Lucros X Salários ou Produtividade X Desindustrialização?

Thiago de Moraes Moreira é economista da Petrobras e professor de Macroeconomia do Corecon/RJ. Publicou artigo (Valor, 25/04/17) sobre “desindustrialização“. Compartilho-o abaixo.

“Múltiplos esforços têm sido despendidos pelos economistas no sentido de entender as causas fundamentais que jogaram a economia brasileira na brutal recessão econômica de 2015/16. Gostaria de trazer à tona um dos tópicos recorrentes nos fóruns de discussão e que diz respeito ao encolhimento nas margens de lucros dos empresários brasileiros. Este movimento é considerado por muitos como uma das motivações centrais da crise, na medida em que impôs uma forte restrição financeira às empresas, levando a aumentos dos níveis de endividamento e forte queda dos investimentos.

Tais análises costumam destacar que a redução nos lucros teve como principal justificativa a trajetória persistente de incrementos salariais em ritmo superior à evolução da produtividade do trabalho, o que elevou de forma expressiva o custo do trabalho. Esta dinâmica seria, em grande medida, reflexo da política de valorização do salário mínimo dos governos petistas, iniciada no segundo governo Lula, aprofundada a partir de 2009 como parte das medidas anticíclicas no combate à crise financeira internacional e mantida no governo Dilma.

Os dados setoriais da Contas Nacionais mostram que o descompasso mais importante entre o crescimento dos salários e da produtividade ocorreu na indústria de transformação. O salário médio por trabalhador ocupado nesta indústria (em valores nominais) saiu de R$ 20,8 mil/ano em 2009 para R$ 32,4 mil/ano em 2014, uma expansão média de 9,3% ao ano. Já a produtividade média deste mesmo trabalhador neste período, saiu de R$ 39,8 mil/ano para R$ 50,1 mil/ano, crescimento médio anual de 4,7%, ou seja, quase 2 vezes inferior à variação dos salários.

Essa mesma base de dados setoriais propicia análises interessantes e que nos ajudam a entender o que, de fato, houve com a produtividade da indústria de transformação.

Uma delas se baseia na decomposição do total do valor da produção da indústria de transformação em três partes básicas:

1- os gastos dos produtores com todos os insumos (bens e serviços) demandados, o chamado consumo intermediário,

2- os gastos com os salários pagos aos trabalhadores e demais encargos trabalhistas (FGTS, Previdência Social, etc) e, finalmente,

3- os lucros auferidos antes do pagamento dos impostos, juros e da distribuição de dividendos aos acionistas.

Dessa forma, pode-se definir um tipo de “margem de lucro” (lucro/valor da produção) da indústria de transformação calculada a partir das deduções das participações relativas do consumo intermediário e dos salários no valor da produção.

Na série de dados setoriais disponíveis (2000 a 2014), verifica-se uma relativa estabilidade neste indicador da indústria de transformação até 2010, momento a partir do qual há quedas mais expressivas (gráfico acima). Da redução de 4,1 pontos percentuais entre 2009 e 2014, chama atenção que apenas 25% (1 ponto percentual) se deveu à expansão da parcela relativa dos salários e 75% (3,1 pontos percentuais) à expansão da parcela referente ao consumo intermediário.

Os resultados, portanto, evidenciam que o encolhimento das margens de lucro do núcleo da atividade industrial foi muito mais motivado pelo aumento do consumo intermediário do que pela expansão dos custos salariais.

Os dados desagregados do consumo intermediário da indústria de transformação indicam que os custos mais relevantes e apresentaram maior crescimento, sobretudo após 2009, pertencem ao setor de serviços tradicionais, com destaque para aqueles associados ao comércio, transporte e os chamados serviços prestados às empresas, nos quais predominam os gastos com atividades administrativas, segurança, limpeza, jurídicas e contábeis e de publicidade.

É verdade que os custos destes serviços também foram expandidos como reflexo da referida política salarial do PT, uma vez que nestes segmentos encontra-se parte expressiva de trabalhadores terceirizados cujos salários são diretamente impactados pelo salário mínimo. A despeito do aumento nos custos salariais, os indicadores de lucratividade destas empresas prestadoras destes serviços apresentaram comportamento distinto da indústria.

Entre 2009 e 2014, a relação lucro/valor da produção dos serviços prestados às empresas passou de 30,2% para 31,8%. No setor de transporte, aumentou de 16,2% para 20,7%. Apenas no comércio houve uma ligeira queda nesta razão, de 35% para 33%, porém bem aquém da retração verificada na indústria de transformação, mantendo-se ainda em patamares relativamente elevados.

Em suma, mais relevante que o conflito distributivo entre lucros e salários foram as mudanças na estrutura produtiva, a partir das quais a indústria de transformação como um todo (empresários e trabalhadores) foi enfraquecida, enquanto os serviços tradicionais avançaram.

O processo de enfraquecimento da indústria esteve diretamente associado à maior penetração das importações, que, por sua vez, favoreceu ainda mais o crescimento dos serviços tradicionais, em particular do comércio e transporte. A substituição de bens industriais nacionais por importados criou diversas oportunidades de negócios para empresas comercializadoras e transportadoras dos produtos estrangeiros.

A manutenção da taxa de câmbio em patamares valorizados de 2005 a 2014 foi, sem dúvida, elemento chave nesta dinâmica, aumentando o poder de compra da moeda brasileira e a atratividade dos produtos estrangeiros, além de conter os preços dos bens industriais de origem nacional.

Em suma, a raiz da explicação da queda na lucratividade da indústria não está fundamentalmente no aumento dos salários, mas principalmente nas transformações estruturais da economia brasileira associadas a um processo precoce de desindustrialização. A experiência brasileira mostra que um modelo de crescimento puxado pelos serviços tradicionais não é sustentável.

A retomada de uma trajetória mais consistente de crescimento passa pelo desenvolvimento de setores industriais de elevada produtividade, que, ao reduzir o consumo intermediário a cada R$ 1 produzido, sejam capazes de propiciar, simultaneamente, aumentos nas parcelas destinadas aos salários e aos lucros. Este fenômeno vem sendo observado no setor industrial das economias avançadas, assunto que ficará para um próximo artigo.”

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