Para onde foram as vagas da indústria?

J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário-assistente do Departamento de Tesouro dos EUA, é professor de economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA. Publicou artigo (Valor, 04/05/17) se perguntando: para onde foram as vagas da indústria?

“Nas duas décadas entre 1979 e 1999, o número de postos de trabalho na indústria de transformação dos Estados Unidos recuou de 19 milhões para 17 milhões. Mas nos dez anos seguintes, entre 1999 e 2009, o número despencou para 12 milhões. Essa queda mais drástica originou a ideia de que a economia americana teria deixado, repentinamente, de funcionar – pelo menos para operários do sexo masculino – na virada do século.

Mas é equivocado sugerir que tudo estava bem na indústria antes de 1999. Os empregos industriais vinham sendo fechados naquelas décadas iniciais também. Mas os empregos perdidos em uma região e em um setor eram, geralmente, substituídos – em termos absolutos, se não como parcela da população economicamente ativa – por novos empregos em outra região ou setor.

Consideremos a carreira do meu avô, William Walcott Lord, nascido na Nova Inglaterra no começo do século XX. Em 1933, sua Lord Brothers Shoe Company, instalada em Brockton, Massachusetts, se defrontou com a falência iminente. Diante disso, ele mudou suas operações para South Paris, em Maine, onde os salários eram mais baixos.

Os trabalhadores da Brockton ficaram arrasados com a mudança e o fechamento de empregos de fábrica, de salários relativamente elevados, em todo o sul da Nova Inglaterra. Mas, na estatística agregada, sua perda foi neutralizada pelo período de prosperidade usufruído pelos trabalhadores rurais de South Paris, que deixaram o trabalho árduo na agricultura quase de subsistência em favor de um emprego aparentemente estável em uma fábrica de sapatos.

A boa sorte dos trabalhadores de South Paris durou 14 anos. Após a Segunda Guerra Mundial, temendo uma possível volta da depressão os irmãos Lord liquidaram a empresa e se separaram. Um dos três irmãos se mudou para York, Maine; outro, para Boston. Meu avô foi para Lakeland, na Flórida – a meia distância entre a Baía de Tampa e Orlando -, onde especulou com imóveis e enveredou pela construção civil não residencial.

Mais uma vez, os dados estatísticos agregados não mudaram muito. Havia menos trabalhadores produzindo botas e sapatos, mas mais trabalhadores fabricando produtos químicos, construindo edificações e operando as unidades de processamento de fosfato da Wellman-Lord Construction Company na Flórida. Em termos de nível de emprego doméstico, a Wellman-Lord Construction Company teve o mesmo impacto líquido sobre os fatores de produção que a Lord Brothers em Brockton. Os trabalhadores eram pessoas diferentes em lugares diferentes, mas seus graus de instrução e de treinamento eram iguais.

Assim, durante a suposta estabilidade do período pós-guerra, os empregos na indústria manufatureira mudaram em massa do Nordeste e do Meio-Oeste dos EUA para o Cinturão do Sol, no Sul e Sudoeste. Esses fechamentos de postos de trabalho foram tão dolorosos na época para os habitantes da Nova Inglaterra e os do Meio-Oeste americano quanto são os empregos eliminados recentemente para os trabalhadores de hoje.

Durante a década de 2000, os empregos industriais americanos mudaram de lugar ou de setor, mais do que fecharam. Até 2006, o número de vagas na indústria de transformação diminuiu, enquanto o de vagas na construção civil aumentou. E em 2006 e 2007 as perdas de vagas na construção civil residencial foram neutralizadas pelo aumento dos empregos na área de produção que respaldavam os investimentos das empresas e as exportações. Foi apenas depois da Grande Recessão pós-2008 que os postos de trabalho na produção começaram a fechar mais do que mudar de lugar ou setor.

Pelo fato de sempre haver algum grau de mudança, tem-se uma perspectiva mais precisa do que aconteceu examinando os empregos voltados para a produção como parcela do total de empregos, em vez de se concentrar no número absoluto de trabalhadores da indústria de transformação em algum período determinado. De fato, houve uma queda de longo prazo extremamente significativa e forte na parcela ocupada pelos empregos industriais entre a Segunda Guerra Mundial e agora. Isso demonstra a falsidade do conceito corrente de que a indústria permaneceu estável por muito tempo, para entrar de repente em colapso quando a China começou a ganhar terreno.

Em 1943, 38% da população economicamente ativa não rural estava na indústria de transformação, devido à elevada demanda por bombas e tanques na época. Depois da guerra, a participação normal dos trabalhadores não rurais foi de cerca de 30%.

Se os EUA tivessem sido uma potência industrial normal do pós-guerra, como a Alemanha ou o Japão, a inovação tecnológica teria rebaixado essa participação de 30% para cerca de 12%. Em vez disso, ela caiu para 8,6%. Boa parte dessa retração, até o nível de 9,2%, pode ser atribuída às políticas macroeconômicas disfuncionais, que, desde o governo Ronald Reagan, transformaram os EUA em um país deficitário em poupança, e não em um país superavitário.

Como país rico, os EUA deveriam financiar a industrialização e o desenvolvimento em todo o mundo, para que os países emergentes pudessem comprar bens de produção exportados pelos EUA. Em vez disso, os EUA assumiram papéis improdutivos, tornando-se um centro mundial de lavagem de dinheiro, de seguros de risco político e detentor de dinheiro emergencial. Para os países em desenvolvimento, grandes ativos em dólar significam nunca ter de pedir uma tábua de salvação ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

O restante da queda da participação das vagas industriais, de 9,2%, para 8,6%, deriva da mudança de comportamento do comércio exterior, devido, principalmente, à ascensão da China. O Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, nas iniciais em inglês), ao contrário do que afirmou o presidente Donald Trump, não contribuiu praticamente em nada para o nível de emprego industrial. Na verdade, todos esses “acordos comerciais ruins” ajudaram outros setores da economia americana a fazer avanços significativos; e, com o crescimento desses setores, a participação dos empregos industriais caiu apenas 0,1%.

Nesta Era de Notícias Falsas, movimentos sociais forjados, normalmente financiados por empresas ou entidades governamentais para influenciar a opinião pública, e relatos enganosos da vida real, é imperativo para qualquer pessoa que dá importância ao nosso futuro coletivo corrigir os números e difundir os números certos na esfera pública.

Como disse o primeiro presidente do Partido Republicano, Abraham Lincoln, em seu discurso da “Casa Dividida“: “Se desde o primeiro momento conseguirmos determinar onde nos encontramos e para onde nos dirigimos, poderemos julgar melhor o que temos de fazer e como fazê-lo“.

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