Substituição de Jornalista por Robô

Lucy Kellaway (FT, 29/05/17) comenta que, recentemente, o “Financial Times” transferiu parte de suas funções para um robô. Há anos ela vinha fazendo versões em podcast de suas colunas, mas agora está enfrentando uma concorrência dura na forma da “Experimental Amy“. Compartilho seu depoimento abaixo.

“Ela é muito mais barata do que eu, aprende rápido e sempre faz com precisão as tarefas que lhe são conferidas. O lado ruim, ouso dizer, é que ela é uma colega menos sociável do que eu – mas não dá para se ter tudo.

Ser substituído por um robô é o pior pesadelo de todo trabalhador e, quando descobri que ela estava ciscando no meu terreiro, logicamente fiquei aflita. Mesmo assim, depois que superei o ultraje e me pus a prestar atenção em seu trabalho, comecei a me sentir melhor.

Sei que ela está no começo, mas no momento Amy não é páreo para mim. De acordo com minha visão tendenciosa, ela é absolutamente inútil. Se você não acredita em mim, vá até a página do “FT” na internet e ouça as duas versões. Para ser justa, Amy tem algumas coisas a seu favor. Para começar, ela tem uma voz maravilhosa.

Quando comecei a gravar minhas colunas, uma década atrás, um ouvinte escreveu para reclamar que minha voz “anasalada e fanhosa” o levou a parar de ouvir o podcast. Por outro lado, a voz de Amy tem indiscutivelmente um timbre de voz mais grave e macio como veludo.

Sua segunda vantagem é que ela é praticamente gratuita. Faz parte de um novo serviço da Amazon que transforma texto em palavras e que custa quase nada — pelo menos em comparação ao que o “Financial Times” me paga.

Ainda mais impressionante é sua velocidade. Menos de dois segundos após receber meu texto por escrito, ela já tem uma versão falada dele. O que significa que no momento em que limpo minha garganta para começar a ler algo como “Recentemente, o Finan…”, ela já terminou.

No caso dela, não há nenhuma perturbação envolvida e ela faz o trabalho sozinha. Por outro lado, minha gravação envolve um produtor, o uso de um estúdio, a necessidade de duas pessoas trocando e-mails para confirmar uma hora mutuamente conveniente e, então, algumas brincadeiras quando nos encontramos. Ela envolve o ajuste dos equipamentos e depois a edição do clipe para eliminar todos os meus tropeços. Consome meia hora do tempo do produtor e cerca de 15 minutos do meu.

Isso seria decisivo se o que Amy produz fosse no mínimo decente — mas não é. Ela insiste em fazer pausas nos momentos errados. Pronuncia palavras juntas quando elas deveriam estar separadas e sua compreensão da sintaxe é falha.

Ouvi-la não é como ouvir uma pessoa que não é inglesa lendo em voz alta, e sim alguém sem cérebro ou coração, ou mesmo senso de humor. Na verdade, ela é tão ruim que nem eu entendo a coluna quando ela a lê — o que quer dizer alguma coisa, já que fui eu que a escrevi.

Só que Amy aprende rápido. Dois anos atrás, os robôs de voz soavam como Stephen Hawking. Todos os dias, os algoritmos de aprendizagem de Amy a ajudam a melhorar. Seu “timing” esquisito será solucionado. Sua entonação vai melhorar e ela será capaz de simular emoções e contar algumas piadas.

Amy jamais conseguirá ler com entendimento. Amy nunca saberá quando fazer uma pausa e quando zombar de algo. Amy nunca será irônica. Ela continuará errando.

Mas ela não está sozinha. Também cometo erros quando leio. Às vezes faço ruídos, leio rápido demais ou sou enfática demais. Mas acho que os ouvintes não tratam nossas falhas da mesma maneira.

Quando um humano erra, a audiência é compreensiva. Com muita frequência, um erro nos aproxima mais da pessoa que o cometeu. Mas quando um robô comete um erro, não demonstramos nenhuma simpatia e muito provavelmente perderemos a confiança no que ele está fazendo. No fim, não tenho ressentimentos de Amy porque ela está prestes a roubar meu emprego.

Mas não gosto dela por causa da maneira como ela lê minhas colunas, que são transformadas nas coisas mais medonhas e impenetráveis já escritas. Amy poderá fazer um bom trabalho lendo projeções de remessas ou os resultados do futebol. Muito em breve ela será boa o suficiente para ler qualquer coisa previsível. Mas esse é o ponto em relação a uma coluna decente. Se ela for previsível, não será boa o suficiente.”

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