Rio Baby-Boom

Nasci em Belo Horizonte, mas morei no Rio de Janeiro na primeira fase de minha infância (1952-1953) e depois retornei na primeira fase de minha vida profissional (1978-1985). Pelas inúmeras férias passadas lá, onde meus avós moravam – e, principalmente, pelo grupo de amigos cariocas que até hoje tenho a felicidade de manter –, eu me sinto mais ambientado lá do que na minha cidade-natal.

Eu me pego cantarolando o Xote de Copacabana, música de Jackson do Pandeiro:

Eu vou voltar que não aguento

O Rio de Janeiro não me sai do pensamento

Eu vou voltar que não aguento

O Rio de Janeiro não me sai do pensamento

Ainda me lembro que eu fui à Copacabana

E passei mais de uma semana sem poder me controlar

Com ar de doido que parecia estar vendo

Aquelas moças correndo

de maiô à beira-mar

As mulheres na areia

Se deitam de todo o jeito

Que o coração do sujeito

Chega a mudar a pancada

E muitas delas vestem

Um tal de biquini

Se o cabra não se previne

Dá uma confusão danada

O Rio de Janeiro é central na História do Brasil. Agradou-me conhecer o contexto de minha infância passada lá em meados do século passado… mesmo sendo passado.

Ruy Castro descreve, no livro A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção, o que era o Rio de Janeiro otimista do pós-guerra, da geração baby-boom, do samba-canção.

Fonte para Download:
Estatísticas do Século XX.pdf

“Em 1950, 68% da população brasileira [total de 51.941.767 habitantesvivia no campo, dormia cedo, criava galinhas, raramente ia ao dentista e, por não ir ao cinema nem ler jornal, nunca tinha ouvido falar em Hedy Lamarr ou Lourdes Catão. Apenas 32% viviam nas cidades. Destas, o Rio tinha 2,4 milhões de habitantes, São Paulo, 2,2 milhões, e todas as outras, menos — bem menos — de 500 mil. Se Copacabana fosse uma cidade, seus 130 mil habitantes fariam dela a décima maior do Brasil em população, à frente de capitais como Manaus, Maceió, São Luís, João Pessoa e Natal. A maioria das cidades brasileiras limitava-se a uma igreja, uma farmácia e uma estação rodoviária cercadas por uma triste e adormecida zona rural. O Rio, diante delas, era algo das mil e uma noites.

No Rio ficavam o presidente da República — dito assim, parecia importante, embora fosse apenas o Dutra —, os ministérios, as autarquias, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, o corpo diplomático, a presidência dos bancos, a matriz das seguradoras, a indústria editorial, pelo menos quinze jornais diários e inúmeras revistas, quase todos de circulação nacional, treze estações de rádio, as agências de propaganda, a Praia de Copacabana, o Pão de Açúcar, o Copacabana Palace, a Confeitaria Colombo, a Cinelândia, o Fla-Flu, o sorvete Kibon. Os destinos do país se decidiam nos escritórios das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, com uma ou duas horas para almoço na sede do Jockey Club, ao lado do Theatro Municipal. Mas a noite pertencia a Copacabana, cujo coração ficava no Vogue, e os demais órgãos se espalhavam por — a essa altura — dezenas de boates.

Era onde aconteciam coisas como: juntos e sorridentes, o marido, a mulher e o cunhado entravam no Vogue, e sabia-se que os três formavam um feliz casal. Era romântico. Ou: uma das dez mais elegantes foi provar um vestido na costureira Iracema; quando Iracema se afastou para buscar a roupa, a mulher viu, casualmente, sob um cinzeiro na mesinha, um cheque de seu marido pagando o vestido de outra das dez mais — e apenas se admirou com a casualidade.

Ou ainda: o marido de um casal perfeito, momentaneamente sem fundos, apostou a mulher no strip-pôquer — nunca foi tão exata a expressão “pagar para ver”. E muitas outras histórias do gênero, dignas da Belle Époque vienense, como se extraídas dos contos de Arthur Schnitzler — só que reais, verdadeiras, passadas no Rio de 1950.

Enquanto esses pecadilhos se dessem dentro do grupo a que todos pertenciam, não havia lugar para cenas de ciúme ou desgosto. Eles se entendiam. Era um jogo de sedução e de espelhos, em que os protagonistas — adultos, ricos e bonitos — não faziam mais que sua “obrigação ao se desejarem. Mas, se iam à prática, era com compostura e respeito.

Raros os casos de flagras e constrangimentos, como o do banqueiro que, por distração, chegou antes da hora à casa em Petrópolis, obrigando sua mulher a esconder o amante no armário — e, mais raro ainda, a se separar do marido para se casar com o amante. Separações e desquites não eram de bom-tom, além de ser antieconômicos em casamentos com comunhão de bens. Grande parte desse balé altamente civilizado se dava no Vogue, [boate] onde o meneur de jeu era, veja só, um vienense.

A suas mesas sentavam-se os grandes sobrenomes cariocas, cada qual comportando vários membros e compreendendo pelo menos duas gerações.”

[Esta “nobreza” é uma reminiscência da antiga corte imperial – e Distrito Federal. No Rio de Janeiro me chamam de Fernando Costa, sempre destacando o último sobrenome. No estado de São Paulo sou conhecido como “Fernando Mineiro”. Se tivesse vida profissional em Minas Gerais, provavelmente seria Fernando Nogueira… Curioso, né?]

“Jacinto de Thormes revolucionou o colunismo social brasileiro, até então escravizado ao estilo que se limitava a descrever os pratos de banquetes e listar os presentes — embaixadores, ministros, comendadores — nos salões da velha sociedade carioca. Ele fez diferente. Anteviu que o Vogue esvaziaria esses salões. Pigarreou britanicamente, instalou-se em um canto da boate e esperou pela chegada de seus personagens — todos, como ele, com menos de trinta anos. E eles não faltaram.

Para defini-los, começou a usar a expressão “café-society”, inventada pelo esperto publicista de Nova York, autor do livro Cafe Society Register, de 1941. A diferença é que lá era composto de mil nomes, era eclético demais: admitia artistas de cinema, boxeadores, coristas, assessores de imprensa, jornalistas e até gigolôs, de mistura com, estes, sim, os proprietários de grandes empresas, senhoras da alta-roda e jovens debutantes.

No Brasil, onde a sociedade era esnobe e elitista — o colunista-social bem o sabia —, o café-society seria apenas sua parte mais visível e divertida, mas ainda consideravelmente exclusiva. E teria os seus códigos respeitados. Em 1950, a palavra “empresário”, por exemplo, não se aplicava aos investidores, industriais e comerciantes de alto porte. Empresário era o sujeito que vendia jogadores brasileiros para o futebol português ou espanhol — uma espécie de agente, provavelmente com caspa no colarinho — ou um promotor de espetáculos noturnos. Não se confundiam com os investidores, industriais e comerciantes ricos.

Não que Jacinto de Thormes não fosse a favor de uma certa mistura. Em uma coluna de 1948, ele exortava os visitantes de outros estados: “Compareçam ao Vogue e reparem nos narizes, nos olhos, nos vestidos, nas pernocas, na educação, no silêncio, na matraca, e dancem com música e bebam com água e gelo, e participem do café-society. Se não puderem com o society, pelo menos com o café”. Ele dava a entender que não levava o leitor muito a sério.

Naquele círculo, os “homens de salão” brasileiros, como Jacinto os definiu, sentiam-se como em suas casas — até então isso nunca acontecera no Rio em tão alta escala. E novos códigos foram criados. Ninguém era obrigado a ser rico, mas não se aceitava o descuidado. Os sapatos tinham de ser engraxados diariamente; a barba, feita duas vezes por dia; e o cabelo, cortado a cada quinzena. A partir de certo nível social, um homem deveria ter pelo menos dez ternos de casimira e um ou dois smokings no armário. E os exageros eram criticados, como o do empreiteiro Santos Vahlis, que todos consideravam inconveniente e sem classe — fazia-se ver e ouvir no Vogue como se fosse uma estrela — e se gabava de ter 2 mil gravatas.

Ou mesmo o do industrial Dirceu Fontoura, que, de uma só vez, mandou fazer trinta ternos no De Cicco. Não pelo dinheiro que isso custou, mas pela falta de sentido. Dirceu e seu irmão Olavo, fabricantes do Detefon e do Biotônico Fontoura, eram sócios dos Laboratórios Fontoura-Wyeth, fornecedores de antibióticos para todos os hospitais federais do país. O surpreendente é que, com esse cacife, Dirceu não tenha mandado fazer logo sessenta ternos. Mas, se ele fosse de fato elegante, e não apenas rico — diziam os amigos —, teria comprado meia dúzia de ternos no Charvet, na Place Vendôme, em Paris, e estaria mais bem servido.

Quanto às mulheres, algumas só iam mesmo às compras em Paris — e era em Paris que mandavam lavar a roupa —, mas havia uma luxuosíssima alternativa nacional: a Canadá de Luxe. Para todos os efeitos, era uma filial brasileira, em plena esquina de Assembleia com Rio Branco, das maisons Dior, Schiaparelli, Chanel, Patou. Foi a Canadá que trouxe para o Rio os vestidos de alças, os de frente única e os tomara que caia, os boleros de fustão, as saias rodadas, as meias com fio preto.

Uma semana depois de lançados lá fora, réplicas absolutamente iguais e autorizadas já estavam disponíveis aqui — os originais eram descosturados para se saber como tinham sido feitos e reproduzidos nos menores detalhes. Acima do salão de alta-costura, onde se davam os desfiles, a Canadá tinha três andares de ateliê, onde um exército de costureiras passava o dia falando em tules, tafetás, tarlatanas, camurças, feltros, forros, saias godês.

Sua clientela era a chamada haute gomme, mas a prova de que parecer rico custava caro é que muitas grã-finas mantinham uma espécie de crediário na Canadá, pagando mensalidades que permitiam um fluxo permanente de novas aquisições. E elas próprias se encarregavam de estender esse fluxo: um vestido que custara o equivalente ao salário de um ministro de Estado, mas que já estava conhecido no Rio, podia ser vendido para uma grã-fina de São Paulo, onde ele ainda era inédito, e de lá seguia carreira nas praças menores. Em alguma dessas praças, uma costureira local o reformava e ele renascia, pronto para novas e inesquecíveis noites.

A clientela existia e era fiel, porque a Canadá funcionava praticamente full time. A qualquer hora que se entrasse em suas dependências, em dois minutos haveria cinco modelos desfilando, todas com 1,72 metro de altura (sem sapato) e manequim 42 — entre as quais, naquele período, Ilka Soares, Vera Barreto Leite e Georgia Quental.

Algumas das melhores clientes de Mena e Candida eram as primeiras-damas dos outros estados, que vinham ao Rio para renovar o guarda-roupa e, certamente com o dinheiro do erário, faziam o serviço completo: lingerie, chapéus, tailleurs, bolsas, capas, estolas, luvas, sapatos, meias, calças compridas e moda praia. À noite, iam estrear as compras nas boates, escoltadas por seus secretários ou por um carioca avulso e atencioso.

Os tempos eram enriquecidos por uma atmosfera permanente de conquista. Muitos maridos mantinham o que, na gíria da época, se chamava a “casa militar” — composta de amante vaidosa e exigente, garçonnière em Copacabana, uísque, vitrola, lençóis de seda e, às vezes, carro (para ela) — em contraposição à “casa civil”: esposa, filhos, cachorro, apartamento no Flamengo e estação de águas em Caxambu.

Os mais fogosos costumavam ter duas amantes: a amante propriamente dita — uma mulher de classe, quase sempre esposa de um amigo — e uma vedete do Night and Day ou do Casablanca, para os dias de chuva. Os milionários paulistas tinham amantes permanentes no Rio e, sem que eles soubessem, suas esposas, também — sempre que possível, elas vinham “visitar os parentes”.

Num Rio ainda sem motéis e em que os melhores hotéis não se abriam para encontros espúrios, as garçonnières eram uma necessidade. Os menos abonados as alugavam no centro da cidade, e uma razoável concentração delas ficava na insuspeita praça da Cruz Vermelha, atrás da Lapa. Já os amantes de primeira linha não abriam mão da avenida Atlântica e da vista para o mar. Nos dois casos, quem cuidava para que a garçonnière conservasse uma certa ordem — cama arrumada, cinzeiros limpos, garrafas no lixo — era a mulher do porteiro do prédio, paga por semana.

Esse universo de transgressão e prazer era o cenário das comédias inspiradas nesse pessoal — histórias de trocas involuntárias de casal, esposas e amantes encontrando-se acidentalmente na mesma garçonnière e separações que nunca chegavam a se consumar. Esse universo era levado para os grandes espetáculos das boates e para seus shows de humor em pé — stand-up comedy —, pioneiros no Brasil.

Essas situações equívocas eram mais plausíveis de acontecer por causa das condições da época. Mesmo que não se fizesse nada, era difícil passar despercebido na rua. Em 1950, o Rio tinha cerca de 50 mil automóveis, todos importados, vistosos e com placas fáceis de decorar.

Não era muito para uma cidade de menos de 2,5 milhões de habitantes, e alguns eram modelos exclusivos, daí reconhecíveis. O Packard azul conversível era de Didu Souza Campos. O Cadillac Coupé de Ville amarelo, de Heleno de Freitas. A Mercedes branca, do barão Stuckart. O inconfundível Cadillac 60 Special, de 1938, de Mariozinho de Oliveira. Ismael Netto, líder dos Cariocas, o radialista Manuel Barcellos e Humberto Teixeira, o inventor do baião, tinham, cada um, um Jaguar. E Victor Costa, diretor da Rádio Nacional, não podia fazer por menos: tinha um Rolls-Royce. Seria quase impossível aos donos de carros tão conspícuos ir a algum lugar e ficar incógnitos.

Por sorte, em fim de governo, o presidente Dutra passou uma lei esdrúxula, facilitando a importação de automóveis a quem passasse algum tempo — qualquer tempo — fora do país. As pessoas começaram a viajar para os Estados Unidos para comprar um carro americano novo; despachavam-no de navio para o Brasil e seguiam viagem. Na volta, vendiam o carro; esse dinheiro pagava o que haviam gastado com passagens e hotéis, e ainda sobrava troco. A cidade foi inundada de Cadillacs e outras marcas famosas. Com isso, alguns carros ficaram menos marcantes, e as pessoas puderam circular a salvo de olhos enxeridos.”

Leia mais:

Apenas 17 municípios brasileiros concentram 21,9% da população do país. Segundo as Estimativas de População de 2016 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), todas essas cidades têm mais de um milhão de habitantes e somam 45,2 milhões de pessoas. De acordo com levantamento do IBGE, o país tem 207 milhões de habitantes, em 5.570 cidades.

Em 2016, mais da metade da população brasileira (56,4%) vivia em apenas 309 dos municípios com mais de 100 mil habitantes. Esses locais (5,5% do total de municípios brasileiros) concentram 116,1 milhões de habitantes.

A cidade de São Paulo, a mais populosa do Brasil, tem população de 12,04 milhões (5,8% do total nacional). A capital paulista é seguida por Rio de Janeiro (6,5 milhões), Brasília (2,98 milhões), Salvador (2,94 milhões), Fortaleza (2,61 milhões), Belo Horizonte (2,51 milhões) e Manaus (2,09 milhões). Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, com mais de 1,3 milhão de habitantes, era o município não capital mais populoso do Brasil e Campinas, o município mais populoso do interior do Brasil, ambos no estado de São Paulo.

13 Guarulhos  São Paulo 1 337 087
14 Campinas  São Paulo 1 173 370

Atualmente no Brasil há 70 regiões metropolitanas, distribuídas por todas as grandes regiões do país. As dez maiores estão na lista abaixo.

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