Do protesto às urnas: O movimento homossexual na transição política (1978-1982)

Em 1982, pintando o mural acima, conheci o Herbert Daniel, “o último exilado”, que não foi anistiado pela ditadura militar por sua participação na luta armada. Ele nunca pegou em armas. Era um intelectual que apenas escreveu os Manifestos da VAR-Palmares e da VPR, assim como escrevemos, conjuntamente, a Plataforma Eleitoral de Liszt Vieira em 1982, primeira eleição com participação do Partido dos Trabalhadores. Conseguimos elegê-lo como Deputado Estadual do Rio de Janeiro!

Ele foi um grande amigo até sua morte por Aids. Dediquei post-mortem minha Tese de Livre Docência a ele. Infelizmente, seu companheiro desde a luta armada, Cláudio Mesquita, não teve tempo de recebê-la, pois teve um ataque cardíaco no dia da defesa. Lerei a dissertação abaixo com interesse, pois Daniel me contava as estórias do movimento homossexual na época.

O Jim — James Green, “o namorado da Dilma” 🙂 — está na reta final para a publicação do livro sobre a biografia de Herbert Daniel nos Estados Unidos.

James N. Green é Carlos Manuel de Céspedes Professor of Modern Latin American History, Distinguished Visiting Professor (Professor Amit), Hebrew University in Jerusalem, Research Fellow Watson Institute for International Studies, Brown University Director, Brown-Brazil Initiative.

PS: por falar na Dilma, leia sua entrevista exclusiva:
Dei entrevista sobre essa vivência para o autor da Dissertação abaixo, Rodrigo Cruz.

Prezadas e Prezados,


É com enorme satisfação e com alguma demora que agradeço a disponibilidade de cada um de vocês que, entre os anos de 2014 e 2015, concederam entrevistas, documentos e informações preciosas para a minha pesquisa de mestrado em Ciências Sociais sobre a relação entre o movimento homossexual brasileiro dos anos 1970 e 1980, as esquerdas e a política institucional
 
O referido trabalho do campo resultou na minha dissertação de mestrado, intitulada “Do protesto às urnas: O movimento homossexual na transição política (1978-1982)“, defendida em 14 de dezembro de 2015 na sede da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Guarulhos (SP), a qual foi aprovada pela banca examinadora, composta pelos professores Débora Alves Maciel (Unifesp, Orientadora), Júlio Assis Simões (USP) e Rafael De La Dehesa (College of Staten Island – The City University of New York). 

 
Orgulhosamente, no ano passado, o trabalho foi foi indicado pela Unifesp para representar o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da universidade no Concurso Brasileiro de Obras Científicas e Teses Universitárias em Ciências Sociais 2016 da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) na categoria melhor dissertação de mestrado.
 
Finalmente, com a publicação da versão final da dissertação na página da Unifesp em março deste ano (link aqui) e a publicação, no dia de hoje, de um artigo que sintetiza os principais achados da pesquisa na nova edição da  Revista Brasileira de Ciência Política (link aqui), tenho em mãos o material necessário para devolver a vocês, que tanto colaboraram para que este projeto tomasse forma, o resultado de quase dois anos e meio de trabalho ininterrupto. 
 
Sobre o resultado, é necessário explicar alguns pontos. Entre as idas e vindas que implicam a realização de um trabalho de mestrado, o projeto inicial passou por inúmeras transformações, especialmente após a banca de qualificação. Um dos pontos fundamentais nessa etapa foi a definição de uma periodização menor, que me permitisse escrever um trabalho mais curto, dentro do prazo exigido para um mestrado. 
 
Consequentemente, na reta final, optei por focar apenas no período que vai de 1978 a 1982, com uma breve passagem pelas décadas anteriores, de modo a introduzir o ambiente político que antecedeu o ciclo de protestos pela abertura política no Brasil. 
 
O problema de pesquisa também se deslocou da relação entre o movimento e os grupos de esquerda para a relação entre o movimento e a política institucional, e sobre como os vínculos com os grupos de esquerda, estabelecidos ao longo do processo de abertura, permitiram que ativistas gays e lésbicas acessassem a arena política institucional. Nesse sentido, o meu ponto chegada foram as eleições de 1982 e as campanhas eleitorais que apoiaram a causa homossexual.
 
Com isso, muito do que pretendia abordar (por exemplo, os mandatos aliados da causa gay e lésbica em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro após 1982 e as eleições de 1986) ficaram para trás, muito embora eu tenha recolhido materiais importantes a respeito desses tópicos. Felizmente, quase todas as entrevistas realizadas foram (muito) bem aproveitadas e se mostraram fundamentais para o trabalho final, cada uma à sua maneira, motivo pelo qual eu agradeço, mais uma vez, a colaboração de cada um de vocês.
 
Enquanto sociólogo, acredito que a pesquisa científica na área de humanidades não se valida somente através dos mecanismos de avaliação estabelecidos pela comunidade científica, mas também por meio do retorno que é dado à sociedade daquilo que se produz no espaço da universidade pública. Nesse sentido, oferecer esse retorno a cada um de vocês significa uma etapa importante desse processo. Pretendo, dessa forma, ratificar tanto o meu compromisso com os princípios éticos que devem sustentar o trabalho do sociólogo quanto com o caráter público e aberto das nossas universidades federais.
 
Sem mais, me coloco à disposição para receber os vossos comentários, críticas e sugestões. Desejo a todas e a todos uma boa leitura.
 
Com os melhores cumprimentos,

Rodrigo Cruz

Leia trecho do artigo:

Por uma vida alternativa” (Liszt Vieira)

No Rio de Janeiro, a campanha para deputado estadual do advogado Liszt
Vieira também apostou na abordagem contracultural. Depois de quase dez
anos exilado na França, onde entrou em contato com as ideias
libertárias do maio de 1968 (Vieira, 2008), Liszt retornou ao Brasil
em 1978, após a promulgação da Lei da Anistia. Engajou-se na fundação
do PT no Rio de Janeiro em 1980 e, com o apoio de um núcleo de amigos
também filiados ao partido, tornou-se candidato a deputado estadual
nas eleições de 1982 (informação verbal).26

O comitê de campanha era composto, em sua maioria, por funcionários públicos de empresas estatais, que representavam grande parte da base do PT carioca. Diferentemente do PT paulista, que possuía ampla base operária, o partido no Rio de Janeiro contava com um peso significativo da classe média empregada no serviço público, dado que empresas estatais importantes, como a Petrobras e a Telebras, tinham a capital fluminense como sede (informação verbal).27

Entre os membros do comitê também figuravam outros ex-exilados que haviam participado ou colaborado com a luta armada, entre os quais o economista Carlos Minc, o jornalista e escritor Herbert Daniel, que havia integrado com Liszt a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var-Palmares), e o ilustrador Cláudio Mesquita, companheiro de Herbert.

Os membros do comitê compartilhavam com Liszt os ideais socialistas e libertários trazidos do exílio (Costa, 2011). Criticavam os partidos de inspiração estalinista e defendiam a construção de um socialismo democrático, no qual a fonte das mudanças sociais não fosse apenas a transformação das relações de produção, mas também das relações sociais entre os homens e dos homens com a natureza.

 A luta ecológica tinha um papel central no programa do candidato, servindo como pano de fundo conceitual para ilustrar outras bandeiras, como feminismo, combate ao racismo, liberdade sexual, descriminalização da maconha, direito à cidade e participação popular (informação verbal).28

O tema e o lema escolhidos para estampar os materiais do candidato foram, respectivamente, “Por uma vida alternativa” e “Um novo dia se levanta de um cotidiano triste”.  A ideia era fazer uma campanha alegre, que dialogasse com o clima de expectativa gerado pela abertura política, com a novidade representada pela fundação do PT e com os anseios libertários da juventude dos anos 1970 e 1980. Daí a ideia de “um novo dia” que nasce de “um cotidiano triste” de repressão, desigualdades e restrições às liberdades individuais.

Devido à preferência da campanha pela abordagem de temas considerados
“alternativos” dentro do PT, os membros do comitê de Liszt receberam
dos colegas de partido o apelido de “veados verdes”. A reação tinha
muito de resposta à grande repercussão alcançada pela campanha, que,
apesar de se concentrar basicamente nos bairros da Zona Sul da cidade,
aos poucos se tornou uma das candidaturas mais populares do partido no
Rio de Janeiro.

A ampla difusão foi garantida por meio de panfletagens nas portas de universidades localizadas em várias regiões da cidade. A estratégia tinha como objetivo atingir outros públicos além de jovens, intelectuais, trabalhadores de classe média e “moderninhos” da Zona Sul. Como os estudantes universitários residiam em diversas regiões do Rio de Janeiro, os materiais de campanha acabavam chegando aos bairros periféricos, alcançando vizinhos e familiares dos estudantes (informação verbal).29

Para arrecadar fundos, o comitê de campanha realizou festas temáticas que homenageavam eventos e movimentos sociais característicos da da contracultura, como os protestos de 1968, o feminismo e o ativismo antinuclear (informação verbal).30Às vésperas das eleições, um show de travestis, intitulado “Madame Satã pede bis”, foi encenado em apoio à campanha na Boate Casanova, na Lapa, em parceria com duas candidaturas que faziam dobradinha com Liszt: a de Lélia Gonzalez para deputada federal e a de Josafá Magalhães para vereador.

Como se não bastassem as festas, as atividades de rua também tinham clima de folia. As passeatas com a participação do candidato eram frequentemente confundidas por transeuntes com bloquinhos de carnaval. As panfletagens nas praias da Zona Sul chamavam a atenção dos banhistas, dada a animação e o colorido dos cartazes. Liszt e seus aliados rejeitavam a ideia do fazer político como uma atividade enfadonha ou sacrificante. Defendiam que militância deveria ser uma atividade alegre, prazerosa, capaz de envolver as pessoas comuns e de atrair novos adeptos para a luta política. Chamavam isso de “luta e prazer” (informação verbal).31

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