Finanças Comportamentais: Efeito Retrovisor e Viés da Sobrevivência

O instinto de sobrevivência de quem fez fuga de capital no passado leva a poucos usarem a oportunidade de repatriamento do capital oferecida pelo governo golpista aos seus apoiadores. A nova edição da lei de anistia a recursos não declarados por brasileiros no exterior deve trazer aos cofres públicos algo entre 25% e 30% do volume arrecadado com o primeiro programa — entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões –, o que pode significar mais R$ 45 bilhões em recursos que vão ganhar livre trânsito internacional para aplicar no Brasil ou seguir fora do país.

A Receita Federal estima no seu relatório bimestral de receitas e despesas levantar R$ 13,2 bilhões em 2017. Desse total, cerca de metade ficará com a União e a outra parte dividida entre Estados e Municípios. O contribuinte tem até 31 de julho para aderir e pagar o imposto e multa devidos.

A exemplo da primeira rodada do programa, a expectativa é que apenas uma parcela desse volume seja efetivamente repatriado. Para os “private banking” brasileiros, que assessoram seus clientes, é indiferente se os recursos ingressam ou não no país, pois podem prestar assessoria de investimentos de uma forma global, ganhando comissões pelo patrimônio que detêm sob o seu guarda-chuva.

Olhando pelo retrovisor o passado recente, quem deseja repatriar capital?!

Miguel Raiola Vitale (Valor, 27/01/17) afirma que o efeito retrovisor, bem conhecido na indústria de fundos e observado amplamente nas diversas classes de ativos, é fruto de um viés comportamental do investidor. Este é o “return chasing behavior” — tendência a reagir a movimentos mais recentes do mercado, alocando em ativos com melhor desempenho recente e se desfazendo daqueles com performance mais baixa.

Tanto no Brasil quanto no mercado internacional, este tipo de viés já foi amplamente estudado e empiricamente comprovado. No início da década de 90, a academia já se debruçava sobre o tema. Ippolito (1992) encontra forte evidência estatística de que os investidores reagem à performance passada e, mais que isso, esta reação é assimétrica. Esta assimetria, também chamada de convexidade, se refere ao fato de que fundos dos quartis superiores têm captação proporcionalmente maior que os resgates sofridos pelos de pior performance.

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Investidores Institucionais e Risco Privado

FonteEFPC – ABRAPP Consolidado Estatístico_12_2016

Juliana Schincariol (Valor, 07/04/17) avalia que a queda de juros vai forçar os fundos de pensão a ampliar o risco de suas carteiras, a fim de garantir o cumprimento da meta atuarial. Levantamento da consultoria financeira Aditus, com base nas políticas de investimento entre 2017 e 2021 de 115 fundações com R$ 202 bilhões em ativos, mostra que a alocação em renda variável – direta ou via fundos de ações – deve passar dos atuais 5% para 7% do patrimônio ainda em 2017.

Pode até parecer pouco, mas isso representa um aumento de 20% da alocação, que soma R$ 5 bilhões.

O estudo da Aditus leva em conta os 115 maiores fundos de pensão do país – com patrimônio entre R$ 500 milhões e R$ 10 bilhões -, mas exclui gigantes como a Previ (funcionários do Banco do Brasil) e Petros (Petrobras), que passam por mudança na política de investimento. Essas fundações, que têm participação relevante em empresas, buscam agora reduzir a exposição em renda variável para ter mais liquidez conforme aumenta o número de participantes que se aposentam.

Conforme as taxas de juros se aproximam de um dígito, os fundos de pensão ficam com dificuldade para cumprir as metas de rentabilidade aplicando majoritariamente em dívida pública. As fundações estão no ponto mínimo de alocação em renda variável apesar da alta da bolsa no ano passado. Mas já há um movimento de volta para ativos de maior risco, como ações e títulos de dívida privada.

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