lava-Jato e da maior depressão econômica em décadas, a divisão entre ricos e pobres na hora de votar mudou pouco. Já a diferença entre eleitores do Nordeste e do Sudeste pode até estar aumentando.

Conforme o levantamento realizado nos dias 26 e 27 de abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com 30% das intenções de voto nos principais cenários de primeiro turno. Se a eleição fosse disputada apenas entre eleitores do Nordeste, porém, o petista venceria no primeiro turno com 50% ou 51% dos votos totais nos dois principais cenários. Mas se apenas os moradores dos Estados do Sudeste pudessem votar, ele teria 20% ou 21%.

A diferença de 30 pontos percentuais nas intenções de voto em Lula de uma região para outra é ligeiramente maior que a constatada na última pesquisa Datafolha realizada antes do primeiro turno de 2014.

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Problemas Éticos para Maximização da Felicidade

Segundo Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, mesmo se possuíssemos um instrumento infalível para medir a felicidade, não poderíamos prosseguir com o projeto de maximizar a felicidade. A felicidade tal como é entendida pelos economistas da felicidade não é um objetivo político típico, completamente separado de quaisquer problemas de medição, pela simples razão de que não é necessariamente bom. Transformá-lo num objetivo político é abrir a perspectiva perturbadora do que o guru do LSD denominou “engenharia hedônica”.

Hedonismo é o termo comumente empregado em sentido moral para designar cada doutrina segundo a qual o prazer é o único ou principal bem da existência e sua busca, a finalidade ideal da conduta, embora com divergências no que concerne a:

  1. o conteúdo desse prazer e
  2. os caminhos para obtê-lo.
  • No cirenaísmo, a meta da vida humana é a busca do máximo do prazer físico, considerado o fundamento de todos os prazeres, ditos “espirituais”.
  • No epicurismo, o maior prazer da vida humana consiste na ausência da dor, e a meta da existência é a imperturbabilidade do corpo, da mente e do espírito.
  • No utilitarismo, o bem não está no prazer individual, mas naquele que se estende ao maior número de pessoas.

Como é que os economistas da felicidade compreendem a felicidade? Poucos deles pensam muito na matéria. Um líder do ramo contenta-se em repetir a definição benthamita clássica de Henry Sidgwick: “a felicidade é um excesso de prazer relativamente à dor; os dois termos são usados, com significados igualmente abrangentes, para incluir, respetivamente, todos os tipos de sentimentos agradáveis e desagradáveis”. Por outras palavras, a felicidade é um estado de espírito subjetivamente agradável, não uma condição de ser objetivamente desejável. Continue reading “Problemas Éticos para Maximização da Felicidade”

Faz Sentido Medir e Agregar Estados Individuais de Felicidade?

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, criticam os investigadores da felicidade, porque eles não se preocupam normalmente com o enunciado exato dos seus questionários nem com a relevância das suas escalas.

Contentam-se em observar que, independentemente do que possam estar a medir, está fortemente correlacionado com outras coisas associadas à felicidade:

  1. tensão arterial baixa,
  2. níveis de atividade elevados no hemisfério esquerdo do cérebro,
  3. boa saúde e
  4. muitos sorrisos.

No jargão profissional, isto parece bastar para considerar os seus resultados “válidos”. Mas isto suscita agora uma perplexidade de um tipo mais filosófico. Se a validade dos inquéritos sobre felicidade tem de ser confirmada relativamente ao que já sabemos sobre felicidade, que novas informações podem conter? Ou correspondem ao conhecimento existente, e nesse caso são redundantes, ou não correspondem, e nesse caso são imperfeitos.

Quando muito, os inquéritos sobre felicidade podem desenvolver com mais pormenores o que nós já sabemos. Todavia, não podem dizer-nos nada radicalmente novo. Se o fizessem, não acreditaríamos neles. Continue reading “Faz Sentido Medir e Agregar Estados Individuais de Felicidade?”