Em Direção a uma Ética Individualista

A defesa do capitalismo oferecida por Ayn Rand – e realizada em ensaio publicado no livro organizado por Tom G. Palmer, A Moralidade do Capitalismo, pelo filósofo objetivista David Kelley – se baseia em uma ética individualista que:

  1. reconhece o direito moral de buscar o interesse próprio e
  2. rejeita o altruísmo na raiz.

Os altruístas argumentam que a vida nos apresenta uma escolha fundamental: é preciso sacrificar os outros por nós mesmos ou então nos sacrificarmos pelos outros. Este último é o curso de ação altruísta, e a premissa é que a única alternativa é a vida de predador.

Mas de acordo com Rand, essa é uma falsa dicotomia. A vida não exige sacrifícios em qualquer uma das direções. Os interesses das pessoas racionais não entram em conflito [ordem espontânea?!] e a busca pelo autointeresse verdadeiro exige que lidemos com os outros por meio de trocas pacíficas e voluntárias [a história do mundo não é de guerras e conflitos?!].

Para entender o porquê, podemos perguntar como decidimos qual é o nosso autointeresse. Um interesse é um valor que buscamos obter: riqueza, prazer, segurança, amor, autoestima ou algum outro bem.

A filosofia ética de Rand se baseia na ideia de que o valor fundamental, o summum bonum, é a vida. Um mundo sem vida seria um mundo de fatos, mas não de valores, um mundo em que não se poderia dizer que um estado é melhor ou pior do que qualquer outro.

Assim, o padrão fundamental do valor, por referência ao qual cada pessoa deve julgar o que é do seu interesse, é a sua vida: não simplesmente a sobrevivência de um momento para o próximo, mas a satisfação plena das suas necessidades por meio do exercício constante de suas faculdades.

A faculdade primária da humanidade, seu principal meio de sobrevivência, é a sua capacidade de raciocínio. É a razão que nos permite viver por produção e, assim, superar o nível precário de caça e coleta.

A razão é a base da linguagem, que torna possível a cooperação e a transmissão de conhecimentos. A razão é a base das instituições sociais regidas por regras abstratas. A finalidade da ética é estabelecer padrões para viver de acordo com a razão, a serviço de nossas vidas.

Para vivermos pela razão, temos de aceitar a independência como uma virtude. A razão é uma faculdade do indivíduo. Não importa o quanto podemos aprender com os outros, o ato do pensamento ocorre na mente individual. Deve ser iniciado por cada um de nós por nossa própria escolha e dirigido por nosso próprio esforço mental. A racionalidade, portanto, exige que aceitemos a responsabilidade de dirigir e sustentar nossas próprias vidas.

Para viver pela razão, devemos também aceitar a produtividade como uma virtude. [Individual ou social?] A produção é o ato de criação de valor. Os seres humanos não podem viver uma vida segura e satisfatória apenas encontrando o que precisam na natureza, como os outros animais. Também não podem viver como parasitas.

“Se alguns homens tentam sobreviver por meio da força bruta ou fraude“, argumenta Rand, “pilhando, roubando, trapaceando ou escravizando os homens que produzem, ainda é verdade que a sua sobrevivência só é possível por suas vítimas, apenas pelos homens que escolhem pensar e produzir os bens que eles, os saqueadores, estão confiscando. Tais saqueadores são parasitas incapazes de sobreviver que existem pela destruição daqueles que são capazes, daqueles que estão buscando um curso de ação adequado ao homem”.

O egoísta costuma ser retratado como alguém que vai fazer de tudo para conseguir o que quer, alguém que irá mentir, roubar e tentar dominar os outros a fim de satisfazer seus desejos. Como a maioria das pessoas, Rand consideraria esse modo de vida como imoral. Mas não por que ele prejudica os outros. Para ela, o motivo é que quem age assim prejudica a si mesmo.

O desejo subjetivo não é o teste para saber se algo é do nosso interesse, e engano, roubo e poder não são os meios para se alcançar a felicidade ou uma vida bem-sucedida. As virtudes que o filósofo objetivista David Kelley mencionou são padrões objetivos, enraizados na natureza do homem e, portanto, aplicáveis a todos os seres humanos. Mas seu propósito é permitir que cada pessoa “alcance, mantenha, cumpra e desfrute desse valor supremo, esse um fim em si mesmo, que é sua própria vida”.

Assim, o propósito da ética é nos dizer como conquistar nossos verdadeiros interesses, não como sacrificá-los. [Esta conclusão demonstra apena o equívoco do excesso de individualismo, isto é, da tendência a não pensar senão em si. Busca libertar-se de toda solidariedade com seu grupo social, a desenvolver excessivamente o valor e os direitos do indivíduo. E o que ocorrerá quando necessitar de apoio de outras pessoas? Qual contrapartida receberá de sua vida individualista? A morte social?]

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