Assimetria da Política Monetária de Juros

“Política monetária é como mola, serve para puxar, mas para impulsionar não é de grande valia”.

“Política monetária é como corda: você laça o touro, mas se ele se volta contra você, ela não serve para retrocedê-lo”.

“Controlar a economia com a política monetária é o mesmo que segurar um tigre por seu rabo”.

“Enxugar a liquidez da economia é o mesmo que enxugar gelo”.

“Você pode levar o cavalo à fonte, mas não pode obrigá-lo a beber, assim como pode dar liquidez à economia, mas não consegue expandi-la”.

O que há de comum entre essas metáforas? Todas tratam do papel assimétrico exercido pela política monetária e creditícia, no controle e na criação de liquidez, para o sistema econômico. Essa política, no sentido contracionista, sem dúvida, tem o significado de contrair a liquidez real, se, efetivamente, limita a capacidade de criação de poder de compra ex-nihilo pelos bancos. Mas a política monetária e creditícia expansionista pode não expandir a liquidez do sistema, se não forem acompanhadas de decisões de gastos dos agentes econômicos.

O Brasil experimentou recentemente juro real muito menor que o vislumbrado pelos “economistas videntes” agora e, nem por isso, assistiu a um ciclo consistente de crescimento. Em 2012, no mais profundo ciclo de alívio monetário do país, o juro real ficou perto de 2%. No ano seguinte, o PIB cresceu 3%. Mas esse movimento não se sustentou por causa da seca (quebra de oferta) e do golpismo alarmista: em 2014, a economia avançou apenas 0,40%, com juro real perto de 4%. Com sua elevação, para algo em torno de 8% aa, mostrou contração de 3,77% em 2015 e repetiu a queda em 2016, acumulando -7,2% em dois anos.

Esse episódio confirma que juros baixos não contratam, necessariamente, crescimento, embora juros altos contraiam a economia. A combinação de inflação sem controle e baixa confiança na política monetária e, principalmente, na fiscal é dado como explicação macroeconômica ortodoxa — O Estado e não O Mercado é sempre a causa perversa — para a incapacidade da atividade de responder ao estímulo monetário. Isto é “meia-verdade” se não se observa as expectativas microeconômicas relacionadas a fatores objetivos como grau de endividamento, queda de vendas e lucros, capacidade produtiva ociosa, carência de inovação tecnológica, etc.

O juro que permitiria, supostamente, crescimento econômico sem gerar pressão inflacionária, dependeria do comportamento da taxa de juros nos mercados internacionais, que tornou-se mais baixa nos últimos anos, e também da percepção de risco Brasil, variável que resulta da qualidade do ajuste fiscal, da política monetária e do ambiente de negócios.

Segundo economistas neoliberais, o nível de endividamento e o estoque de crédito subsidiado ainda servem de trava. Mesmo tendo caído, devido ao desmanche do BNDES, o crédito subsidiado corresponde a cerca da metade do estoque, e isso leva tempo para mudar em termos de saldo, porém já caiu termos de em fluxo, ou seja, concessão de novos créditos. Evidentemente, esse argumento com base no estoque de crédito concedido no passado não justifica a não concessão de crédito no presente.

Embora o corte de juros tenha efeito patrimonial imediato para empresas e famílias endividadas, que ganham melhores condições de cobrir despesas financeiras, há um intervalo para a retomada do consumo. Os consumidores voltam a fazer gastos quando estão mais seguros em seus empregos e com certa sobra nos orçamentos domésticos.

O quadro fiscal e a incerteza política explicam a intensidade e também a extensão da crise. Enquanto os EUA tiveram problema de sobreendividamento das famílias, que se arrastou para o sistema bancário, o problema brasileiro ficou concentrado no balanço fiscal e nas empresas — “esmagamento dos lucros” pelo CUT (Custo Unitário do Trabalho), custo financeiro e a concorrência com produtos importados não repetir repasse desses custos para os preços.

Mas o PIB americano teve retração de 4,6% e, após 15 trimestres do início da recessão, retomou o pico que antecedeu a crise, do quarto trimestre de 2007. Já o PIB brasileiro encolheu 7,2% no último biênio, e só deve voltar ao patamar pré-crise, marcado no quarto trimestre de 2014, pelo menos após 20 trimestres, em 2019 ou em 2020.

Essa dificuldade da retomada, segundo a ortodoxia, tem a ver com o contexto fiscal. A perspectiva para as contas públicas é vista pelos economistas ortodoxos como importante para garantir a queda estrutural do juro. É necessário que a receita corrente do governo supere as despesas correntes, a fim de garantir o financiamento do investimento público com recursos não inflacionários, i.é, fiscais.

Muitos economistas não-financistas consideram fundamental uma reforma monetária, que exigiria desindexação do sistema financeiro brasileiro, por ser atrelado à Selic. Eles insistem nessa bobagem há anos, condenando o fato de o BCB usar nas operações de curto prazo a Selic, a mesma taxa dos títulos públicos.

O erro de extinguir a LFT, supostamente, daria grande espaço para a queda sustentada dos juros. Porém, como visto na tentativa canhestra ocorrida — a LFT caiu para menos de 20% da dívida mobiliária — o resultado é a fuga para operações compromissadas. Estas se elevaram para mais de R$ 1,1 trilhões!

Em uma economia instável como a brasileira, com seguidas volatilidades na taxa de câmbio, taxa de inflação e taxa de juros — nessa ordem — os títulos pós-fixados, por mais que dificultam as Finanças Públicas, protegem as Finanças Pessoais e Corporativas. Em outras palavras, “não se pode fazer desaforo ao capital”!

Forçar os investidores a terem perdas com MtM (marcação-a-mercado) de títulos prefixados (LTN e NTN) é só uma vez. Eles os abandonam, forçando a volta das LFT sob a ameaça de fazerem fuga de capital com risco de dolarização da economia.

Já tem economista neoliberal fazendo a apologia da Grande Depressão provocada pela política de juros disparatados! Economistas-chefes de bancos chegam a dizer que “estamos ganhando a convicção de que a inflação baixa pode ser um fenômeno estrutural”!

A queda do déficit no balanço de transações corrente para algo próximo de 1% do PIB, de fato, diminui riscos de pressão de um dos fundamentos do câmbio sobre os preços. E, internamente, o desemprego alto e a ociosidade da indústria demorarão a ser revertidos. “O ganho de renda real vem da inflação baixa, e não pela melhora no mercado de trabalho”, argumentam os defensores do rentismo, pouco se importando com a expansão da atividade produtiva que gera empregos.

Os neoliberais também dizem que suas medidas golpistas bastarão para a retomada da confiança, do investimento e da atividade:

  1. a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), atrelada às NTN-Bs, em substituição à Taxa de Juros de Longo prazo (TJLP);
  2. a mudança nas regras de conteúdo local do petróleo;
  3. a fixação do teto de gastos públicos.

Simploriamente, os neoclássicos acham que essa agenda microeconômica basta para a retomada do crescimento macroeconômico. Ilusão. Erram ao não defenderem o estímulo à demanda agregada como os keynesianos.

O excesso de oferta agregada, ou seja, a capacidade produtiva ociosa e o elevado nível de endividamento permitem uma redução mais agressiva da Selic, que poderia — supunha-se antes do Efeito Temer — atingir 8,25% no fim deste ano, e eventualmente continuar a cair em 2018. A ortodoxia acha que a perspectiva de não haver investimentos públicos, estimulando a demanda agregada, também contribui para juros menores já que a Grande Depressão provoca um processo deflacionário. Ela prioriza a prevenção contra a eutanásia dos rentistas.

Há enorme ociosidade na economia. No primeiro trimestre, a taxa de desemprego beirou os 14%, ao passo que, na indústria, indicadores de capacidade instalada estão na mínima histórica e há grande vacância de imóveis comerciais e residenciais. Quando essa ociosidade vai ser preenchida?

Só quando um governo social-desenvolvimentista for eleito com proposta de uma reforma tributária progressiva sobre lucro e renda dos capitalistas (pessoas físicas) e um programa de investimentos e crédito público direcionado para projetos estratégicos em infraestrutura. Face à Grande Depressão, o gasto público necessita ir contra as expectativas pessimistas reinantes entre os investidores produtivos.

Desencadeado um processo de retomada do crescimento, surge um efeito multiplicador de renda que incentiva o setor privado a também tomar decisões de investimentos. Em país emergente, é fundamental o setor público incentivar e dar suporte às “iniciativas particulares”. Sem o Estado, nunca se iniciou nada em Terrae Brasilis…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s