Revolução Tecnológica Bancária

Gustavo Brigatto (Valor, 07/06/17) informa que o perfil do investimento e dos gastos em tecnologia dos bancos brasileiros mudou bastante nos últimos dois anos. Hoje, o desenvolvimento de novos sistemas (softwares) recebe mais recursos do que a compra de equipamentos (hardware). E essa mudança fica clara no Ciab (http://www.ciab.org.br), feira de tecnologia para o setor financeiro organizada pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), que é realizada em maio/junho em São Paulo.

Nos corredores do evento, fintechs (startups de tecnologia financeira) e a moeda virtual bitcoin viraram as grandes estrelas — no passado, os espaços ficavam repletos de fabricantes de caixa eletrônicos, cofres, servidores e outras máquina. Até o Google veio falar de como suas tecnologias podem ser usadas pelas instituições financeiras. O mundo hoje é mais software. A experiência do clientes é o que conta mais.

Isso não quer dizer que o hardware esteja esquecido. Nomes como a japonesa Oki e as brasileiras Perto e Saque e Pague apresentaram novidades interessantes, como um caixa que reúne todas as funções de uma agência, permitindo saques, depósitos e pagamentos inclusive com moedas. Se o cliente precisar de atendimento, isso pode ser feito por videoconferência. A novidade, da Saque e Pague, já está em uso pelo Banpará.

No campo do software, a palavra de ordem é o banco digital e as tecnologias que têm como objetivo ajudar os bancos a se adaptar ao novo mundo trazido pela internet e os aplicativos. A transformação digital não é apenas uma moda, mas um processo mais profundo, que exige mudanças de processos e vai muito além de criar um aplicativo. Não dá mais pra tratar os clientes divididos por segmento, é preciso contextualizar e individualizar o atendimento. E para isso é preciso ir pra fora dos muros da empresa, usar dados de outras fontes, como redes sociais.

Em um dos estandes mais badalados do Ciab ontem, o Bradesco apresentou o Next, uma conta digital controlada por um aplicativo que tem integração com serviços on-line como Uber e iFood. A ideia é ser um hub para a vida digital do cliente.

A nova marca, que tem como alvo um público que não se sente atendido pelos bancos tradicionais — pessoas nascidas nos anos 80, os millennials, que representam um terço da população brasileira hoje — vai trabalhar muito forte com sistemas e inteligência artificial e terá um ciclo mensal de lançamentos bem mais acelerado que o ritmo tradicional de um banco: mensal para atualizações menores e trimestral para grandes avanços.

A ideia é que o ritmo e as novidades criadas para o Next sejam incorporados também no Bradesco. Essa foi uma das condições apresentadas pelo Conselho de Administração para aprovar o projeto. Não foi feito um plano de negócios para a criação do Next. É difícil prever essas coisas no mundo digital. Os grandes sucessos tiveram planos que foram facilmente superados. E os fracassos erraram muito no que previram. A expectativa é que o Next seja um sucesso.

Os investimentos e gastos em tecnologia dos bancos brasileiros caíram pelo segundo ano consecutivo em 2016. O recuo de 3,12% foi menos acentuado que os quase 10% registrados entre 2014 e 2015, mas foi suficiente para levar o patamar de recursos aplicados na área para R$ 18,6 bilhões.

A redução dos orçamentos é uma consequência de um período de investimentos mais pesado das instituições entre 2012 e 2014. Nesse período, os bancos construíram e equiparam novos centros de dados para suportar suas operações. Só o Itaú investiu mais de R$ 3 bilhões em uma estrutura do tipo. O Santander colocou mais R$ 1 bilhão. A renovação dos computadores usados pelos funcionários dos bancos também elevou a conta.

A expectativa é que nos próximos anos o volume de recursos direcionados a tecnologia fique mais próximo do patamar atual do que do pico atingido em 2014, de R$ 21,3 bilhões. A não ser que algum banco resolva construir um novo centro de dados.

Na divisão dos recursos aplicados pelos bancos em 2016, 28,5% representaram investimentos, ou seja, a compra de tecnologias novas. O restante foi direcionado ao pagamento de despesas, ou seja, “manter as luzes acesas”.

Seguindo uma tendência iniciada no ano passado, a maior parte dos orçamentos dos bancos foi aplicada na compra de novos softwares: aumentou de 44% para 45%. Os equipamentos, que sempre representaram o grosso dos gastos das instituições, ficou estável, em 35%. Já a área de telecom apresentou uma leve queda, saindo de 20% para 19%. A queda nos preços de hardware e dos links de comunicação de dados foi citada como a razão para os desempenhos.

O aumento da participação do software é um movimento natural para o setor, que tem investido mais em aplicativos, sistemas de análise de dados e outros recursos, como o blockchain. De acordo com o levantamento, 65% dos bancos estudam a adoção da tecnologia de registro de transações digitais por trás da moeda virtual bitcoin. Já 47% estão investindo em sistemas de análise de dados e 24% em inteligência artificial por meio da chamada computação cognitiva.

Esse movimento faz parte da estratégia de digitalização dos bancos, que vem acontecendo nos últimos quatro anos. Nesse período, os chamados canais digitais – internet banking e dispositivos móveis – passaram de 45% para 57% do total de transações feitas no sistema bancários pelos brasileiros (veja acima). O destaque ficou com os aplicativos, que saíram de 4% para 34% no ano de 2016, assumindo o posto de principal meio de acesso dos brasileiros. Segundo a Febraban, foram 22 bilhões de transações em 2016, um crescimento de 96%. Ao todo, o volume de transações bancárias aumentou 16,7% em 2016, para 65 bilhões.

O avanço dos dispositivos móveis está relacionado:

  1. aos investimentos dos bancos para adicionar mais funcionalidades ao seus aplicativos,
  2. ao aumento na base de celulares e
  3. à percepção, por parte dos clientes, de que esse é um meio mais prático de ser usado, já que está sempre disponível.

Já há operações que são feitas preferencialmente nos dispositivos móveis, como o pagamento de contas.

Além do aumento no número de transações pelo celular, também houve um incremento na quantidade de operações com movimentação de dinheiro – pagamento de contas, transferências de dinheiro etc. O volume cresceu uma vez e meia em um ano, passando de 500 milhões para 1,2 bilhão, ritmo mais acelerado que o das operações não-financeiras – consultas a saldos e extratos – que praticamente dobraram, para 20,7 bilhões. Apesar de representar só 5% do total, o avanço das transações com movimentação financeira é um bom sinal para os bancos, pois ajuda a pagar os custos das transações realizadas nos aplicativos.

A avaliação de especialistas é que, apesar de terem um custo individual mais baixo que os de uma agência, ou de um call center, as transações por aplicativo têm um volume muito alto, o que aumenta o custo do canal.

2 thoughts on “Revolução Tecnológica Bancária

  1. Muito legal o estudo!
    Agora, já imaginou se os bancos “ouvissem” os seus clientes?
    Estes gráficos seriam bem diferentes…

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