Mudança na Psicologia: Medo do Cobrador de Penalty Diante do Goleiro

Meu orientador de teses, o admirável Professor Wilson Cano, corajosamente, levantou certa hipótese em auditório lotado: “o individualismo da Era Neoliberal levou até jogadores de futebol a tremer diante do goleiro na hora da cobrança de penalty!” Todo mundo riu, devido ao inusitado raciocínio, invertendo “o medo do goleiro diante do penalty”: hoje, ele é a chance de sua consagração!

Victor Mather (NYT, 15/05/2017) informa que o futebol internacional está tentando algo de novo nas decisões por pênaltis.

No campeonato europeu masculino sub-17, que se realiza na Croácia, e no campeonato europeu feminino sub-17, que acontece na República Tcheca, os jogos de mata-mata que terminarem em empate serão, como de hábito, decididos por pênaltis. E, como de hábito, a ordem de cobrança será decidida no cara ou coroa. Mas apenas para a primeira série de pênaltis. Em lugar de o mesmo time cobrar primeiro em cada série de pênaltis, os times se alternarão na primeira cobrança, a cada série.

Em lugar de as cobranças acontecerem no formato AB, AB, AB, AB até que um vencedor seja determinado, elas acontecerão no formato AB, BA, AB, BA, e assim por diante. Sim, mais ou menos como nas regras de seleção de jogadores usadas nas ligas de fantasia dos esportes norte-americanos.

A mudança é experimental. As autoridades do futebol estão mexendo nas regras de decisões por pênaltis para tentar resolver aquilo que veem como uma questão básica de justiça.

A disputa por pênaltis está longe de ser querida dos jogadores e torcedores. Como forma de determinar o vencedor de um jogo decisivo, ela quase sempre parece insatisfatória e aleatória, mais uma loteria do que um verdadeiro teste da capacidade técnica, da tática e da resistência dos times durante 90 ou —120 minutos— de disputa aberta.

Mas o sistema é uma loteria que não é perfeitamente aleatória. Estudos demonstraram que o time que tem a sorte de bater primeiro vence quase 60% das disputas. Já que os times batem pênaltis contra o mesmo gol, por que essa vantagem existe? Ela parece ser inteiramente psicológica.

“Os dois times deveriam ter a mesma probabilidade de vencer independentemente da ordem de cobrança, mas o que constatamos é uma vantagem sistemática para aquele que chuta primeiro”, escreveram dois professores, Jose Apesteguia e Ignacio Palacios-Huerta, em um estudo intitulado “pressão psicológica em eventos competitivos: evidências de um experimento natural aleatorizado”, publicado em 2010 pela revista “American Economic Review“.

A pesquisa deles tinha por foco o cérebro e não o pé, como elemento crucial para a disparidade.

“Já que a maioria das cobranças são convertidas, cobrar primeiro tipicamente significa a oportunidade de liderar o placar parcial, e cobrar em segundo lugar significa, na melhor das hipóteses, a possibilidade de empatar”, escreveram os professores. “Ter perspectivas piores que as dos oponentes prejudica o desempenho dos participantes”.

Os pesquisadores entrevistaram futebolistas profissionais e descobriram que quase todos eles preferem cobrar primeiro, “para abrir o placar e colocar pressão sobre o adversário”.

Também constataram que a discrepância se relacionava completamente aos batedores e não aos goleiros. A proporção de pênaltis defendidos não muda, mas o número de pênaltis perdidos pelos batedores sobe quando o time cobra em segundo lugar. Há provas de que a discrepância se sustenta para todas as cobranças de uma série, da primeira à última.

O conselho da Fifa, que responde pelas regras do futebol, sugeriu o novo formato para as decisões por pênaltis explicitamente para reduzir a vantagem do time que cobra primeiro.

“No momento, as estatísticas apontam que 60% das decisões por pênaltis são vencidas pelo time que faz a primeira cobrança”, disse Stewart Regan, membro do conselho da Fifa, ao jornal britânico “Telegraph”. “Acreditamos que o formato AB, BA possa remover essa distorção estatística”.

“A hipótese é a de que o jogador que bate o segundo pênalti em cada par sofre pressão mental maior, porque, se o pênalti batido pelo adversário precedente foi convertido, um erro no pênalti seguinte pode significar a derrota definitiva para o time de quem o cobra, especialmente a partir do quarto par de pênaltis de uma série – ou seja, da sétima e oitava cobranças”, explicou a Uefa, que organizou os dois torneios juvenis nos quais o teste será conduzido, em um artigo em seu site.

O futebol ocasionalmente adota regras excêntricas, e muitas dessas experiências desaparecem sem deixar traço. A morte súbita, por exemplo, na forma do chamado “gol de ouro”, foi abolida depois de um período de experiência curto e contestado. Outras mudanças, como a tecnologia em uso para determinar se a bola cruzou completamente a linha do gol, são adotadas e conquistam elogios.

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