Por que a Informação Cresce: A Evolução da Ordem, de Átomos à Economia

Navegando na internet em busca do livro de Cesar Hidalgo com o título acima, achei apenas uma resenha dele, postada em 29 de setembro de 2016 por Fabio Hideki Ono. Há crescente importância da Economia de Dados e Informações – foco que adoto na disciplina “Métodos de Análise Econômica” que ministro no 2o. semestre letivo –, em que se busca transformar a complexidade de grandes planilhas de dados, orientado por teorias e conceitos, em simplicidade analítica, propiciando novas reflexões.

Compartilho abaixo, destacando passagens importantes da resenha de Fabio Hideki Ono.

“Ideias que mudam seus modelos mentais estão contidas no livro “Why Information Grows” lançado em 2015. O autor é Cesar Hidalgo, um físico Chileno que atualmente trabalha no MIT Media Lab. Hidalgo, juntamente com Ricardo Haussmann e um conjunto de pesquisadores de Harvard e do MIT, realizou um estudo sobre complexidade econômica. O livro aborda questões como a relação entre diversas disciplinas da ciência e o esforço intelectual de cientistas em entender o mundo em que vivemos.

Em Física, o conceito de entropia é comumente associado a desordem. Entropia é uma medida da combinação de estados físicos equivalentes, por exemplo, a disposição de uma quantidade de átomos em um determinado espaço. Quanto maior a falta de uniformidade ou padrões, maior é a desordem e a entropia de um conjunto. Daí a noção de que, desde o Big Bang, o universo caminha inevitavelmente para a desordem.

[Ao contrário da ilusória ideia liberal da economia de mercado de que ela, sob auto regulação, caminha inapelavelmente, para uma ordem espontânea.]

É exatamente nesse ponto que Hidalgo apresenta um novo paradigma ou modelo mental sobre o mundo. O conceito central é que a informação se opõe a entropia. A informação está relacionada a “ordem física” e, desse modo, o planeta Terra se destaca no universo pela disponibilidade de informação. Segundo Hidalgo, o planeta Terra é, para informação, o que um “buraco negro” representa para matéria ou uma estrela representa para energia.

Esse raciocínio instiga a releitura da Economia, não por elementos tradicionais como capital e trabalho, mas por elementos tradicionais da Física, como energia, matéria e informação. A tese central de Hidalgo é que o crescimento das economias é explicado pelo crescimento da informação. Sendo assim, para entender porque as economias crescem, é necessário entender os mecanismos pelos quais a informação aumenta.

Ao tratar do conceito físico da informação, os objetos sólidos (em oposição a matéria na forma líquida e gasosa) são essenciais para explicar a vida e sua natureza rica em informação. É a organização de aminoácidos em células e sua combinação na cadeia de DNA que tornam possíveis a existência de organismos unicelulares e também do ser humano. Tudo isso representa informação armazenada. É a informação genética aperfeiçoada ao longo de bilhões de anos, por tentativas e erros, que produziu a espécie humana.

Graças ao engenho de seres humanos e a combinação de conhecimento e know-how que são produzidas intrincadas combinações de átomos, como o caso de um Bugatti Veyron. Hidalgo utiliza o exemplo desse carro, cujo valor estimado é de US$ 2,5 milhões, para argumentar que um objeto sólido como esse representa uma configuração de informação muito específica e correlacionada. Seu valor monetário estratosférico é atribuído justamente a essa combinação de informações. Tal valor monetário pode ir a praticamente zero caso a Bugatti seja destruída ou gravemente danificada.

No que tange à Economia, o importante é entender os processos que permitem às pessoas (ou  grupo de pessoas) produzirem objetos ou informação. Tais processos envolvem a formação de uma rede profissional e social capaz de acumular e processar conhecimento e know-how. Para o autor, conhecimento envolve o relacionamento ou ligações entre informações. Já know-how refere-se ao conhecimento tácito, ou seja, à capacidade de realizar ações.

O know-how é acumulado tanto por indivíduos como por grupos de indivíduos. Por exemplo, uma orquestra sinfônica bem ensaiada é um tipo de know-how coletivo.

A indução desse raciocínio leva ao entendimento da Economia como um sistema coletivo e social pelo qual os seres humanos fazem a informação crescer. Ao conceber que existe informação embutida em objetos, Hidalgo nos brinda com uma metáfora “poética” sobre os objetos produzidos por pessoas, os “cristais de imaginação “. Tais produtos ou objetos, representariam aplicações ou a materialização de conhecimento, know-how e imaginação.

Nesse sentido, produtos seriam a cristalização de pensamentos de pessoas em objetos tangíveis, incluindo também softwares, ou seja, objetos virtuais intangíveis, que permitem aos indivíduos compartilhar pensamentos com outros. Sem a materialização desses pensamentos em objetos, as possibilidades de troca e a evolução para outros tipos de “pensamentos” seria muito limitada.

Assim, para Hidalgo, o desenvolvimento econômico está relacionado às capacidades das economias não de comprar, mas sim de “produzir informação”. Para fazer a “informação crescer”, ou seja, para produzir novos cristais de imaginação, é necessária capacidade de computação, isto é, de processos de transformação da informação.

Por sua vez, a capacidade de computação requer o bom funcionamento de redes sociais de interação entre pessoas ou grupos de pessoas, sendo afetado por instituições e tecnologias. Das interações entre todos esses componentes, em diversos níveis de escala, emerge um Sistema Complexo, porém, passível de ser interpretado via simplicidade analítica.

O crescimento da economia, ou seja, o crescimento da informação, é limitado por seus ingredientes:

  1. conhecimento e
  2. know-how.

Por sua vez, o conhecimento e o know-how estão “aprisionados” na mente das pessoas e nas redes que os agentes econômicos formam. As tecnologias aos poucos reduzem restrições dadas por fronteiras nacionais, facilitando a comunicação e “encurtando” distâncias. No entanto, como a socialização de informações e/ou conhecimento/know-how é ainda um fenômeno com grande especificidade local, então o conhecimento e know-how acabam se acumulando em determinados espaços geográficos. Para Hidalgo, as diferenças de conhecimento e know-how entre regiões explicariam a desigualdade econômica e social.

Como as pessoas adquirem conhecimento e know-how? As pessoas aprendem, isto é, adquirem conhecimento e habilidades de outras pessoas, sendo muito mais proveitoso para nós aprender de pessoas que têm experiência em tarefas que desejamos aprender.

A diversidade de conhecimento e know-how é fator determinante da capacidade de produção de informações mais complexas, isto é, cápsulas com mais know-how embutido. A formação de redes de relacionamentos desempenha um importante papel no emprego dessa diversidade.

Para explicar como as redes se desenvolvem, Hidalgo recorre ao pensamento de grandes estudiosos em seus próprios campos de atuação. Por exemplo, Robert Putnan e Francis Fukuyama na Ciência Política e Robert Coase e Oliver Williamson na Economia e Teoria da Firma.

As empresas são entidades eminentemente econômicas e sociais, pois são formadas por grupos de pessoas com diferentes conhecimentos e know-how reunidas para produzir bens e serviços. A Teoria da Firma, desde seu início, se ocupou em responder a perguntas como: por que as firmas existem? Quais são os limites entre a firma e o mercado? Outra forma de colocar a última pergunta seria: quando vale produzir internamente e quando é melhor comprar de outra firma?

Resumidamente, a resposta a essa pergunta é baseada no conceito de custo de transação. Quando o custo de transação externo (a firma comprando do mercado) é menor que o custo de transação interno (de produzir algo internamente) a firma prefere não contratar novas pessoas para realizar tarefas, já que é preferível comprar produtos e serviços do mercado. Por outro lado, transações de mercado tendem a ter custos na forma de contratos, inspeções, negociações, disputas, etc.

A rede formada por pessoas de uma empresa ou a rede formada por empresas (fornecedores e clientes) é o que determina a capacidade de arranjar o conhecimento e know-how e “cristalizar a imaginação”, isto é, produzir.

Para explicar os mecanismos de formação de redes e os determinantes da força de ligação entre os elos da rede, Hidalgo recorre a elementos no campo da Sociologia e da Ciência Política. Francis Fukuyama em seu livro “Trust” afirma que “certas sociedades podem economizar significativos custos de transação por que os agentes econômicos confiam uns nos outros, em suas interações. Por isso, podem ser mais eficientes do que sociedades com baixo nível de confiança, que requerem contratos detalhados e mecanismos de exigências”. A confiança (trust) é, portanto, um canal mais eficiente do que a via de instituições formais para a formação de redes econômicas, pois podem funcionar sem a carga e o custo envolvido com a “papelada” de contratos e sua burocracia.

Nesse sentido, a confiança é uma forma essencial de capital social, uma espécie de “cola” necessária à formação e manutenção de grandes redes. Novamente, de acordo com Fukuyama, “a estrutura da organização industrial pode contar uma história interessante sobre a cultura de um país.

  1. Sociedades que têm famílias muito fortes e elos relativamente fracos de confiança entre pessoas que não fazem parte de seus círculos são dominadas por pequenos negócios familiares.
  2. Países que têm organizações sem fins lucrativos (não governamentais) vigorosas como escolas, hospitais, igrejas têm maior probabilidade de desenvolver instituições econômicas privadas fortes e que vão além da família”.

Uma implicação da visão contida nesse livro para políticas de desenvolvimento produtivo é entender uma indústria ou atividade econômica como a expressão do conhecimento, know-how e outros fatores locais, tal qual o nível de confiança da sociedade. De outra forma, podemos também ver uma indústria como a estrutura necessária para acumular tais fatores (sociais, conhecimento e know-how). Ou seja, tais fatores determinam e são determinados pelas indústrias e atividades presentes.

Essa interdependência entre as indústrias (atividades produtivas) e seus fatores de produção, assemelha-se ao dilema entre o ovo e a galinha: quem nasceu primeiro? A Teoria da Complexidade Econômica oferece uma resposta a esse dilema que é buscar o desenvolvimento de produtos mais complexos a partir de conhecimento e know-how já disponíveis no local.

Essa situação envolve o fortalecimento de ativos existentes. Não importa o quão carente seja um local, sempre haverá ativos, inclusive os de conhecimento e know-how.

O primeiro passo é identificar onde estão os ativos que poderiam ser mobilizados para melhorar a produção e o bem-estar. Pessoas, empresas e instituições podem fortalecer suas condições (não importa o quão ruim sejam) mobilizando os ativos que eles têm a disposição, para conseguir o que eles não têm e de forma obter o que precisam. Infelizmente, isso não significa que alcançarão esse objetivo.

O desenvolvimento produtivo envolve a mobilização de fatores de produção em prol do bem-estar social. São cinco os fatores de produção:

1) trabalho,

2) terra ou recursos naturais,

3) capital físico,

4) capital humano e

5) capital social ou tecnologia.

Na concepção de Hidalgo, o capital físico representa o encapsulamento de informação, sendo equivalente aos “cristais de imaginação”. O capital social representa valor econômico extraído de redes ou relações sociais. Já o capital humano é uma medida do conhecimento e know-how encapsulado em pessoas.

Essas duas últimas formas de capital (humano e social) tem o know-how como um elemento comum. O know-how, ou seja, a habilidade para fazer coisas, determina a capacidade de “empacotar” tais cristais de imaginação. Por sua vez, a capacidade de um sistema de “empacotar” conhecimento depende da fluidez do sistema em usar a informação disponível para construir e fortalecer as redes necessárias para o acúmulo de know-how. Reside aqui a interdependência entre o capital humano e social.

A função de uma Economia é:

  1. desenvolver conhecimento,
  2. decompor esse conhecimento em parcelas “encapsuláveis” em pessoas (personbytes) e
  3. armazenar o conhecimento e know-how em redes de pessoas capazes de recuperar, processar, rearranjar e transmitir tal conhecimento na forma de coisas (cristais de imaginação).

Essa é também a principal função de empresas e de cadeias de valor. Uma vez que as redes que conhecimento requerem confiança para operar, elas podem ser impulsionadas ou freadas por instituições como leis, governos e famílias. Algumas economias e sociedades conseguem realizar essa tarefa melhor do que outras. Segundo Hidalgo, é esta a razão pelas quais alguns locais do mundo são mais ricos que outros.

 

Leia maisPorque as Informações Crescem – Resenha de Paulo Gala

Para saber mais sobre o livro, clique aqui:

http://www.livrariacultura.com.br/p/ebooks/economia/why-information-grows-86165378

2 thoughts on “Por que a Informação Cresce: A Evolução da Ordem, de Átomos à Economia

  1. Prezado Fernando,

    o conhecimento aplicado (know-how), produz cada vez mais volumes de informações que necessitam de mais canais para disseminação. O exponencial aumento de canais irá proporcionar o surgimento de produtos e serviços por agregação (com dependência mútua desse meio). É por esse motivo que é imprescindível o aumento de velocidade da internet (o canal mãe), pelo qual essas informações irão circular e trarão a conectividade necessário para viabilizar cada vez mais aprendizagem e aquisição de conhecimento.

    As pesquisas realizadas pelo instituto Salk, mostraram que nosso cérebro tem a capacidade de armazenar de 1 a 2,5 Peta Bytes de informações (1 Peta Byte = 1 milhão de gigabytes) na forma de interações sinápticas. Segue informações precisas sobre armazenamento: https://rcristo.com.br/2011/02/27/explicacao-sobre-a-capacidade-de-armazenamento-em-informatica/

    Achei o livro em um servidor da Rússia, segue para download direto. Abs.

    Why Information Grows The Evolution of Order, from Atoms to Economies – Cesar Hidalgo – Epub: https://drive.google.com/file/d/0B-IzSwsM47neejJtcEo5a25lNG8/view?usp=sharing

    How Synapses Work

    1. Prezado Reinaldo,
      muito grato! A leitura deste livro será muito útil!

      Quero dar um curso, no segundo semestre, onde se aprenderá transformar a complexidade de grandes planilhas em simplicidade de grandes conclusões!
      Abraço

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