Correlação não é Causalidade: Dow Jones X Ibovespa

Denise Godoy (Valor, 04/05/17) avalia que, enquanto o mercado acionário americano renova sucessivas marcas históricas, a bolsa brasileira, apesar de algumas sessões isoladas de ganhos, segue patinando no mesmo nível, sem forças para sustentar uma tendência de alta firme.

Especuladores dizem que isso ocorre por causa das incertezas sobre as reformas golpistas em direitos sociais e a capacidade de o Brasil retomar o crescimento sustentável que têm desencorajado os investidores a fazer grandes apostas no mercado de ações local.

Já em Wall Street, o otimismo com os planos do novo presidente bilionário pró-mercado para impulsionar a atividade econômica vem sustentando uma inédita trajetória de alta, batizada de “rali do Donald Trump“.

Esse descompasso fica claro quando se analisa a movimentação relativa das bolsas brasileira e americana. A correlação entre o Ibovespa e o Índice Dow Jones, o mais importante do mercado de ações de Nova York, está no seu menor nível do ano: 0,68, segundo levantamento do Valor Data. Quanto mais perto o coeficiente se encontra de 1, mais próxima é a ligação entre dois indicadores. Isso significa que, se a bolsa americana sobe 1%, a bolsa brasileira avança 0,68%.

Examinando mais de perto as curvas dos índices, é possível encontrar momentos de grandes discrepâncias em 2017.

  • Em 23 de fevereiro, por exemplo, quando o Dow Jones cravou o seu 10o recorde em um ano, o Ibovespa recuou 1,64%.
  • Em 9 de fevereiro, dia em que o S&P500 – que reúne as 500 maiores empresas americanas – atingiu o pico de 2.307,87 pontos, o Ibovespa subiu apenas 0, 02%.
  • No dia em que o Nasdaq, índice das companhias de tecnologia, alcançava o nível mais alto da história, o mercado local estava fechado, mas, no recorde anterior, registrado uma semana antes, o Ibovespa subiu 0,99%, mantendo-se perto dos 64.500 pontos.

Como os Estados Unidos são o segundo mais importante parceiro comercial do Brasil e os estrangeiros respondem por cerca de 51% dos negócios com ações na Bovespa, boas notícias para a bolsa americana frequentemente acabam contagiando o mercado local. Assim, o projeto de Trump de investir pesadamente em infraestrutura e estimular o consumo deveria fomentar uma elevação entre as empresas brasileiras também, até porque muitas companhias locais, como JBS e a Gerdau, têm operações fortes em terras americanas.

Quando, antes da volta da Velha Matriz Neoliberal, há cerca de cinco anos, a economia da maior potência mundial começou a se recuperar da crise das hipotecas iniciada em 2008 e 2009 e as bolsas dos EUA viveram dias de euforia, a correlação entre os dois mercados era bastante estreita: em 2012, a correção alcançou o pico de 0,95. Naquele ano, o Dow Jones ganhou 6,55%, enquanto o Ibovepa avançou 5,4%. Já em 2013, o coeficiente voltou a subir no segundo semestre e atingiu 0,81. Nos últimos seis meses daquele ano, o Ibovespa avançou 8,02%, enquanto o Dow Jones, que teve três recordes de alta em novembro, ganhou 13,57%.

Mas, quando o golpismo brasileiro passa a avançar, o cenário doméstico ganha mais influência e a correlação diminui.

Foi o que ocorreu em 2014, ano da última eleição presidencial no Brasil, quando as preocupações com o rumo da política econômica, especialmente com o quadro fiscal, acabaram tendo um peso maior sobre a decisão de investimentos em ações, o que reduziu o coeficiente para baixo de 0,5 a partir de fevereiro daquele ano.

Com o golpe no governo eleito, que representou para O Mercado a possibilidade da retomada do controle da política econômica pró mercado, a bolsa voltou a acompanhar mais de perto o comportamento do exterior. Assim, em janeiro de 2016 a correlação atingiu 0,9.

O que se observa neste início de 2017 é que as turbulências domésticas estão limitando o efeito de qualquer notícia que não tenha relação com as dificuldades políticas e econômicas do Brasil.

“O problema é que a economia brasileira está horrível agora“, disse o chefe de investimentos para a América Latina da gestora NCH Capital. “Não estamos lutando para sair de uma simples recessão, mas de uma depressão.”

A estratégia da administração golpista Michel Temer para agradar O Mercado, que financia o PMDB, se apoia, principalmente, na “melhoria do ambiente de negócios”, supostamente com medidas como cortes de direitos na reforma trabalhista e na diminuição do déficit público pelo corte dos benefícios pagos pela Previdência Social.

Com a redução de tais gastos, espera-se que as taxas de juros caiam, estimulando o setor privado a investir em atividades produtivas. Evidentemente, isso fracassará, pois há uma assimetria nos efeitos da política monetária: ótima arma para provocar uma depressão, instrumento ineficiente para retomar o crescimento econômico depois da brutal queda.

O tempo do mercado financeiro é diferente do tempo da política. A expectativa é de que o ritmo na bolsa continue devagar, pautado pela cautela.

A retomada da economia ainda precisa ganhar tração. Muito dos recentes fracassos governamentais já foi precificado no mercado de renda variável, o prêmio de risco não está atraente e a moeda não se encontra mais barata.

Adriana Cotias (Valor, 04/05/17) informa que, em meio ao rali do mercado acionário ao longo de 2016, os gestores de fundos de ações brasileiros ativos foram incapazes de bater os referenciais de mercado, segundo levantamento da S&P Dow Jones Indices.

Pelo estudo S&P Indices Versus Active Latin America Scorecard, que compara o desempenho dos portfólios com os respectivos benchmarks aferidos pela agência no Brasil, México e Chile, 82% dos fundos brasileiros que prometem seleção ativa entregaram resultados abaixo do S&P Brasil BMI, que subiu 37,9% no ano passado. Em período de cinco anos, 72,3% ficaram abaixo do referencial.

Houve uma alta significativa da bolsa brasileira em 2016 (+38%) comparada a 2015 (-14% de retorno total). Parece que os gestores ativos no Brasil foram incapazes de superar o forte ‘bull market‘, como tinham conseguido no ano de queda.

Vale ressaltar que os fundos com patrimônio menor tiveram melhor desempenho quando comparados aos grandes, provavelmente porque concentram investimentos no grupo de empresas de maior capitalização na bolsa, que tiveram performance expressiva no ano passado, em comparação às pequenas e médias. Nesse cenário, mais árdua a tarefa de o gestor ser bem sucedido, no conjunto. No Brasil, 1.232 fundos foram incluídos no estudo.

Entre os fundos da categoria “mid-small caps, no ano passado apenas 30% conseguiram bater o mercado, proporção que cai pela metade na leitura de cinco anos. Nas carteiras que privilegiam ações de grandes companhias, apenas 2% delas obtiveram retorno acima do referencial, o Brazil Large Cap (com ganhos de 42,3%) em 2016.

No intervalo de cinco anos, o diferencial de performance entre as duas estratégias é mínimo, com o universo que melhor acerta limitando-se a 15% ou 16% da amostra. Na América Latina, no período mais longo, foram os gestores do México que tiveram o maior índice de acerto, com 30%, no horizonte mais longo.

Apesar dos resultados pouco favoráveis à gestão ativa à primeira vista, há espaço para a coexistência dos dois estilos. Gestores que exibam excesso de retorno com estratégias não facilmente replicáveis por fundos passivos têm mais chance de sucesso. Houve uma mudança constante no patrimônio líquido dos fundos ativos em direção a carteiras passivas nos Estados Unidos desde meados da década de 2000, mas são os portfólios ativos que reúnem maior patrimônio.

Também na renda fixa, nos Fundos de Crédito Privado no país, a assertividade foi relativamente baixa, com só 8,1% dos gestores superando o índice de debêntures (IDA) calculado pela Anbima no ano passado. Segundo a S&P, isso contrasta com o resultado de 2015, quando 79,2% dos fundos obtiveram performance acima do referencial. E mesmo naqueles com títulos públicos, perto de 77% ficaram abaixo do IMA, o referencial de renda fixa da Anbima, em 2016. Em 2015, 65,4% bateram o referencial. Na janela de cinco anos, 82% tiveram desempenho pior que o mercado.

No exterior, tal dinâmica se replica. A discussão entre fundo ativo e passivo é um tema mundial. O principal problema da gestão ativa é que o valor que os gestores ativos atribuem ao trabalho deles não se justifica quando o desempenho é comparado a um benchmark ou a fundos passivos. A gestão ativa perde sempre!

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