Felicidade é um Estado de Espírito

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, tentam mostrar que uma vida feliz, tal como a frase é compreendida pela maioria das pessoas, não é apenas uma série de estados de espírito agradáveis, mas uma vida que inclui certos bens humanos básicos.

Mas para os que não estão convencidos com esta sugestão, eles apresentam a segunda parte difícil do dilema: se a felicidade é apenas um estado de espírito, como pode ao mesmo tempo ser o bem supremo, o objetivo supremo de toda a nossa luta?

Trabalhar durante anos em uma obra de arte ou a criar um filho simplesmente para desfrutar do estado mental daí resultante é trair uma atitude muito peculiar perante a vida. Todavia, é precisamente esta atitude que está na base do atual culto da felicidade.

O problema pode ser colocado com um pouco mais de precisão. Os economistas da felicidade acreditam que os estados de espírito são bons na medida em que são felizes. Quanto mais felizes, melhor; quanto mais tristes, pior. Os objetivos ou ocasiões de felicidade e tristeza não têm importância moral.

“Nenhum sentimento bom é mau em si”, escreve Richard Layard. “Só pode ser mau devido às suas consequências”. Outros economistas da felicidade são menos francos, mas devem acreditar em alguma coisa semelhante se o seu projeto é fazerem sentido moral. Se a felicidade não é intrinsecamente boa, para que estão tentando maximizá-la?

Porém, o simples fato é que “a felicidade, psicologicamente concebida, não é boa em si, mas na medida em que é devida, ou pelo menos não indevida”.

O valor de um estado de espírito feliz depende em parte do mérito ou então do seu objetivo. E se isto for reconhecido, então o projeto de maximizar a felicidade em si, independentemente dos seus objetivos, assume um aspecto sinistro.

Do mesmo modo que existe felicidade sem motivo, também existe tristeza sem motivo. É claro que a tristeza é muitas vezes sem motivo quando está enraizada em convicções falsas ou mecanismos mentais irracionais, mas em outros casos é simplesmente a lúcida percepção de coisas merecedoras de tristeza. Enquanto essas coisas existirem – e, seguramente, existirão sempre – a tristeza só poderá ser eliminada se:

  • a afastarmos da vista ou
  • alterarmos as nossas sensibilidades para deixarmos de nos preocupar com ela.

É fácil imaginar formas de fazer isto. Os cientistas podem desenvolver uma droga – uma espécie de aspirina psíquica – para apagar todas as recordações de desgosto ou angústia. Jornais e boletins noticiosos poderiam deixar de noticiar fomes, catástrofes, crimes, corrupções, etc. Algumas dessas medidas poderiam funcionar. No entanto, nenhuma delas nos parece remotamente desejável.

Muitas tradições religiosas e filosóficas viram a tristeza como a reação certa não apenas para a tragédia individual, mas para a tragédia da vida humana em si.

Os economistas da felicidade menosprezarão sem dúvida tudo isto como místicas de monges da miséria. Todavia, não é preciso ser um monge ou um filósofo para encontrar algo perturbador no projeto de maximizar a felicidade em si, independentemente dos seus objetivos, pois a conclusão lógica de um projeto desse tipo é:

  1. prescindir completamente dos objetivos externos e
  2. agir diretamente no cérebro.

Alguns economistas da felicidade já chegaram a esta conclusão. Apelaram à investigação da estimulação cerebral, uma operação com o poder de gerar “prazer intenso sem diminuir a utilidade marginal”. Acrescentam alegremente que o único método potencialmente mais eficaz é a engenharia genética!

Richard Layard fala entusiasticamente sobre drogas que alteram a disposição, não apenas como remédios para a depressão, mas como dispositivos que melhoram o bem-estar geral. A euforia perpétua é rejeitada por ele apenas porque “parte do tempo devíamos precisar que as nossas mentes estivessem suficientemente atentas para organizar a nossa existência”. Caso contrário, presumivelmente, estaríamos melhor em um estado de felicidade idiota permanente.

O Admirável Mundo Novo ainda não chegou. Economistas da felicidade não querem obrigar-nos a tomar droga ou a estimular os nossos cérebros. Eles são maximizadores forçados. Procuram maximizar a felicidade dentro da estrutura estabelecida de direitos legais. Mas esta qualificação não é muito tranquilizadora, pois o aspecto mais profundo e mais perturbador do Admirável Mundo Novo não é coerção, mas infantilismoo desaparecimento de todo o desejo ou ligação que poderia quebrar a máquina do prazer.

Só no caso muito especial da depressão econômica é que a infelicidade é um mal inequívoco e um alvo legítimo de ação estatal. Mas a depressão é um caso à parte. Não é apenas infelicidade extrema, mas infelicidade inapta e desproporcionada, e é isto que constitui a sua maldade peculiar.

Uma viúva chorosa poderia ser não menos infeliz do que um homem com depressão, devido ao desemprego, mas a sua infelicidade é uma resposta adequada à perda, não um problema que tem de ser curado.

A depressão psíquica é um problema médico e deve ser tratado sob a rubrica da saúde mental. A depressão econômica é um problema a ser tratado pela casta de sábios tecnocratas coordenados com a casta de mercadores. Não fazem, como Layard afirma, parte de uma crise geral de infelicidade e a luta contra elas também não deve ser vista como parte de uma campanha mais vasta para tornar as pessoas mais felizes.

Ir da procura do crescimento para a procura da felicidade é passar de um falso ídolo para outro. Nosso objetivo adequado, segundo Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, enquanto indivíduos e enquanto cidadãos, é não apenas sermos felizes, mas termos razão para sermos felizes. Ter as coisas boas da vida – saúde, segurança, personalidade, respeito, harmonia com a natureza amizade, lazer – é ter razão para ser feliz. Ser feliz sem essas coisas é estar dominado por uma ilusão: a ilusão de que a vida corre bem quando na realidade não corre.

Essa ilusão é conhecida pelos marxistas como uma ideologia e serve para esconder o fato real da opressão e degradação. Paraíso e álcool eram os instrumentos tradicionais para reconciliar os desventurados com a sua sorte. O aval à felicidade feito por um governo republicano democrático sugere que ele poderá desempenhar um papel semelhante.

É evidente que a maioria dos economistas da felicidade não tem esse desígnio. Como nós, eles só desejam afastar a política da busca cega de riqueza para a melhoria das condições de vida reais. Mas adotaram uma linguagem que aponta – “objetivamente”, como dizem os marxistas – em uma direção bastante diferente.

Pois se a felicidade é uma simples sensação privada, sem uma ligação intrínseca a viver bem, então a droga ou a estimulação cerebral poderão ser os meios mais baratos e mais eficazes para alcançá-la. Porque não admitir frontalmente que a nossa preocupação é com a vida boae deixar a felicidade cuidar de si mesma?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s