A Noruega não é aqui. A felicidade está lá…

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). É também meu ex-colega no IE-UNICAMP. Publicou artigo (Valor, 08/05/17) que diz respeito à Economia da Felicidade, tema sobre o qual falarei no Pint of Science no Echo’s Bar – Campinas, na próxima quarta-feira. Reproduzo abaixo as partes mais interessantes.

“Tive a oportunidade de visitar a Noruega recentemente, pouco depois de o país ser indicado como o mais feliz do mundo em 2017 pelo Relatório Mundial da Felicidade (produzido pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU): World Happiness Report 17-3-2017.

Na Noruega, há o entendimento de que desenvolvimento sustentável só poderá ser alcançado se todos os países do mundo tiverem condições de progredir, sem excluir a nenhum nem a ninguém. Caso contrário, desequilíbrios ambientais, sociais e econômicos globais continuarão a acontecer. Ou seja, o desenvolvimento sustentável de qualquer país, inclusive o da Noruega, está condicionado ao desenvolvimento sustentável global, o que é reconhecido também pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, acordada por todos os Estados Membros da ONU em 2015.

De fato, a Noruega é um dos poucos países desenvolvidos que cumpre o compromisso de destinar 0,7% de seu PIB à cooperação para o desenvolvimento, conforme compromissos internacionais.

Tal atuação externa reflete aspectos internos. O povo norueguês, em geral, entende que felicidade não pode ser de alguns poucos, mas de todos que compõem a sociedade. A felicidade é sinônimo de inclusão, de participação.

E os números demonstram isso. A Noruega possui um dos menores coeficientes de Gini entre todos os países: 0,25 – o dos EUA é 0,41; o do Brasil 0,52 (quanto mais alto, maior a concentração da renda) [Veja a riqueza financeira das 114.802 pessoas mais ricas no Brasil em março de 2017 na tabela acima.]. Os 20% mais ricos da população ganham apenas quatro vezes mais que os 20% mais pobres. Uma diferença brutal para a média dos países latino-americanos, por exemplo.

De fato, a preocupação com a equidade é um traço forte da cultura nórdica, ficando na cooperação para a sobrevivência. Não por acaso, o país desde 2001 lidera também o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Já o Brasil caiu 19 posições e ocupa atualmente o 79o lugar entre 188 nações no ranking de IDH, que leva em conta indicadores de educação, renda e saúde.

Embora a correlação seja óbvia, a distribuição da renda de um país é só um dos passaportes ao pódio da felicidade e do desenvolvimento humano.

O levantamento da ONU avalia, entre outros fatores, a influência das políticas sociais. Nisso a Noruega se singulariza, como se os ideais da Revolução Francesa de liberdade, igualdade e fraternidade mantivessem aqui conexões inoxidáveis em pleno século XXI.

Tanto a igualdade como a fraternidade em nosso tempo incluem certos requisitos fiscais.

A Noruega tem a quinta maior carga fiscal do mundo (43,7% do PIB), com alíquotas que chegam a 47% da renda, ostenta um Estado robusto, que gera 30% do emprego, lapidado por políticas sociais que preservam os laços de pertencimento em todas as etapas da vida, de antes do nascimento a um eventual desemprego.

Ninguém sobra ou fica excluído, o grau de informação sobre a destinação da riqueza é elevado, a escolarização alta, o conjunto sustenta uma sociedade na qual a sorte de cada um interessa ao destino de todos.

Em termos previdenciários, vale a pena observar que todos os cidadãos passam a receber pensão aos 67 anos, independentemente de tempo de contribuição.

E a rapidez com que o país se tornou uma referência de equidade decorre da forma sustentável como seus cinco milhões de habitantes decidiram explorar e preservar as duas maiores riquezas da nação:

  1. o petróleo e
  2. os recursos pesqueiros.

Com a oitava maior costa do mundo, 25 mil quilômetros de extensão (a do Brasil tem 7.491 quilômetros), o mar da Noruega é a rota dos maiores cardumes de bacalhau do planeta. A pesca sempre sustentou o país, até que no final dos anos 60 foram descobertas reservas da ordem de 20 bilhões de barris de petróleo no fundo do mar.

Em vez de bombeá-las com sofreguidão, os noruegueses enxergaram aí a oportunidade de fortalecer seu modo de vida austero, ancorado na capacitação e no bem-estar de sucessivas gerações.

Para regular a velocidade do bombeamento de óleo foi criada a estatal Statoil. Em 1990, estabeleceu-se um Fundo Soberano, ‘Oljefondet‘, composto das rendas e impostos de até 58% sobre a extração. Em paralelo montou-se uma moderna cadeia industrial de fornecedores locais e internacionais.

Hoje, o Fundo Soberano norueguês tem cerca de US$ 890 bilhões, quase dois anos de PIB. O ritmo lento da exploração conciliou a formação da gigantesca poupança com a preservação de 40% dos reservatórios que sustentarão por muito tempo o pacto com o futuro.

Manejar um recurso natural e a sua renda para sobreviver ao próprio ciclo, gerando encadeamentos econômicos e sociais duradouros é a Eureka cobrada das nações em desenvolvimento, cujo desafio hoje é saltar diretamente da pobreza para um modelo sustentável de desenvolvimento inclusivo e emancipação econômica e social.”

2 thoughts on “A Noruega não é aqui. A felicidade está lá…

  1. Prezado Fernando,

    o povo norueguês no passado remoto foi um povo saqueador e conquistador, aos poucos se desfez das crenças estúpidas de seus antepassados, o contato com novos povos os fez perceber que havia a necessidade de viver em paz e desenvolver uma cultura naturalista livre de crendices populares cujo foco é o desenvolvimento sustentável. Foi o investimento em educação o percursor desse resultado.

    Quando os portugueses chegaram ao Brasil encontraram somente índios com uma cultura milenar, o que fizeram? Dizimaram esses povos com a escravidão e os corromperam com as benesses da vida urbana, isso está ocorrendo inclusive nos dias de hoje com os povos da amazônia que são retirados do ceio da floresta e jogados nas favelas das cidades rumo a favelização. É isso que a nossa civilização atual faz com os povos indígenas, vitimiza sua cultura e os transformam em favelados.

    O brasileiro se continuar fabricando igrejas, políticos corruptos e o povo ficar mal-educado, estaremos fadados ao empobrecimento acelerado.

    Penso que o fator determinante de um povo feliz e culto, é o grau de conhecimento que pode adquirir no decorrer da vida, quanto mais educação mais respeito pela natureza, menos crenças em coisas inexistentes – aqui em Curitiba estão construindo uma igreja monumental, enquanto os milhares de mendigos se amontoam pelas ruas. Essa é a prova de que o povo está emburrecendo, se tornando pior que os indígenas que estão lá no mato em completa simbiose com a natureza, sem crenças em tolices e mesmo não tendo adquirido um conhecimento científico, estão livres da corrupção urbana.

    Usar a ciência para construir igrejas no século XXI é a prova de que nosso povo é infeliz, embora não estejam cortando as cabeças como no oriente médio ou arrancando corações como na civilização Asteca, estão condenando nosso futuro à doença mental (um religioso é um doente inconsciente) e pobreza. Lamentável.

    Segue um ótimo documentário para pensarmos a respeito. Mostra a vida de Sydney Possuelo e o processo de civilização na Amazônia. Abs.

    1. Prezado Reinaldo,
      grato pelo comentário e pelo envio do documentário.

      Tive uma conversa no Pint of Science, anteontem, em um bar lotado de jovens interessados, sobre Economia da Felicidade e da Boa Vida. Tentei transmitir a reflexão de que, embora os economistas da felicidade façam medições interessantes e sugiram sábias regras pró ativas para produção de felicidade, vale a crítica de que nossa preocupação deve ser com a vida boa e devemos deixar a felicidade — um estado de espírito passageiro — surgir por si mesma.

      Para me lembrar das regras da produção da felicidade, elaborei um mnemônico: AVCNEB,F = AVC Não É Bom, Fernando!

      Atividades diversas;
      Viver em sociedade e vivenciar em conjunto;
      Concentração no aqui-e-agora;
      Não exagerar em busca da felicidade e achar que não há o que mudar;
      Expectativas realistas para atingir objetivos possíveis;
      Bons pensamentos, ou seja, pensar positivamente sem comparar com outros;
      Felicidade pelo trabalho criativo sem esperar permanência eterna nesse estado-de-espírito passageiro.

      Elaborei outro mnemônico para me lembrar dos bens essenciais para uma vida boa: SSPR-HAL = Secretaria de Segurança Pública Rio – HAL é o nome do computador do filme “2001, Uma Odisseia no Espaço” formado pelas letras anteriores a IBM.

      Saúde: um feliz esquecimento do corpo, apto para tudo;
      Segurança: não perturbada por guerra, crime, revolução ou grandes agitações sociais e econômicas;
      Personalidade: implica na propriedade de um espaço privado, onde o indivíduo tem a liberdade de ser ele próprio;
      Respeito: tolerância de considerar opiniões divergentes dignos de consideração;
      Harmonia com a Natureza: prevenção contra os efeitos perniciosos da superlotação urbana no comportamento psicológico e na disposição pessoal;
      Amizade: incentivar as virtudes e criticar os defeitos, pois “amigo não é cúmplice”, de uma pessoa amiga considerada igual a si próprio;
      Lazer: uma forma especial de atividade mental criativa em lugar do trabalho árduo alienante.

      Abraço

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