Quase Todos os Brasileiros Querem se Mudar Para Um Novo País, Mais Democrático, Sob Nova Administração

Ruy Castro se pergunta, no livro A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção: alguém seria capaz de associar Antônio Maria, secretamente comido com os olhos pelas mulheres nas boates, com o homem que escreveu “Ninguém me ama/ Ninguém me quer/ Ninguém me chama/ De meu amor”? E que, no mesmo samba-canção, ao se queixar da “Velhice chegando/ E eu chegando ao fim…” tinha apenas… 31 anos quando escreveu aquilo?

O próprio Fernando Lobo, conhecido pelo ocasional espírito de porco — dizia-se que seria capaz de brigar até com Nelson Nobre, o rei Momo oficial e o símbolo do Carnaval —, estava longe de ser um deprimido. É verdade que ele fora o autor de “Podemos ser amigos simplesmente/ Coisas do amor, nunca mais…”, mas também fazia rir ao contar que Dorival Caymmi encomendara sua cabeleira gris na mesma loja em que Silvio Caldas comprara a dele. E não podia haver maior profissional do humor do que o homem que fizera Nora Ney pedir: “Garçom, apague esta luz/ Que eu quero ficar sozinha…” — Haroldo Barbosa.

Haroldo não se contentava em usar o rádio, o jornal, a boate e, pioneiramente, a televisão para fazer rir. Escrevia até para o teatro de revista. E foi também o maior estimulador de talentos na área do humor: descobriu Chico Anysio como comediante, revelou Antônio Maria e Sergio Porto como humoristas e estimulou a veia cômica de um respeitado cardiologista e diretor de hospital, de quem se tornaria parceiro para sempre: Max Nunes.

De passagem, Haroldo foi o criador da palavra “barnabé”, para designar o funcionário público humilde e mal pago, uma realidade dos anos 40. Fez isso na marchinha “Barnabé”, dele e de Antonio Almeida, que Emilinha Borba gravou para o Carnaval de 1948 — o Aurélio registra a expressão e dá crédito à dupla. A letra dizia: “Barnabé, o funcionário/ Quadro extranumerário/ Ganha só o necessário/ Pro cigarro e pro café// Quando acaba seu dinheiro/ Sempre apela pro bicheiro/ Pega o grupo do carneiro/ Já desfaz do jacaré// O dinheiro adiantado/ Todo mês é descontado/ Vive sempre pendurado/ Não sai desse tereré// Todo mundo fala, fala/ Do salário do operário/ Ninguém lembra o solitário/ Funcionário Barnabé// Ai, ai, Barnabé/ Ai, ai, funcionário letra E/ Ai, ai, Barnabé/ Todo mundo anda de bonde/ Só você anda a pé”.

Por que esses homens tão críticos, criativos e espirituosos pareciam mergulhar nos abismos da alma humana quando se sentavam para compor um samba-canção? Um dia, os estudiosos criariam a esdrúxula teoria de que eles faziam isso porque eram assim na vida real — tristes, melancólicos, abandonados —, mas dificilmente Antônio Maria e Dolores Duran seriam os parâmetros desse sofrimento crônico. Se isso fosse verdade, como explicar os sacudidos frevos que, às vezes, Maria também compunha, e o enorme repertório de baiões, alguns hilariantes, cultivado por Dolores como cantora? E as marchinhas que quase todos também faziam para o Carnaval?

A resposta é simples: Antonio Maria, Fernando Lobo e Haroldo Barbosa, assim como Evaldo Ruy, Elano de Paula, Americo Seixas, Dorival Caymmi, Paulo Soledade, Ataulpho Alves, Peterpan, Hianto de Almeida, David Nasser, Ary Barroso, a própria Dolores Duran e todos que escreviam e cantavam aqueles sambas-canção tão românticos e doloridos faziam desse jeito porque se tratava de… sambas-canção. Era a música da época, a música a ser feita.

Antes de perguntar por que havia tanta gente compondo e cantando sambas-canção, o certo seria investigar por que havia ainda mais gente — milhões de brasileiros — escutando-os dia e noite no rádio, nos discos e nas boates. E, também nesse caso, a resposta será simples: porque eram canções com grande música e letra.

Infelizmente, em meados de 1954, exigia-se outro tipo de música — mais grave, pesada e sombria — como trilha sonora para o que se maquinava nos porões do Palácio do Catete.

Era um tempo de confusão política — nada era o que parecia. Na manhã do dia 5 de agosto, poucas horas depois do episódio da rua Tonelero – atentado contra Carlos Lacerda – que parecia ferir Getúlio de morte, o jornal Imprensa Popular, do clandestino Partido Comunista Brasileiro, dirigido por Pedro Motta Lima, saiu às ruas com um editorial — escrito e impresso de véspera — em que denunciava “as famosas roubalheiras da Última Hora”, acusava o governo Vargas de ser “um governo de traição nacional”, “de latifundiários e grandes capitalistas” e de “completa submissão ao governo dos Estados Unidos”; classificava Getulio como “sanguinário”, “entreguista” e “aliado dos trustes norte-americanos”; e pregava sua “derrubada definitiva”.

A Tribuna da Imprensa, de Lacerda, não faria melhor, mas essas diatribes contra Getúlio não eram novidade na Imprensa Popular — saíam todos os dias na primeira página do jornal desde a posse do presidente e, com típica falta de imaginação, quase sempre com as mesmas palavras. A diferença era que, se os comunistas realmente desejavam a “derrubada definitiva” de Getúlio, dessa vez não teriam de esperar muito.

O público elitizado do Vogue também já desistira de Getúlio. Meses antes, em fins de fevereiro, correram rumores de que o presidente iria acatar a sugestão do seu ministro do Trabalho, João Goulart, e aumentar o salário mínimo em 100% no dia 1o. de maio. Um manifesto do Exército, alertando para a submissão do governo às pressões sindicais, fizera com que Getúlio, para estancar a crise, demitisse o ministro.

O Vogue aplaudiu, já que Jango — ministro do Trabalho, da Indústria e do Comércio —, por mais simpático que fosse socialmente, durante o dia só queria saber de tratar com sindicalistas e deixava de lado as outras duas atribuições de seu cargo. E elas eram justamente as que diziam respeito aos industriais e donos de redes de lojas que frequentavam a boate.

No dia 1o de maio, viu-se que a queda de Jango tinha sido apenas uma manobra de Getúlio — “demitira” o conterrâneo para acalmar os militares, mas dobrou o salário mínimo do mesmo jeito, de 1200 para 2400 cruzeiros. Os assuntos no Vogue [boate onde todas as noites os políticos profissionais se confraternizavam com a elite econômica do Distrito Federal] foram a turbulência que isso provocaria nas folhas de pagamento e a ameaça de ondas de falência e de demissões — que acabaram não se concretizando.

Na noite anterior ao dia 24 de agosto de 1954, o Vogue, como quase todo mundo, era a favor da queda do presidente. De manhã, com o suicídio já do conhecimento dos que ainda estavam por ali, entre as mesas e cadeiras, Getúlio se tornara objeto de admiração unânime.

As bancas que acabavam de receber O Globo, a Tribuna da Imprensa e outros jornais anti-Getúlio estavam sendo incendiadas e os jornaleiros, agredidos. Os matutinos, como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias e O Jornal, que também foram atacados, teriam de se superar na edição do dia seguinte, 25, o que fizeram.

Com a morte de Getúlio e a subida do vice-presidente Café Filho, houve mudanças em todas as estruturas do governo, entre as quais a Rádio Nacional. O que não mudou foi a adoração que muitos artistas tinham por Getúlio.

Outra conspiração se deu no primeiro semestre de 1954. Sacha – então um dos pianistas do Vogue – não seria apenas o pianista titular, mas a estrela da casa aberta por Carlos Machado, a grande isca, a começar pelo nome da boate: Sacha’s, piscando do lado de fora na avenida Atlântica. Machado ofereceu-lhe sociedade sem que ele precisasse entrar com dinheiro — confiava apenas em que, com seu prestígio, Sacha arrastasse para a nova boate o público que fizera a glória do Vogue: os grã-finos, os políticos, as personalidades nacionais e estrangeiras e os jornalistas.

Mas Machado ponderou que, no caso dos grã-finos, a presença de Sacha talvez não fosse suficiente. Precisavam também do homem para quem até os ricos olhavam com respeito e cautela: Luiz, o maître. Era uma aquisição cara, mas com a vantagem de que, se Luiz aceitasse deixar Stuckart, com ele marchariam para o Sacha’s outros maîtres e garçons altamente treinados do Vogue. E Luiz aceitou. Para completar a ousadia da operação, o Sacha’s ficaria na esquina da rua Padre Antonio Vieira com a praia — a um minuto, a pé, do Vogue.

Tinha sido no Vogue que Jorge Veiga lançou naquele ano o samba “Café-society”, de Miguel Gustavo — “… Enquanto a plebe rude na cidade dorme/ Eu ando com Jacinto, que é também de Thormes/ Terezas e Dolores falam bem de mim/ Eu sou até citado na coluna do Ibrahim// E quando alguém pergunta, ‘Como é que pode?’/ Papai de black-tie jantando com Didu/ Eu peço outro uísque, embora esteja pronto/ Como é que pode?/ Depois eu conto…”.

Por causa disso, Jorge Veiga, insuperável cantor de sambas de breque, passou a ser convidado para as reuniões dos grã-finos, em que, como se esperava, tinha de cantar o samba. Na sua ingenuidade, acreditou que estava ingressando de verdade no society — cantava de graça e ainda se sentia lisonjeado. Em pouco tempo, os grã-finos se cansaram da brincadeira, esqueceram-no e ele nunca entendeu por quê.

Uma colunista americana, Betty Beale, do Washington Star, escreveu que os homens de negócios do Rio deviam ser “os mais resistentes do mundo”. Trabalhavam o dia inteiro em seus escritórios e fábricas, encontravam-se nas casas uns dos outros para uma “champanhota”, saíam para jantar e depois “enveredavam pelas boates” — Casablanca, Béguin, Meia-Noite —, e terminavam a noitada no Vogue, “de onde só saíam às seis da manhã”.

Com o rival Sacha’s às suas portas, sugando-lhe cada cliente, o Vogue não teria como suportar tal afronta. O Vogue estava vazio. Os ricaços estavam sumidos. Até os playboys, que tinham mesa cativa, haviam desaparecido. Todos pareciam ter migrado para o Sacha’s.

Por que o Rio em peso trocara o Vogue pelo Sacha’s? Não podia ser apenas um capricho do café-society, por mais fútil e volátil que este fosse. E nem seria pelo peso de Sacha ao piano e de Luiz como maître. Era outra coisa.

Durante todo o segundo semestre de 1954, enquanto o Sacha’s ameaçava estrear e as ruas do Leme discutiam a batalha das boates, o Rio e o Brasil se contorciam com a crise política — o atentado a Lacerda na rua Tonelero, a morte do major Vaz, a “República do Galeão”, o “mar de lama”, as denúncias envolvendo as entranhas do Catete e, finalmente, a morte de Getulio. Um país acabara ali. O Vogue representava esse país. Agora era a vez do Sacha’s — era como se todos quisessem se mudar para um novo país, mais arejado, sob nova administração.

Será que tal fenômeno ocorrerá após a eleição de 2018? O país, exausto pelos escândalos de financiamento corrupto de eleições, saberá desta vez escolher não só o presidente e o programa governamental mais próximo dos interesses coletivos em conjunto com uma bancada governista que lhe dê maioria para governar? Será ultrapassada esta triste página de nossa história? No bicentenário da Independência do Brasil (2022), finalmente, será alcançada uma independência econômica?

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