O Brasileiro Poupador? Eu Quem, Cara-Pálida?

Mercado de Trabalho no Brasil: População Ocupada: 89 milhões (MM); Formal com carteira: 34 MM (38%); Servidores públicos: 11 MM; Subtotal: 45 MM (51%). Conta própria:  22 MM; Informal sem carteira: 10 MM; Doméstica: 6 MM; Empregadores:  4 MM; Auxiliares familiares: 2 MM; Subtotal: 44 MM (49%).

Segundo a Pnad 2015, somente 8,4% da população ocupada (89 milhões no 1º. Trimestre de 2017) ou 7,476 milhões de pessoas ganhavam acima de 5 de salários mínimos (R$ 4.150,00 em 2017). A classe média era composta de 5 milhões pessoas, a média alta, 2 milhões,  e a alta 0,5 milhão.

Segundo as DIRPF 2016 – AC 2015, “ricaços” eram 0,1% dos declarantes (27.518 pessoas) com renda média mensal de R$ 135 mil e a renda do contribuinte com maior Renda Tributável Bruta da faixa era R$ 12,608 milhões / mês; Bens e Direitos (Ativos Financeiros, Imobiliários e Automotores) per capita: R$ 15,141 milhões.

Classe Rica – A (0,9%): 275.188 – 27.518 = 247.670 declarantes com renda média de R$ 34.165 e maior da faixa R$ 60.117; Bens e Direitos per capita: R$ 2,143 milhões.

Classe Média Alta – B (9%): 2,477 milhões; renda média: R$ 13.669; maior renda da faixa: R$ 26.361; Bens e Direitos per capita: R$ 565 mil.

Classe Média Média – C (40%): 11 milhões; renda média: R$ 4.660; maior renda da faixa: R$ 8.721; Bens e Direitos per capita: R$ 182 mil.

Classe Média Baixa – D (50%): 13,759 milhões; renda média: R$ 1.640; maior renda da faixa: R$ 2.812; Bens e Direitos per capita: R$ 154 mil.

Não-declarantes: 61,5 milhões da PO e os da PIA que receberam rendimentos tributáveis anuais inferiores a R$ 28.123,91 em 2015 (ano-base para a declaração do IR deste ano) ou mensal de R$ 2.163; contribuintes que receberam rendimentos isentos, não-tributáveis ou tributados exclusivamente na fonte, cuja soma tenha sido inferior a R$ 40 mil no ano de 2015.

Segundo dados da ANBIMA, em dezembro de 2016, a Concentração Riqueza Financeira per capita era CMA = 3,5 CMB; PB = 151 CMB; PB = 42,5 CMA.

Em dezembro de 2015, existiam 62 milhões depositantes de poupança com saldo acima de R$ 100, cujo saldo médio per capita era R$ 9.706.

Em FIFs e TVMs, o varejo tradicional (CMA) era 6,3 milhões investidores com saldo médio per capita de R$ 46 mil.

O varejo de alta renda (CMB) era composto por 3,1 milhões investidores com saldo médio per capita de R$ 160 mil.

O Private Banking (PB) era composto por 110 mil investidores com saldo médio per capita de R$ 6,483 milhões.

E ainda tem gente que fala de O Brasileiro! Mas quem é, hein? Você viu o arquétipo do brasileiro por aí? Eu nunca vi…

É possível falar em um indivíduo representativo de uma sociedade tão desigual? O que significa média da renda do trabalho (PNAD) quando 75% (ou 3 quartis) estão abaixo dela? A mediana (50% abaixo e 50% acima) é menos de ⅔ da renda média! A renda per capita do trabalho do 95o. percentil é 3 vezes a renda média, enquanto a do 99o. percentil é 6,7 vezes!

Aquiles Mosca é estrategista de investimentos pessoais e superintendente executivo comercial do Santander Asset Management. É autor dos livros “Investimentos sob medida” e “Finanças Comportamentais“. Preside o Comitê de Educação de Investidores da Anbima. Publicou artigo (Valor, 02/05/17). Ele fala de O Brasileiro como poupador. Pasmem… Está se dirigindo a quem: aos 10,2 milhões que já fazem investimentos financeiros em FIF/TVM? Ou aos 62 milhões depositantes de poupança com média per capital em torno de R$ 10 mil?!

“Os protestos recentes contra a reforma da previdência, ora em discussão no Congresso Nacional, revelam quão precária é a consciência do brasileiro quando o assunto é seu sustento no período de aposentadoria. E olhe que a atual reforma é apenas um ajuste fino de uns poucos parâmetros, como idade mínima e tempo de contribuição, e não uma mudança estrutural do sistema de previdência, que ficará para outro governo resolver.

Revelador dessa precariedade é um estudo feito pelo Oxford Institute of Ageing com brasileiros de classe média e idade entre 40 e 49 anos, ou seja, pessoas que deveriam estar em fase de uma reflexão mais profunda sobre como sobreviverão após a aposentadoria.

  • Nessa população, 60% não pensou ou não está apreensiva com a aposentadoria.
  • Já 48% não está preocupada com sua sustentabilidade financeira na aposentadoria.
  • Apenas 19% se declararam preocupados com o tema.
  • Por fim, a principal fonte esperada de recursos para o sustento financeiro na velhice ainda é o governo (3,2 em uma escala de 1 a 4).

A resistência a tais mudanças não é um privilégio dos brasileiros. Os governos europeus enfrentam um desafio igualmente grande. Tome como exemplo a reação dos controladores de tráfego aéreo franceses, que cerca de um ano atrás paralisaram o transporte aéreo no país por dois dias quando viram encaminhado ao Congresso a proposta de elevar a idade de aposentadoria dessa categoria de 57 para 59 anos.

Com exceção de algumas áreas do globo, como certas regiões da África-Subsaariana, as pessoas no mundo todo estão vendo suas expectativas de vida aumentarem. Esse incremento da longevidade ocorre em paralelo à manutenção da qualidade de vida e, consequentemente, de um prolongamento dos anos em que as pessoas encontram-se em condições de trabalhar, sem exigir cuidados de terceiros. Esses fatores expandem o que a economia do trabalho define como idade produtiva.

Um estudo da Universidade de Tóquio com seis mil pessoas, ao longo de 25 anos, revelou que do ponto de vista prático 80% da população urbana é perfeitamente capaz de permanecer saudável e produtiva até 75 anos (muitos se mostraram perfeitamente capazes até os 80 anos!), período a partir do qual há um declínio gradual da capacidade de cuidar de si próprio sem auxílio.

Inspiradora para o debate atual no Brasil é a consciência existente em seis países asiáticos que participaram de um estudo do Global Ageing Institute. Mais de 50% das populações de Indonésia, Malásia, Singapura, Hong Kong e Coreia do Sul declararam desejar que seus governos incrementem a idade mínima de aposentadoria e 70% espera continuar trabalhando com a mesma intensidade após a nova idade oficial. Estamos falando de uma região que tem hoje 450 milhões de pessoas com mais de 60 anos (mais que o dobro da população total do Brasil). Espera-se que esse contingente de idosos chegue 1,2 bilhão de pessoas nessa região em 2050.

Ainda mais interessantes e motivadoras de reflexão são as razões para tal pleito. A primeira, e mais óbvia, é a preocupação financeira pura e simples. A segunda é o desejo de permanecer produtivo. Esse aspecto foi apontado como importante por gerar noção de propósito e contribuição. Por fim, aparece o desejo de não tornar-se um peso financeiro para os filhos e dessa forma não prejudicar a busca de independência financeira pela próxima geração.

A demanda dessas populações não se restringe a aumentar a idade oficial de aposentadoria e prolongar seu período produtivo. Há em paralelo, do lado qualitativo, um desejo de reforma trabalhista que proporcione a esses seniores condições mais flexíveis de emprego, como jornadas variáveis de trabalho, incentivo ao home-office e definição de objetivos a serem alcançados no trabalho ao invés de horas trabalhadas a serem cumpridas.

Em contraste, os estudos citados acima demonstram que, aqui no Brasil, ainda prevalecem as noções de

  1. que o bom é parar logo de trabalhar,
  2. que o governo proverá o sustento da maioria e
  3. que, portanto, não há necessidade de precaver-se e agir com antecedência para garantir segurança financeira na aposentadoria.

O resultado dessa dinâmica já é conhecido: uma maioria esmagadora de aposentados no Brasil (estima-se algo ao redor de 97%) não consegue sustentar-se com recursos próprios.

As mensagens que ficam, e contra as quais não adianta lutar, são:

1) viveremos por mais tempo e com mais qualidade;

2) a noção de idade produtiva já está em expansão e tende a continuar ampliando-se;

3) os dois pontos anteriores abrem espaço para um período mais prolongado de geração de riqueza e acumulação para a aposentadoria;

4) manter-se produtivo por mais tempo é um mérito a ser aproveitado e não um destino a ser evitado; e

5) para acomodar essa nova realidade, encontrar formas criativas de manter-se produtivo deveria ser o foco das reformas trabalhistas, que necessariamente acompanham a modernização do regime previdenciário.”

2 thoughts on “O Brasileiro Poupador? Eu Quem, Cara-Pálida?

  1. Quando a realidade econômica se impõe, a ideologia é descartada. Então, tanto a reforma previdenciária quanto a reforma trabalhista são necessárias.

    1. Prezado Bruno,
      só a democracia garante os direitos sociais. Este Congresso Nacional, que deu um golpe parlamentarista em um presidencialismo, perdeu a legitimidade para fazer essas reformas que cortam direitos — e não estavam no programa vencedor em 2014.

      O debate sobre elas deverá ser realizado durante a campanha eleitoral, para os eleitores elegerem legítimos representantes dos interesses coletivos nacionais.
      att.

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