Efeito Temer: Temer Perda de Riqueza

O ódio de O Mercado contra a Dilma se elevou depois da perda de capital em investimentos prefixados (LTNs e NTNs) com a retomada da alta dos juros em abril de 2013. A mesma “dor-no-bolso”, pior do que a “dor-de-cotovelo”, se repetiu após o dia 17 de maio de 2017 com o Efeito Temer. O presidente da República foi grampeado cometendo os crimes de obstáculo à Justiça e prevaricação ao não seguir o Princípio da Impessoalidade que rege o cargo. Estadista certamente ele não é, pois prefere sacrificar o País em benefício próprio: manutenção do foro privilegiado e uso de recursos públicos federais em causa pessoal, ou seja, para cuidar da própria defesa.

Adriana Cotias (Valor, 24/05/17) informa que praticamente todos os investidores que tinham recursos em Fundos Multimercados ou de Ações perderam dinheiro em 18 de maio, dia seguinte à divulgação do conteúdo entre a conversa do presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, do grupo JBS.

Segundo filtro feito pelo consultor Marcelo D’Agosto, em 1.122 fundos das categorias renda fixa, multimercados, ações e previdência, na base de dados da Morningstar, só os portfólios de renda fixa resistiram, de certa maneira.

Na mediana, esses fundos tiveram ganho de 0,04% no dia, embora na amostra os fundos com exposição a títulos prefixados ou indexados à inflação de longo prazo na carteira tenham apresentado uma queda maior, com mais de duas dezenas deles apresentando perda entre 6,94% e 9,85% nas suas cotas.

Entre os Fundos Multimercados com patrimônio acima de R$ 25 milhões e pelo menos 50 cotistas, a perda máxima foi de 17,61%, com a mediana em -1,48%. Na ponta mais alta, com ganhos acima de 1%, situaram-se portfólios quantitativos e fundos globais, com exposição a ativos no exterior, com o retorno chegando a 7,09%.

Na categoria ações, a desvalorização mediana foi de 8,69%, em linha com o desempenho do Ibovespa no dia, que recuou 8,8%. Mas houve carteira que na ponta mais baixa chegou a esbarrar num prejuízo de 30%. Resistiram uma dezena de fundos com exposição em moeda estrangeira, caso dos fundos de BDR, recibos de ações estrangeiras negociados na B3.

O estresse político pegou o investidores em um momento em que vinham progressivamente ampliando suas posições em risco. Não por outra razão, os multimercados captaram neste ano R$ 35 bilhões até 12 de maio, segundo dados da Anbima, a associação que representa o mercado de capitais.

Se o fundo perdeu na faixa dentro do mercado, ok, mas se perdeu mais, convém avaliar qual a razão, se é alavancado e qual é a estratégia do gestor, porque quem perdeu mais, para tentar recuperar mais rápido, talvez precise se alavancar, pode haver uma chance de aumento de risco nessas carteiras.

Até a véspera do episódio Temer/JBS, a visão de boa parte dos gestores era otimista com o cenário brasileiro, em meio ao avanço das reformas e o ambiente deflacionário, com a possibilidade de aceleração de corte de juros pelo Banco Central. A grande maioria das carteiras estava posicionada no chamado “kit Brasil“, com apostas em queda de juros reais e nominais, alta em bolsa e vendidas em dólar contra o real. No dia seguinte, em meio à reação dos mercados às notícias, a alta volatilidade penalizou de maneira significativa os portfólios.

Para não diminuir tanto a autoestima dos investidores que sofrem do viés de auto validação ilusória, apostando em argumentos de “autoridades” (sic), economistas ortodoxos que pensam todos da mesma maneira neoliberal, e iludiam com o discurso do cenário otimista propiciada por seus pares na equipe econômica, entre os destaques da amostra da Morningstar estão, por exemplo, fundos de ex-dirigentes do Banco Central do Brasil (BCB), como da Ibiúna Investimentos, de Mario Torós e Rodrigo Azevedo. O multimercado mais alavancado da casa, o Ibiuna Hedge STH, registrou perda de -11,57% no dia 18, passando a acumular desvalorização de 0,40% no ano.

O Mauá Macro, da Mauá Capital, que tem como um dos sócios o ex-diretor de política monetária do BCB, Luiz Fernando Figueiredo, perdeu 9,8% no dia 18, praticamente zerando o retorno no ano, que está positivo em 0,31%. Da Gávea Investimentos, de Arminio Fraga, o fundo Gávea Macro teve prejuízo de 1,5% no dia 18, revertendo os ganhos do ano para uma queda de cerca de 1%.

O sócio de uma gestora conta que mesmo tendo diversificado a carteira, com quase metade da alocação em ativos externos como o euro ou títulos do governo alemão, o revés foi de tal magnitude que essas posições foram insuficientes para defender um bom resultado para o fundo macro da casa. A escolha foi zerar as posições em juros de médio prazo, com vencimentos em 2020 e 2021, e manter apenas as mais curtas, entre 2017 e 2018. A parte curta dos contratos de juros ainda parece protegida. Isto porque “o BC provavelmente continuará cortando a Selic, não tem por que interromper, mas talvez não seja tão agressivo”. Aguardem o tsunami, i.é, a onda inflacionária provocada pelo choque cambial do Efeito Temer… É de temer… 

O profissional diz ser difícil ter um diagnóstico sobre o melhor desfecho para o nó político, como uma eventual troca de comando no Planalto. O emaranhado de incertezas é compartilhado por gestor com viés macro, que afirma não ter clareza se Temer ficar ou cair será bom para o mercado. A vantagem dele ficar é que é um ‘modus operandi‘ que já se conhece: “reformas previdenciária e trabalhista prá ferrá o povo“. Mas, se sair, talvez precipite uma solução mais rápida e definitiva. No fundo, com Temer ou não, o que O Mercado espera é que essa reformas avancem, pouco se lixando para o desemprego.

Em um ambiente como esses, a decisão de investidores é “deixar a carteira leve”, praticamente zerando as posições em risco e monitorar como o cenário político se desenrola. Não se tem mais convicção nem sobre o andar da política monetária. Se, por um lado, o real mais depreciado poderia jogar contra a inflação, por outro, as taxas prefixadas já foram marcadas-a-mercado, causando um efeito riqueza (perda de capital) contracionista para a economia. 

Os gestores de fundos dizem que têm cerca de 20 modelos matemáticos diferentes e simultâneos que rodam de maneira independente. Conseguiram se sobressair principalmente pelas estratégias que seguem tendências de curto prazo. O Efeito Trump no episódio que provocou a troca de comando no FBI nos EUA (na véspera do Efeito Temer), quando a bolsa americana teve um de seus piores dias], fez a estratégia seguidora de tendência de curto prazo se posicionar para um cenário mais pessimista.

Foi o caso das estratégias que operam dólar futuro, juros futuros longos e índice futuro. Em contrapartida, os modelos que operam juros futuros curtos permaneceram com posições otimistas para Brasil, que tiveram perdas significativas. Cabe comparar se os ganhos advindos dos outros mercados conseguiram que compensar tais perdas.

Chrystiane Silva e Denyse Godoy (Valor, 24/05/17) informam que os investidores internacionais estão olhando para o novo capítulo da crise política, que colocou em xeque o governo golpista de Michel Temer e a aprovação das reformas estruturais, de forma pragmática. Desde quinta-feira, dia 18 de maio de 2017, quando foi divulgado o áudio das conversas incriminadoras do presidente com o empresário Joesley Batista e os ativos locais derreteram, os estrangeiros aproveitaram para ampliar as posições no mercado de ações brasileiro.

Somente no dia 18, o fluxo externo na bolsa foi positivo em R$ 190 milhões. No pregão seguinte, os estrangeiros colocaram mais R$ 192,8 milhões, atraídos pelos preços mais favoráveis. Incluindo a queda no pregão de quinta-feira, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, já acumula perdas de 8,76%. Levando em conta a desvalorização de 4,32% do real em relação à moeda americana no período, em dólar, a queda do índice chega a 12,19%, criando um ambiente ainda mais propício para o estrangeiro garimpar pechinchas.

Em maio, até o dia 19, segundo os dados mais recentes divulgados pela B3, as aplicações de estrangeiros em ações locais já alcançam R$ 1,142 bilhão, ao contrário do registrado entre março e abril de 2017, quando as retiradas bateram R$ 3,37 bilhões. No ano, o saldo acumulado está positivo em R$ 4,6 bilhões. Esse volume pode incluir recursos que migraram de ativos de renda fixa para variável por conta da trajetória de queda de juros.

Números divulgados pelo Banco Central (BCB) corroboram o interesse do estrangeiro pelo mercado de ações. Em maio, até o dia 19, ingressaram US$ 184 milhões no país para investir em ações. A expectativa do BCB é que até o fim do ano US$ 10 bilhões sejam trazidos ao Brasil para compras no mercado acionário.

O investidor estrangeiro em ETF compra o fundo porque possui uma visão e uma convicção sobre a tendência de um mercado em particular, no caso o brasileiro. Ele ganha comprando barato durante o pânico e aguardando a verificação dos reais fundamentos com mais sensatez e aí vende mais caro. Entra com a moeda depreciada e repatria capital com a moeda mais apreciada, ganhando também no câmbio.

O movimento dos estrangeiros é importante para a Bovespa porque são responsáveis por mais da metade dos negócios na bolsa de valores e, muitas vezes, têm um horizonte mais longo de aplicação. Os investidores externos respondem por 51,96% dos negócios com ações, segundo dados da B3. É praticamente o mesmo patamar de um ano atrás, mas está longe do período com a maior participação deles no mercado, de 63,90%, em março de 2014.

Enquanto isso, os jornalistas econômicos continuam repetindo a idiotice da “pauta única” de que o Ibovespa encerrou o dia em alta por causa da “sinalização do governo de fazer todo o esforço possível para conseguir passar as medidas”. Grandes fundos, que têm como principal foco o longo prazo, aproveitaram para adquirir papéis relativamente baratos, não por causa de “reformas”, mas sim por especulação que venderão mais caro daqui um tempo, após a queda do Temer.

Alguns gestores que dividem a sua carteira entre os países emergentes e viram a parcela do seu patrimônio aplicada em Brasil encolher por conta da queda recente da Bovespa também recorreram às compras para recompor seu portfólio em termos da mesma participação relativa.

Leia maisEfeito Temer nos Fundos Multimercados 23.05.2017

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