Guinada à Esquerda do Partido Trabalhista Britânico

Gary Dymski tinha enviado o link para o Manifesto do Partido Trabalhista britânico: Labour’s Manifesto proposals could be just what the economy needs | The big issue.

Marsílea Gombata (Valor, 08/06/17) publicou breve reportagem sobre a guinada à esquerda do Partido Trabalhista britânico, que esvaziou a centro-esquerda no Reino Unido. Ela é uma resposta à falência de um modelo econômico incapaz de prover um Estado de bem-estar social mínimo. A afirmação é do cineasta Ken Loach (abaixo), para quem os trabalhistas antes da ascensão de Jeremy Corbyn se portavam como um partido de direita.

“É uma guinada essencial, viável eleitoralmente e resultado da situação econômica atual. As pessoas têm empregos precários, salários muito baixos, não conseguem se sustentar nem encontrar lugar para morar. Os serviços sociais estão ruindo, e os de saúde, falindo. É um projeto liberal claramente em colapso“, afirmou em entrevista ao Valor .

Para ele, trabalhistas como o ex-premiê Tony Blair criticam as posições mais à esquerda de Corbyn porque são políticos de direita dentro da legenda que era de centro-esquerda. “Blair é tão a favor do neoliberalismo como era [Margareth] Thatcher. Era o líder de um partido que deveria estar à esquerda, mas tinha políticas de direita.”

Partidário de Corbyn, Loach dirigiu “Eu, Daniel Blake“, vencedor do Festival de Cannes em 2016. O filme retrata um carpinteiro de Newcastle que se sente abandonado pelas instituições do Estado. O protagonista, Daniel, entra em uma espiral burocrática ao tentar resgatar o auxílio-desemprego e acaba ajudando uma jovem mãe que teve de deixar Londres com os dois filhos, por não poder pagar o aluguel. Questionado se Daniel seria um eleitor que teria votado a favor do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), Loach afirma que “provavelmente sim”, mas que, na eleição de hoje, votaria no Partido Trabalhista. “Ele sabe que o sistema que fez a sua vida intolerável é aquele que o governo colocou em prática”, diz, em crítica aos conservadores, hoje no poder.

O cineasta britânico, de 80 anos, dirigiu um vídeo para a campanha de Corbyn e compartilha com o líder trabalhista posições políticas que costumam se enquadradas como a velha guarda do trabalhismo britânico. Ele afirma que os britânicos estão com raiva pela precariedade de serviços públicos, como saúde e transporte, e não necessariamente por “temas frequentes na mídia como terrorismo e Brexit”.

O debate em torno do Brexit, ele afirma, foi dominado pela direita, enquanto que o que defendia a esquerda ficou de fora. “A esquerda vê a UE como uma organização a favor das grandes corporações, cuja agenda econômica vem antes dos direitos dos trabalhadores.”

O que os personagens de seu filme demandam, ele explica, são respostas da esquerda, que tenderia a buscar maior proteção social aos britânicos nesse processo. “May representa uma ala de direita dentro de seu partido, que quer ver o Reino Unido fora da UE a qualquer preço. Acredito que, com Corbyn, seria um divórcio mais suave”, diz, ao se referir a possíveis ônus à proteção social dos britânicos.

Questionado se a esquerda está perdendo espaço na Europa, Loach responde que “a verdadeira esquerda” está em movimento.

“Temos de definir o que é esquerda. Para mim, os social-democratas da Europa não são esquerda. Pessoas como Blair ou o Partidos Socialista na Espanha, por exemplo, endossam o neoliberalismo”, critica. “Mas o espanhol Podemos e mesmo o Syriza, na Grécia, mostram que a esquerda está ativa, só precisa ser mais organizada e lutar com força.”

A própria globalização, apoiada pela esquerda tradicional europeia, teria contornos distintos com a considerada “esquerda verdadeira”, afirma Loach. “Se estivermos nos referindo à forma como as grandes empresas transferem investimentos para países onde a força de trabalho é muito barata, com exploração de mão de obra e um uso de recursos naturais que está destruindo o planeta, é algo que definitivamente não desejamos”, diz. Ele argumenta que esse modelo de globalização tem apoio dos partidos de direita, dos social-democratas e da UE. “A esquerda se opõe a isso, mas não à cooperação internacional. Precisamos de cooperação econômica global, mas não de exploração global.”

 

Jeremy Corbyn (acima) se define como socialista e promete elevar impostos e estatizar empresas se o seu Partido Trabalhista vencer hoje as eleições para o Parlamento no Reino Unido. Porém, alguns investidores torcem para que ele ganhe. A escolha aparentemente absurda – O Mercado geralmente prefere o Partido Conservador – diz muito sobre como a decisão do país de sair da União Europeia (UE) mudou o modo como investidores veem a política britânica.

Muitos deles dizem que o Brexit será ruim para a economia britânica, prejudicando o comércio e o grande setor financeiro do país. A posição mais inflexível do Partido Conservador sobre o Brexit significa que alguns gestores de fundos acham que, no longo prazo, será melhor para seus investimentos se os trabalhistas vencerem ou acabarem liderando um governo de coalizão com os partidos pró-UE.

Os trabalhistas prometeram sair da UE, mas continuar no mercado único, mantendo o país aberto a trabalhadores estrangeiros, o que muitas empresas desejam.

Disparidade de riqueza, renda e oportunidade alimentaram uma reação contra políticos tradicionais em toda a Europa e nos EUA. No Reino Unido, a cisão econômica que está moldando a dinâmica nas eleições parlamentares de amanhã é a diferença entre Londres e o restante do país.

Uma grande questão econômica que fomenta a campanha é como eliminar o abismo entre a vibrante capital e as regiões menos prósperas.

Andy Street, recém-eleito prefeito da Autoridade Combinada de West Midlands, uma enorme faixa no centro da Inglaterra e que engloba cidades como Birmingham, Coventry e Wolverhampton, está tentando reduzir o desequilíbrio da área em relação a Londres. Um emblema da divisão, diz ele, é que os gastos com infraestrutura per capita em Londres são sete vezes mais altos do que em sua região.

“Não é de surpreender que não possamos fazer a economia crescer tão rápido”, disse o prefeito de 53 anos.

Londres é mais de oito vezes mais populosa que Birmingham, segunda maior cidade do país, e gera quase 25% da produção econômica anual de todo o Reino Unido, em comparação com cerca de 15% três décadas atrás. Em contrapartida, Paris responde por menos de 10% da economia da França, enquanto Berlim representa menos de 4% da alemã.

O plebiscito sobre o Brexit no ano passado colocou em forte evidência a divisão entre a capital e país. Londres – um entreposto e polo de irradiação financeiro mundial – votou esmagadoramente pela permanência na União Europeia (UE), assim como a Escócia e a Irlanda do Norte. A maior parte da Inglaterra e do País de Gales optou por sair.

Esse resultado deu um impulso renovado a esforços intermitentes para animar as regiões afetadas pela desindustrialização e negligência política. Os dois principais partidos estão tentando persuadir os eleitores de que têm a melhor estratégia para a renovação das economias regionais na quinta maior economia do mundo.

As diferenças são evidentes em métricas que vão de setores de saúde e educação a renda e criação de empresas. Londres e a região Sudeste incubaram cerca de um terço de todos as novas empresas estabelecidas no do Reino Unido em 2015; menos de 3% do total foram estabelecidos no nordeste da Inglaterra. Um homem nascido em Kensington e Chelsea em 2014 poderia esperar viver 83 anos, enquanto um homem nascido em Blackpool provavelmente viveria até 75. A renda disponível anual por pessoa em Leicester, centro da Inglaterra (Midlands), é cerca de um quarto do nível em Camden no norte Londres.

Birmingham, há um século, era uma potência industrial que rivalizava com Londres. Hoje está atrasada. Os trabalhadores de West Midlands (centro-oeste da Inglaterra) produziram 47% menos bens e serviços por hora em 2015 do que os seus colegas londrinos.

Em anos recentes, o crescimento cresceu e o desemprego diminuiu. A região também abriga grandes companhias com presença mundial – é a sede da fabricante de automóveis de luxo Jaguar Land Rover, uma unidade da Tata Motors da Índia.

Mas as empresas dizem não conseguir encontrar facilmente trabalhadores capacitados. As empresas de tecnologia e engenharia em particular realmente têm dificuldades para recrutar.

Os conservadores de May têm colocado a cisão regional no centro da sua plataforma de políticas. Em seu manifesto, o partido disse que estreitar o fosso entre Londres e o restante do país é “a coisa mais importante para o Reino Unido, hoje”.

O partido prometeu investimentos adicionais em habitação e infraestrutura, bem como a criação de cursos científicos e técnicos para treinar trabalhadores. Anunciou também que transferirá departamentos governamentais de Londres para apoiar as economias locais.

O Partido Trabalhista, o principal de oposição, também incluiu a revitalização regional em sua agenda, dizendo em seu manifesto que estabelecerá um banco nacional de investimentos com uma rede de agências para financiar investimentos em infraestrutura em áreas menos desenvolvidas.

“Nossa economia tornou-se perigosamente desequilibrada; distorcida beneficiando Londres e setor financeiro, enquanto nossas antes orgulhosas comunidades industriais vivem décadas de declínio administrado”, disse Corbyn em recente discurso de campanha.

Especialistas dizem que estreitar o fosso econômico entre Londres e outras regiões tem inúmeros desafios. As regiões têm problemas distintos, de educação a transportes e habitação. Crescimento por si só não é suficiente.

Apesar do Brexit e das divisões expostas terem ajudado a elevar essas questões ao topo da agenda política, alguns temem que a colossal tarefa de negociar a saída do Reino Unido da UE poderá colocar o desenvolvimento regional em banho-maria. A grande preocupação agora é que o Brexit sobrecarregue o governo de tal forma que esse processo seja paralisado.

É importante lembrar que regiões como essas são as originárias de reações políticas que causaram o Brexit.

One thought on “Guinada à Esquerda do Partido Trabalhista Britânico

  1. Lógico que “o crescimento por si só não é suficiente” – enquanto os seres humanos da “elite” não acordar que o primeiro investimento “deve” ser na EDUCAÇÃO, não haverá prosperidade.

    Continuarão e continuaremos em “banho maria” enquanto não reconhecerem que investir em EDUCAÇÃO É O PRINCÍPIO para prosperar.

    De que adianda tanta “pompa” tantas fábricas de carros elitizados, se ANTES não investiram em EDUCAÇÃO!

    Essa diferença gritante entre elite e não elite já mostra a enorme desigualdade em todos e em tudo, é um desequilíbrio vergonhoso para qualquer ser humano que concorde com essa disparidade de classes.

    Nesse artigo mostra muito bem o que é ser de esquerda “precisamos de COOPERAÇÃO GLOBAL E NÃO DE EXPLORAÇÃO GLOBAL”.

    DIREITA/NEOLIBERAL = EXPLORAÇÃO GLOBAL

    ESQUERDA/IGUALDADE,DIREITOS HUMANOS = COOPERAÇÃO GLOBAL

    A “briga” estará SEMPRE nas escolhas de atitudes “dentro de nosso teatro global, de como SE COMPORTAM, nos bastidores, os “financiadores do sistema corporatocrata mundial”. ENQUANTO não houver conscientização dos que compõem os “bastidores”, o banho maria continuará ESTAGNADO. 😣😢

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