Continua a Recessão

Regis Bonelli, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e um reconhecido estudioso do crescimento e desenvolvimento econômico, inclusive por parte de economistas estruturalistas, é um dos membros do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), que tem como finalidade datar os ciclos econômicos brasileiros. O órgão declarou que a recessão começou no segundo trimestre de 2014, mas até o momento não decretou seu fim.

Em entrevista ao Valor (02/06/17),  Bonelli afirma que os dados do PIB do primeiro trimestre de 2017 dizem que há muita capacidade ociosa. Mas tem que ter alguma forma de reativar a demanda, que a economia brasileira não está tendo, claramente. No primeiro trimestre, a demanda externa foi preponderante. Os componentes da demanda interna caíram. A demanda externa respondeu, mas não se espera que isso vá ocorrer no ano como um todo. Vai haver uma recuperação das importações, e o crescimento das exportações não será, ao longo do ano, o que foi no primeiro trimestre, devido principalmente ao bom desempenho da agropecuária.

O câmbio está um pouco mais desvalorizado, isso facilita as exportações de manufaturas, mas não se antevê nada muito brilhante por esse lado. Então, se o crescimento vier, teria que se apoiar um pouco na recuperação de consumo.

Do consumo e investimento do governo, não virá uma retomada, devido à crise fiscal. O consumo privado depende da recuperação do nível de emprego e da renda. Uma proporção muito grande das novas contratações estava sendo feita com ganhos acima da variação do IPCA, indicando que as novas contratações estão com remunerações para autônomos melhores apenas devido à “pejotização”. Mas, no geral, a renda ainda está em queda.

O consumo das famílias depende da renda e do emprego, que estão indo muito mal. A taxa de desemprego continuou aumentando, na margem, no trimestre de fevereiro a abril. Parte das famílias ainda está se acomodando a um ciclo de endividamento imobiliário, em que elas entraram anos atrás, preferindo pagar as dívidas de crédito ao consumidor — o que nessa altura já deve ter ocorrido — e recompor o orçamento doméstico, dada a incerteza de manutenção do emprego, antes de entrar no consumo.

Quanto ao uso dado aos recursos do FGTS que estão sendo liberados, os consumidores estão pagando dívidas, mais do que consumindo. O resultado disso aparece aí no PIB.

O investimento continua caindo. A taxa de investimento em preços correntes, tanto no primeiro trimestre do ano passado quanto no deste ano, está em 15,6%. Isso é cinco pontos percentuais menos do que era nos bons tempos da Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014) antes da recessão. É muita coisa, especialmente com o nível de capacidade ociosa que a economia tem, generalizada. É difícil imaginar que as empresas comecem a investir quando têm uma margem de capacidade ociosa como têm hoje.

O que se pode fazer para o Brasil voltar a cresce — não é fácil, senão teria sido feita — são as concessões. Se conseguir formatar modelos bem feitos de concessão e implementá-los ao longo dos próximos meses, haverá alguma chance de puxar o investimento privado. Quando há investimento, a indústria reage. Isso gera um multiplicador positivo. Essa é a possibilidade que Bonelli vê, mais do que a demanda externa.

Porém, a incerteza política deixa o cenário mais obscuro, especialmente por causa das reformas, tanto a trabalhista, quanto a da Previdência. A da Previdência é uma possibilidade de melhorar — não resolve – o lado fiscal. Na medida em que ela é ou desidratada ou adiada, os economistas ortodoxos acham que aumenta o risco do aumento da dívida pública e, daí, em um automatismo que não é verdadeiro, ameaçam com o aumento da taxa de juros e aí o risco com rendimentos prefixados aumenta. Com o aumento do risco, o investidor se retrai.

Também não é realista dizer que volatilidade em curto prazo da taxa de juros SELIC afeta projetos de investimento. O retorno dos investimentos em longo prazo não é sempre comparado com a taxa de juros de mercado em curto prazo. Haverá uma retração dos investimentos se a nova TLP, custo de referência dos empréstimos do BNDES, for afetada pela MtM da NTN-Bs de 5 anos.

Este é mais um desastre econômico ocorrido em função da volta de economistas neoliberais ao comando da política econômica: taxa curta afetar taxa longa! O Banco Central regular o BNDES! Oh, que gente inepta para desenvolver o País!

O que se conseguiu com a Grande Depressão, provocada pela volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015, é também a retração das importações. Impulsionado pelos preços favoráveis de produtos básicos, o balanço comercial brasileira registrou em maio superávit de US$ 7,66 bilhões. O resultado foi recorde para qualquer mês, na série iniciada em 1989, de acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Em maio do ano passado, o superávit foi de US$ 6,43 bilhões.

No acumulado do ano, o superávit de US$ 29,03 bilhões também é recorde histórico para o período. O saldo no ano subiu 47,5% sobre o superávit de US$ 19,68 bilhões de janeiro a maio de 2016.

O crescimento do saldo comercial ocorre porque as importações, apesar de já estarem no terreno positivo, ainda crescem em ritmo inferior ao das vendas ao exterior, que ainda estão sendo beneficiadas pela melhora nos preços internacionais. Segundo o Mdic, o preço médio das exportações subiu 19,7% nos cinco meses deste ano.

Mesmo com variação positiva, a importação pressiona menos o saldo comercial porque os desembarques sofreram reduções maiores nos últimos anos, o que deixou a base de comparação menor. Em maio de 2016 a importação caiu 24,3% em relação a igual período de 2015, quando já havia recuado de 26,6% na comparação anualizada. As exportações também caíram na mesma comparação, mas em taxas bem menores, de 0,2% em maio de 2016 e de 15,2% no mesmo mês de 2015, sempre no critério da média diária.

Apesar de ser um número positivo da economia, o balanço comercial traz também alguns sinais preocupantes. Um deles é a queda na quantidade exportada de 0,8% no acumulado do ano, que indica pouco avanço em novos mercados. O outro dado é o recuo de 19,4% nas importações de bens de capital, que evidencia que o investimento ainda está longe de ter uma performance desejável.

Nos cinco primeiros meses do ano, as exportações somaram US$ 87,93 bilhões, com alta de 18,5% pelo critério de média diária. As importações totalizaram US$ 58,90 bilhões com alta de 8,4% ante igual período de 2016.

Quando olhado por categoria, os números do balanço comercial de maio de 2017 também demandam moderação no otimismo. Por exemplo, as exportações de produtos manufaturados, que têm maior valor agregado e tendem a gerar mais desenvolvimento econômico, somaram US$ 6,87 bilhões em maio e recuaram 1,2% na comparação com igual período do ano passado.

O impacto da alta de preços no resultado do balanço foi acentuado em três principais produtos com alta de preços: petróleo, minério de ferro e soja. Neste ano, a exportação desses produtos básicos tem sido favorecida pela base de comparação baixa em termos de preços, já que no ano passado os preços desses produtos estiveram nos níveis mais baixos em dez anos. O preço médio de exportação do minério de ferro, por exemplo, caiu 30,3% em maio contra abril, mas ainda está 19,2% mais alto contra igual mês de 2016. Em abril o preço estava 103,5% mais alto na comparação anualizada.

A projeção de superávit comercial está acima de US$ 55 bilhões para 2017. Há demanda aquecida por produtos brasileiros e capacidade de oferta com safra recorde. Há contribuições importantes de setores como o automotivo.

O comércio exterior teve desempenho superior ao PIB, com alta de 4,8% das exportações líquidas no período, enquanto o PIB subiu 1%. Acontribuição positiva deve arrefecer ao longo do ano, refletindo a menor contribuição dos preços no desempenho das exportações. Os preços, que estavam muito baixos no início do ano passado, foram subindo ao longo de 2016, o que deve diminuir o peso desse indicador nos resultados das exportações brasileiras ao longo de 2017.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s