Felicidade Unidimensional

Os economistas da felicidade defendem, juntamente com Jeremy Bentham e Henry Sidgwick e contra John Stuart Mill, que todos os estados conscientes podem ser classificados de acordo com o seu nível de felicidade. Além disso, alguns defendem que lhes pode ser atribuído um valor cardinal que expresse o seu grau de felicidade, mas isto é controverso.

Assim, existiria uma única medida de felicidade. As distinções feitas pela linguagem comum entre felicidade, júbilo, prazer, contentamento e os seus diversos correspondentes negativos são menosprezadas.

Richard Layard oferece uma analogia engenhosa: do mesmo modo que todos os sons podem ser classificados como mais ou menos barulhentos, consoante as suas diferenças de intensidade, tom, etc., também todos os estados de espírito podem ser classificados como mais ou menos felizes. Se não pudessem, o projeto de medição de felicidade fracassaria de início.

De acordo com Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, estas suposições podem ser necessárias por razões de conveniência metodológica, mas são, não obstante, profundamente imperfeitas.

Os sentimentos positivos existem em muitas formas e a felicidade é apenas uma delas. E dentro da própria felicidadedistinções de qualidade irredutíveis às diferenças de grau. Como exemplo, olhemos para as diferenças entre prazer, felicidade e alegria, notando de passagem que pode haver outras distinções igualmente fundamentais.

Analisemos o prazer em primeiro lugar. Os economistas da tradição benthamita identificam rapidamente felicidade com prazer, esperando dessa forma eliminar as suas confusões. O prazer – segundo este pensamento – é um tipo especial de sentimento que varia apenas em termos de quantidade. Assim, se felicidade é prazer, também ela pode ser tratada quantitativamente.

Mas, na verdade, o prazer não é um sentimento especial. Imaginem dois amigos que estão embrenhados em uma conversa e ouvem uma música que distrai os amigos da sua conversa. Eles não podem desfrutar de ambas ao mesmo tempo.

Em resumo, o prazer não é um sentimento distinto, gerado agora de uma forma, depois de outra. Está profundamente ligado aos seus objetos. Reduzir felicidade a prazer com o objetivo de revelá-la como unidimensional é perceber tudo mal desde o início.

Em todo o caso, felicidade não é prazer. A gramática lógica dos dois conceitos é bastante diferente. O prazer é muitas vezes (embora nem sempre) localizável no corpo. Em contraste, a felicidade não tem uma localização física. Uma pessoa não é feliz em alguma parte específica do corpo. O prazer ocupa um tempo preciso. A felicidade também é por vezes “cronometrada” desta forma, embora as suas fronteiras nunca sejam tão precisas de quando a felicidade surgiu e se desvaneceu.

Todavia, também há uma espécie de felicidade sem dimensões temporais. Dizer que alguém teve uma vida feliz não é dizer que ele foi feliz em determinados momentos ou em uma determinada proporção do tempo. O prazer nunca é atemporal desta forma. Uma “vida de prazer” é apenas uma vida cheia de episódios agradáveis. O prazer pontua a vida; não caracteriza a vida como um todo.

Estes contrastes entre felicidade e prazer estão enraizados em uma diferença mais fundamental e fenomenológica entre os dois estados. Felicidade não é apenas um sentimento interior, mas uma atitude, uma perspectiva da realidade. É a ditosa percepção de que isto ou aquilo acontece, por exemplo, que a minha filha vai para a universidade, que o meu país foi libertado.

Há algumas exceções a esta regra. Bebês e animais podem ser felizes sem serem felizes com alguma coisa. Por vezes os adultos também se sentem felizes “por nenhuma razão em particular”. Porém, mesmo nesses casos a felicidade manifesta-se tipicamente como uma determinada atitude perante o mundo.

O prazer também tem objetivos, mas estes diferem dos objetivos da felicidade na medida em que são, acima de tudo, empíricos. Uma pessoa não pode sentir prazer com coisas que acontecerão depois da sua morte, embora seja possível sentir prazer ao pensar nelas.

Ao contrário da felicidade, o prazer não está centralmente associado a crenças sobre o mundo. Pode subsistir de fantasias e ilusões. Por exemplo, uma mulher virtual poderia dar prazer a um homem, mas apenas uma mulher real, ou que se acreditasse ser real, poderia fazê-lo feliz. E mesmo nos casos em que o prazer é obtido em situações reais, ele leva-as sutilmente para a órbita da experiência.

Há uma reputação dúbia do prazer. “Viver para o prazer” implica uma cultura de experiência, uma atitude incomum perante o mundo. E isto mantém-se verdadeiro quer os prazeres em questão sejam da variedade “nobre” quer sejam da variedade “mundana”.

Depois, há o júbilo. O júbilo é um estado mais exaltado de regozijo do que o prazer ou a felicidade, e, no entanto, também é mais elusivo. Prazer e felicidade podem ser perseguidos, mas seria difícil perseguir o júbilo. O júbilo é paradoxalmente congruente com o sofrimento, daí a sua predominância na escrita cristã. Uma mulher religiosa, depois de muitas provações e violências, pode falar da sua “vida jubilosa” a pregar a Palavra Divina. Ela não diz que a sua vida é feliz.

Se o júbilo é compatível com a ausência de felicidade e prazer, felicidade e prazer são igualmente compatíveis com a ausência de júbilo.

Então, felicidade é diferente de prazer e de júbilo. Mas mesmo no campo da felicidade é preciso fazer distinções. Dissemos que a felicidade tem objetivos, que é relativa a alguma coisa. Podemos agora acrescentar que a felicidade assume o seu carácter a partir daquilo a que é relativa.

A felicidade profunda, por exemplo, é caracterizada como tal não por palpitações ou tremores, mas pela sua relação com certos bens humanos crucialmente importantes, por exemplo, amor, parto, a conclusão de uma obra importante…

Se os estados de felicidade vão buscar o seu caráter em seus objetivos, não há razão para supor que todos podem ser classificados por ordem de intensidade. É claro que, se quisermos, podemos separar a “efervescência” e fazer dela a medida da felicidade.

Mas porque é que quereríamos fazer isso?

O que torna a efervescência tão importante?

Seria como se tivéssemos de avaliar discursos baseados unicamente no seu volume, sem ter em conta o conteúdo. O erro também pode ser comparado ao de pessoas que classificam os atos sexuais de acordo com a intensidade ou frequência do orgasmo, ignorando todas as outras formas em que podem ser um sucesso ou um fracasso.

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