Problemas Éticos para Maximização da Felicidade

Segundo Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, mesmo se possuíssemos um instrumento infalível para medir a felicidade, não poderíamos prosseguir com o projeto de maximizar a felicidade. A felicidade tal como é entendida pelos economistas da felicidade não é um objetivo político típico, completamente separado de quaisquer problemas de medição, pela simples razão de que não é necessariamente bom. Transformá-lo num objetivo político é abrir a perspectiva perturbadora do que o guru do LSD denominou “engenharia hedônica”.

Hedonismo é o termo comumente empregado em sentido moral para designar cada doutrina segundo a qual o prazer é o único ou principal bem da existência e sua busca, a finalidade ideal da conduta, embora com divergências no que concerne a:

  1. o conteúdo desse prazer e
  2. os caminhos para obtê-lo.
  • No cirenaísmo, a meta da vida humana é a busca do máximo do prazer físico, considerado o fundamento de todos os prazeres, ditos “espirituais”.
  • No epicurismo, o maior prazer da vida humana consiste na ausência da dor, e a meta da existência é a imperturbabilidade do corpo, da mente e do espírito.
  • No utilitarismo, o bem não está no prazer individual, mas naquele que se estende ao maior número de pessoas.

Como é que os economistas da felicidade compreendem a felicidade? Poucos deles pensam muito na matéria. Um líder do ramo contenta-se em repetir a definição benthamita clássica de Henry Sidgwick: “a felicidade é um excesso de prazer relativamente à dor; os dois termos são usados, com significados igualmente abrangentes, para incluir, respetivamente, todos os tipos de sentimentos agradáveis e desagradáveis”. Por outras palavras, a felicidade é um estado de espírito subjetivamente agradável, não uma condição de ser objetivamente desejável.

Quanto a outros economistas da felicidade temos de partir do princípio de que partilham esta compreensão psicológica de felicidade, caso contrário a sua confiança nas autoavaliações é um mistério.

O conceito psicológico de Sidgwick tornou-se padrão no Ocidente moderno. Para muitos, parece o mais simples senso comum. Todavia, em uma análise mais profunda, a nossa compreensão do que é ser feliz acaba por conter muitos resíduos da ideia mais antiga de “boa sorte”.

Mas Robert Skidelsky e Edward Skidelsky insistem que, entendida no sentido psicológico, a felicidade não pode ser o bem supremo. Não podemos pensar que todo o nosso sofrimento e trabalho árduo tem como objetivo algo tão trivial como um acaso.

Logo, o argumento deles tem a forma de um dilema:

  • ou a felicidade é entendida no sentido pré-moderno, como uma condição de ser, e nesse caso não é o gênero de coisa que pode ser medida em inquéritos sobre felicidade,
  • ou a felicidade é compreendida no sentido moderno, como um estado de espírito, e nesse caso não é o bem supremo.

Seja como for, o projeto de Economia da Felicidade falha.

A interpretação de felicidade implícita na investigação moderna da felicidade tem dois elementos principais. Ambos são questionáveis na medida em que estão em conflito com o que pensamos realmente sobre felicidade, em oposição a o que podemos à primeira vista pensar que pensamos. Robert Skidelsky e Edward Skidelsky os analisa sucessivamente.

A felicidade é agregativa. Dito de outra forma, a felicidade de uma vida inteira é o somatório (se for a média isto leva a conclusões bastante diferentes) da felicidade dos seus momentos individuais. Isto contrasta com o que pode ser chamado uma opinião “holística”, que vê a felicidade de uma vida como irredutível à das suas partes momentâneas.

Os investigadores discordam relativamente a como melhor medir a felicidade agregada. O psicólogo Daniel Kahneman defendeu, muito no espírito de Edgeworth, que devíamos tentar medir a felicidade momento a momento e depois integrar os resultados. Em contraste, a grande maioria dos investigadores está disposta a confiar na avaliação que os sujeitos fazem do seu nível global de felicidade. Mas estas são apenas diferenças de método. Todos os investigadores da felicidade têm de concordar que a felicidade é agregativa, não de carácter holístico, pois se assim fosse teriam de obedecer à injunção de não afirmar que um homem é feliz até ele morrer.

Esta compreensão agregativa de felicidade tem algum apoio da cultura circundante. O inglês moderno (em contraste com muitas outras línguas) permite-nos falar em sermos felizes por algumas horas ou até minutos. Isto possibilita pensar em uma vida feliz como uma sequência de momentos felizes.

Mas acreditamos realmente nisto? Comparemos a vida de:

  1. um homem que ultrapassa o sofrimento no princípio da vida para realizar coisas grandiosas com a de
  2. um jovem nascido em “berço de ouro” que perde tudo ao longo da vida.

Naturalmente, descreveríamos o primeiro como feliz e o segundo como infeliz. Todavia, as duas vidas podem conter um número igual de momentos felizes. Então, porquê esta distinção? Seguramente, a resposta é que o sofrimento no começo de uma vida é sentido como bom pela realização posterior.

Em retrospectiva, a perda inicial pode ser vista como um teste ou uma aprendizagem, como parte de uma história maior de sucesso. Em contraste, o sofrimento no fim da vida mantém-se não redimido, resgatado ou salvo – a menos, é claro, que olhemos para além deste mundo.

Só com a morte é que a forma ou significado global de uma vida se torna visível. Dizer que uma vida é feliz ou infeliz antes do fim é como classificar uma peça como trágica ou cômica antes do desfecho.

O sofrimento não redimido não é a única coisa que pode arruinar a forma de uma vida. Uma vida repleta de momentos felizes, do princípio ao fim, pode, não obstante, ser infeliz se esses momentos não se fundirem em um todo maior. Por exemplo, o playboy que, com uma vida de farras, faleceu depois de dissipar a sua fortuna em divertimentos suntuosos, teria dito perto do fim da vida: “Não me aconteceu grande coisa. É como uma festa – esquece-se no dia seguinte”.

Poderíamos resistir a dizer que ele foi feliz, embora ele tenha vivido uma vida sem dúvida cheia de momentos felizes. E mesmo se ele tivesse morrido antes de o arrependimento se ter instalado, ainda assim poderíamos hesitar em caracterizá-lo como feliz. De qualquer modo, é um ponto controverso.

Outro caso é o de uma vítima da síndrome de Korsakov, que não consegue recordar nada durante mais do que alguns minutos. A sua vida é profundamente fragmentada em uma sequência incoerente de episódios fugazes e desconexos. Porém, está inconsciente do seu estado. Ele sente prazer em cada momento à medida que ele acontece em eventos casuais. Será feliz?

O filósofo fiel à sua Teoria Hedonista da Felicidade tem de afirmar que é. Robert Skidelsky e Edward Skidelsky dizem que não é. Quando os pais desejam felicidade aos filhos, regra geral não é uma vida como a dessa perda de saúde mental que imaginam.

Pensamentos como este incentivam a eles irem na direção de uma teoria mais objetiva de felicidade. A infelicidade da vítima da síndrome de Korsakov, mesmo que esteja na forma como os seus estados de consciência são organizados, não está presente na sua consciência. É necessariamente visível apenas para os outros.

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