Faz Sentido Medir e Agregar Estados Individuais de Felicidade?

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, criticam os investigadores da felicidade, porque eles não se preocupam normalmente com o enunciado exato dos seus questionários nem com a relevância das suas escalas.

Contentam-se em observar que, independentemente do que possam estar a medir, está fortemente correlacionado com outras coisas associadas à felicidade:

  1. tensão arterial baixa,
  2. níveis de atividade elevados no hemisfério esquerdo do cérebro,
  3. boa saúde e
  4. muitos sorrisos.

No jargão profissional, isto parece bastar para considerar os seus resultados “válidos”. Mas isto suscita agora uma perplexidade de um tipo mais filosófico. Se a validade dos inquéritos sobre felicidade tem de ser confirmada relativamente ao que já sabemos sobre felicidade, que novas informações podem conter? Ou correspondem ao conhecimento existente, e nesse caso são redundantes, ou não correspondem, e nesse caso são imperfeitos.

Quando muito, os inquéritos sobre felicidade podem desenvolver com mais pormenores o que nós já sabemos. Todavia, não podem dizer-nos nada radicalmente novo. Se o fizessem, não acreditaríamos neles.

As correlações da felicidade autoavaliada são de dois tipos:

  1. fisiológicas e/ou
  2. circunstanciais.

Do lado fisiológico, foi demonstrado que as pessoas que se classificam como felizes tendem a ter níveis mais elevados de atividade elétrica no cérebro anterior esquerdo e sistemas imunitários fortes. Mas como é que sabemos que essas coisas detectam felicidade? Claramente, a resposta não pode ser que detectam a felicidade autoavaliada uma vez que é o próprio item em questão.

Outros estudos revelam uma correlação entre felicidade autoavaliada, por um lado, e as ações e circunstâncias associadas à felicidade, por outro lado. Foi demonstrado, por exemplo, que as pessoas que se caracterizam como mais felizes também:

  1. são classificadas como mais felizes pelos amigos e familiares, e
  2. sorriem com maior frequência.

Investigadores estabeleceram uma correlação entre qualidade de vida nas cidades, medida por horas de sol, tempos de viagem de e para o emprego, índices criminais, etc., e a felicidade autoavaliada dos seus habitantes. Neste caso, a correlação não é uma causalidade daquela para esta e, então, aquela variável é objetivamente mais fácil de ser pesquisada do que esta subjetiva?

Se esses estudos forem credíveis, mostram que as pessoas que dizem ser felizes são de fato, em média, felizes. Todavia, este resultado não é a justificativa que parece à primeira vista, pois pressupõe que já temos uma medida de como as pessoas são felizes, independentemente do que elas dizem sobre o assunto, nomeadamente, partimos a priori de uma compreensão racional do que é bom para os seres humanos.

As autoavaliações não podem ser o critério fundamental de felicidade, por muito úteis que possam ser como indicadores complementares. Uma simples experiência de pensamento corrobora isto. Imaginem uma mulher cujos filhos morreram num violento acidente, e cujas ações irradiam tristeza, mas que, não obstante, se declara feliz. Presumiríamos que ela está mentindo, que está enganando a si mesma ou usando palavras de uma forma invulgar com uma compreensão idiossincrática de “feliz”. Contra todas as aparências, não insistiríamos que ela é verdadeiramente feliz.

Em suma, a felicidade não é um item no teatro interior da mente, visível apenas para o seu proprietário. A felicidade manifesta-se essencialmente em atos e acontecimentos. Se não fosse assim, seria misterioso como poderíamos falar sequer dela. O pressuposto subjacente ao método de inquérito – que somos juízes abalizados da nossa própria felicidade – é falso.

Não sabemos que somos ou não felizes?! Ou não sabemos se somos mais felizes ou não que outras pessoas?

Os inquéritos sobre felicidade são duvidosos, quer devido às confusões de formulação e medição mencionadas quer também, mais fundamentalmente, porque não são especialistas na nossa felicidade. Por conseguinte, requerem validação externa, quer sob a forma de correlações formais quer com o nosso sentido intuitivo de como as pessoas são felizes. Todavia, na medida em que recebem essa validação, tornam-se redundantes. Aparentemente, a sua função é essencialmente cerimonial: serve para conferir a bênção da ciência às constatações do senso comum.

No entanto, os inquéritos podem ajudar-nos a classificar as várias causas de felicidade e infelicidade por ordem de importância, onde isto ainda não é óbvio. Todos sabemos que o desemprego torna as pessoas infelizes, por exemplo, mas será talvez interessante saber que o seu impacto é ainda maior do que o divórcio.

Por fim, os inquéritos sobre felicidade podem ser úteis em lugares onde a obtenção de informações sobre as condições de vida é difícil ou dispendiosa. Mas quando as estatísticas de saúde, emprego, educação, casamento, etc., estão prontamente disponíveis, como acontece na maioria das nações desenvolvidas, não há motivo para não apelarmos diretamente a elas em vez de fazermos um desvio pela felicidade. Esta será a abordagem no Capítulo 6 do livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”.

No que diz respeito às comparações internacionais, as diferenças culturais e linguísticas já mencionadas tornam quaisquer conclusões muito incertas. Até o proeminente defensor da economia da felicidade admitiu que os esforços para comparar os níveis médios de bem-estar de diferentes países deviam ser tratados com uma cautela considerável.

“A tentativa de criar Contas Nacionais de Bem-Estar como um suplemento ou rival do PIB é um exercício de futilidade”, segundo Robert Skidelsky e Edward Skidelsky. Nunca devíamos esquecer que essas contas medem apenas o que as pessoas dizem sobre a sua felicidade. Não medem, nem podem medir, a felicidade em si.

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