Ayn Rand e o Capitalismo: Revolução Moral

Em ensaio com o título deste post, publicado no livro organizado por Tom G. Palmer, A Moralidade do Capitalismo, o filósofo objetivista David Kelley propõe uma “quarta revolução” para concluir as bases do mundo moderno e garantir os ganhos possibilitados pelo capitalismo. David Kelley é diretor executivo da Atlas Society, que promove o desenvolvimento e difusão da filosofia do Objetivismo. Vamos resumir e criticar [entre colchetes] os argumentos da “direita inteligente” – sim, caro leitor, por incrível que pareça pela amostra brasileira, existe tal coisa alhures

“O sistema capitalista atingiu sua plenitude no século que vai de 1750 a 1850 como resultado de três revoluções.

A primeira foi uma revolução política: o triunfo do liberalismo, especialmente a doutrina dos direitos naturais, e a visão de que a função do governo deve se limitar à proteção dos direitos individuais, destacadamente, os direitos de propriedade.

A segunda foi a revolução provocada pelo nascimento do entendimento econômico, através do liberalismo econômico, exemplificado pela obra de Adam Smith, A Riqueza das Nações. Smith argumentou que, quando os indivíduos são livres para perseguir seus próprios interesses econômicos, o resultado não é o caos, mas sim uma ordem espontânea. Em um sistema de mercado, as ações dos indivíduos são coordenadas por auto regulação, e mais riqueza é produzida do que seria o caso se o governo gerenciasse a economia.

A terceira foi a Revolução Industrial. A inovação tecnológica forneceu uma alavanca que multiplicou geometricamente os poderes de produção da humanidade. O efeito não foi apenas a elevação dos padrões de vida para todos, mas oferecer ao indivíduo  “igualdade de oportunidades” (?) para a iniciativa particular e o empreendedorismo como possibilidade de ganhar uma fortuna que seria inimaginável em épocas anteriores de Monarquia Absolutista e domínio da casta dinástica dos nobres aristocratas.

A revolução política e o triunfo da doutrina dos direitos individuais foi acompanhada por um espírito de idealismo moral. Foi a libertação do homem da tirania [da Monarquia absolutista], o reconhecimento de que cada indivíduo, qualquer que seja sua posição na sociedade, é um fim em si mesmo.

Mas a revolução econômica foi formulada em termos moralmente ambíguos: como um sistema econômico, o capitalismo foi amplamente considerado como tendo sido concebido em pecado. O desejo de riqueza caiu sob a sombra da condenação cristã ao egoísmo e à avareza. Os primeiros estudantes da ordem espontânea estavam conscientes de que afirmavam um paradoxo moral, o paradoxo, como disse Bernard Mandeville [autor da Fábula das Abelhas que inspirou Adam Smith], de que os vícios privados poderiam produzir benefícios públicos.

Os críticos do mercado sempre se aproveitaram dessas dúvidas quanto à moralidade do sistema. O movimento socialista foi sustentado por alegações de que o capitalismo gera egoísmo, exploração, alienação, injustiça. Nas formas mais leves, a mesma crença produziu o Estado assistencialista, que redistribui renda por programas de governo em nome da “justiça social”.

O capitalismo nunca escapou da ambiguidade moral em que foi concebido [sistema complexo emergido pelas interações de seus componentes, isto é, trocas entre participantes da divisão de trabalho]. Ele é valorizado pela prosperidade que traz [para alguns poucos em curto prazo e talvez para a sociedade em longo prazo]. É valorizado como uma condição necessária para a liberdade política e intelectual [não há como provar isso pois não experimentamos ainda outro modo de vida como o proposto no socialismo utópico — no sentido de contraponto crítico à realidade capitalista].

Mas poucos de seus defensores estão preparados para afirmar que o modo de vida fundamental ao capitalismo, ou seja, a busca do autointeresse por meio da produção e do comércio, é moralmente honesto, muito menos nobre ou ideal. [De fato, não há como defender isso…]

Não há nenhum mistério sobre de onde vem a antipatia moral ao mercado. Ela surge da ética do altruísmo, que está profundamente enraizada na cultura ocidental, como, aliás, na maioria das culturas [está provado, cientificamente, que a cooperação altruísta foi fundamental para a evolução da humanidade]. Pelos padrões de altruísmo, a busca do autointeresse é, na melhor das hipóteses, um ato neutro, fora do âmbito da moralidade, e na pior, um pecado.

É verdade que o sucesso no mercado é obtido por meio de trocas voluntárias, e, portanto, ao satisfazer as necessidades dos outros [e as próprias necessidades de acumulação de capital]. Mas também é verdade que aqueles que têm êxito são motivados pelo ganho pessoal, e a ética se preocupa com motivações tanto quanto com resultados.

Na linguagem coloquial, o “altruísmo” é muitas vezes entendido como nada mais do que bondade ou cortesia comum. Mas seu significado real, histórica e filosoficamente, é autossacrifício [na verdade, é uma atitude de amor ao próximo ou ausência de egoísmo].

Para os socialistas que cunharam o termo [na verdade, a palavra “altruísmo” foi criada pelo filósofo francês Auguste Comte para descrever um comportamento oposto ao egoísmo, mas o uso contumaz do anticomunismo embota a inteligência da direita] significava a submersão completa do eu em um todo social maior.

Como disse Ayn Rand, “o princípio básico do altruísmo é que o Homem não tem direito de existir por si só [isto não está colocado em questão pelos socialistas, pois o animal humano é um ser dependente da divisão social do trabalho], que o serviço aos outros é a única justificativa de sua existência e que o autossacrifício é seu maior dever, virtude e valor moral”.

[Na verdade, um indivíduo altruísta não é interesseiro, ou seja, não ajuda os outros com o objetivo de obter algum benefício pecuniário em troca, sendo, portanto, contrário à visão do Objetivismo que resume todas as ações humanas a movimentos por auto interesse.].

Nesse sentido estrito, o altruísmo é a base para os diversos conceitos de “justiça social” usados para defender programas de governo de redistribuição da renda. Esses programas representam o sacrifício obrigatório das pessoas tributadas para apoiá-los. Eles representam o uso de [recursos de] indivíduos como recursos coletivos, a serem utilizados como meios para os fins alheios. E essa é a razão fundamental pela qual devem ser combatidos, em termos morais, por quem quer que defenda o capitalismo.”

[Esta é a linha divisória que divide os conservadores defensores do capitalismo, tal como é com livre-mercado, e os libertários defensores de um novo modo de vida e produção (socialista?), utópico por que distinto do capitalismo.

Os “objetivistas” não veem contradição entre a defesa da divisão de trabalho e a consequente economia de troca, propiciada por diversas iniciativas particulares, e a crítica ao uso exclusivamente privado de parte recursos gerados e apropriados por este sistema mesmo quando ele não consegue ocupar e remunerar a toda população!]

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