Certificação CFP de Planejadores Financeiros X Algoritmos

As pessoas deveriam cuidar das Finanças Pessoais da mesma forma que cuidam da saúde. Assim como fazem checkups regulares e consultam profissionais quando se sentem fisicamente debilitados de alguma forma, caso não tivessem Educação Financeira, o planejamento das suas economias e investimentos também deveria ficar aos cuidados de um profissional — ainda mais durante um período de maior instabilidade global e local, onde um mal-amado insiste em se salvar usurpando um cargo-maior…

Letícia Arcoverde (Valor, 29/06/17) informa que a competência desse profissional que a Financial Planning Standards Board (FPSB), associação global de planejadores financeiros, se propõe a assegurar com a certificação CFP, oferecida pela FPSB em 26 países, entre eles o Brasil, onde o exame é concedido pela Planejar, a Associação Brasileira de Planejadores Financeiros.

Hoje com mais de 170 mil profissionais certificados espalhados pelo mundo, a maioria na América do Norte e Ásia, a organização quer chegar a 250 mil CFPs em 40 territórios até 2025. No ano passado, cerca de 18 mil completaram o programa.

O plano inclui alguns dos novos desafios da profissão. Há a necessidade de aumentar a diversidade entre os planejadores certificados, as preocupações globais na hora de planejar finanças, e o surgimento de aplicativos e algoritmos que prometem serviços cada vez mais similares aos vendidos por animais humanos. No Brasil, o maior ponto ainda é a consolidação da profissão como opção de carreira e de serviço.

A certificação demonstra que a pessoa tem o conhecimento e habilidades para aconselhar pessoas em seus assuntos financeiros, o que inclui finanças gerais, investimentos, seguros, impostos, remuneração e benefícios e planejamento dos bens imobiliários e da aposentadoria.

O perfil dos profissionais, no entanto, varia de país a país, para qual o programa de estudo também é adaptado. Nos EUA, onde a certificação foi criada na década de 70 e o mercado é mais maduro, metade dos planejadores atuam de forma independente, como autônomos ou em suas próprias empresas da área. Os demais se espalham no mercado financeiro, em bancos, seguradoras e outras instituições.

No Brasil, onde há hoje 3.150 profissionais com a CFP, a Planejar estima que 70% estejam no setor financeiro, e boa parte deles atuando em private banking. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) determinou, até o fim do ano passado, ter 75% dos profissionais associados certificados. Os outros 30% dos brasileiros se dividem entre advogados, professores e planejadores atuando como autônomos ou em family offices de gestão de patrimônio.

Como resultado, os planejadores brasileiros são mais jovens que os americanos, onde cerca de 80% são homens e o perfil mais comum está na faixa dos 50 anos, muitas vezes na segunda carreira. Aqui, 65% dos certificados são homens, o que coloca o país perto da média global, e a idade média é 35 anos.

O objetivo nos EUA é alcançar mais pessoas em seus 20 ou 30 anos. Profissionais mais jovens podem ter uma base de clientes mais jovem também.

Na China, terceiro país em número de profissionais certificados, atrás dos EUA e Japão, a profissão é dominada por mulheres na faixa dos 30.

No Brasil, apesar do número de mulheres ser relativamente elevado na comparação com o resto do mercado financeiro, a falta de diversidade aparece mais ao se observar a participação de negros na profissão, que ainda são uma pequena minoria.

A vontade de aumentar a diversidade, seja de gênero, raça, idade ou mesmo área de atuação, entre os que escolhem a profissão é considerada necessária por causa do perfil de trabalho, bastante relacional. Seus clientes, no geral, se parecem consigo mesmo. É um negócio tão baseado em relacionamentos e confiança com o cliente, que exige certo nível de valores compartilhados.

Mulheres fazem parte da iniciativa da associação americana para aumentar a diversidade, que começou recentemente uma campanha nas mídias sociais com esse intuito. É bom que não haja um só perfil de planejador, porque não há um só perfil de cliente.

No Brasil, não há formação acadêmica dedicada à profissão, como nos EUA, o que contribui para que ela ainda seja pouco difundida. A conscientização sobre o que é a profissão é o principal desafio. Além de cursos preparatórios para o exame de certificação e da exigência de obter educação continuada a cada dois anos, a associação brasileira participa de eventos como a Semana de Educação Financeira, onde mais de cem voluntários atenderam a população em “clínicas” de saúde financeira.

Ela também possui um grupo de 12 “embaixadores” que se comprometem a difundir o ofício entre o público brasileiro. Haverá mudanças como uma possível reforma da previdência, pois a necessidade de reservas financeiras aumentará o interesse da população do país em começar a pensar no futuro financeiro mais cedo.

Convencer clientes da necessidade de ter um planejador financeiro sempre foi um desafio da profissão, que se torna ainda mais crítico em um setor sendo sacudido pelas fintechs. Hoje há, por exemplo, aplicativos que prometem a usuários descobrirem os tipos de investimentos ideais para seu perfil.

A digitalização das finanças incentivou a FPSB a aumentar o foco nas soft skills no programa de certificação, incluindo, por exemplo, simulações em que o profissional pode sentir a relação com o cliente. Para entrar na profissão, o conhecimento técnico sempre foi essencial. Mas é a capacidade de resolver problemas, a curiosidade e a empatia que te colocam na frente.

A tecnologia também pode auxiliar o trabalho dos planejadores financeiros. Aquelas pessoas que só oferecem construção de portfólio terão mais dificuldade, porque nesse caso o robô é imbatível. A oportunidade está quando o nível de complexidade aumenta, que é quando as pessoas querem se voltar para os animais humanos. Programas podem facilitar o trabalho de fazer simulações de investimento e cálculos em tempo real, permitindo que o planejador passe mais tempo com clientes.

A instabilidade global política e econômica também deve dar força para a profissão. A volatilidade cria oportunidades para o público pensar no cuidado com Finanças Pessoais de um jeito novo.

A FPSB está incluindo conteúdo e questões mais globais no exame de certificação, também para facilitar a mobilidade de planejadores entre mercados. Não dá mais para ser um grupo como foco nacional. O que está acontecendo no Brasil, por exemplo, vai impactar consumidores na China.

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