Desindustrialização segundo a Contracorrente dos Economistas

Um segundo grupo de autores foi destacado no artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil de coautoria de Célio Hiratuka e Fernando Sarti, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, a partir de uma visão que se afasta do mainstream e adota uma visão kaldoriana do crescimento e da especialização produtiva. Para este grupo, o crescimento industrial deveria ser privilegiado, uma vez que é caracterizado por envolver economias estáticas e dinâmicas de escala, concentrar o progresso técnico, apresentar maiores efeitos de encadeamentos sobre os setores a montante e a jusante e apresentar maiores elasticidade-renda da demanda.

No entanto, uma vez destacados estes aspectos para justificar a importância da indústria, os autores desta linha focam a análise principalmente nas variáveis macroeconômicas, em especial na taxa de câmbio como elemento fundamental para promover uma estrutura industrial competitiva. Dentro desta corrente, destacam-se os autores denominados novo-desenvolvimentistas.

O argumento principal destes autores, onde se destacam Bresser-Pereira e Marconi (2008), Bresser-Pereira (2012) e Oreiro e Feijó (2010), é que, em razão da disponibilidade de recursos, países em desenvolvimento acabam tendo vantagens ricardianas, que somadas à entrada de capitais ou às políticas cambiais populistas, voltadas para manter os salários reais artificialmente elevados, inviabilizariam a existência de indústrias competitivas que utilizam tecnologias no estado da arte mundial.

A doença holandesa seria caraterizada por uma situação onde haveria uma diferença entre a taxa de câmbio de equilíbrio corrente e a taxa de câmbio de equilíbrio industrial. A “gravidade” da doença holandesa, por sua vez, seria definida pela diferença entre as duas taxas.

De acordo com Bresser-Pereira (2012), a taxa de câmbio estaria no centro da discussão sobre o desenvolvimento industrial, pois funcionaria como uma espécie de interruptor que “ligaria” ou “desligaria” as empresas tecnológicas e administrativamente competentes à demanda mundial. Cabe chamar a atenção aqui para a importância dada à demanda externa, tanto como vetor de dinamismo, mas também como critério de eficiência que deveria balizar as decisões e os instrumentos de política industrial.

De acordo com o autor, “no modelo exportador, os países em desenvolvimento têm a possibilidade de usar duas grandes vantagens – mão de obra barata e possibilidade de comprar ou copiar tecnologia disponível. Por sua vez, se o país adota essa estratégia, as autoridades econômicas, que estão fazendo política industrial em favor de suas empresas, passam a ter um critério de eficiência em que se basear: só as empresas eficientes o bastante para exportar serão beneficiadas pela política industrial” (Bresser-Pereira, 2012, p. 19).

Já de acordo com Gala e Libânio (2011), a apreciação da taxa de câmbio teria influência negativa na determinação dos mark-ups dos setores comercializáveis e poderia levar a uma redução dos investimentos destes setores vis-à-vis os setores não comercializáveis. O resultado de uma taxa de câmbio apreciada por um longo período seria a redução da produtividade geral da economia, uma vez que ficaria inviabilizado o aumento da produtividade geral através da transferência de recursos para os setores de maior produtividade.

Em termos empíricos, o trabalho de Veríssimo e Xavier (2013), a partir de um modelo de Vetores Autorregressivos e Análise de Decomposição de Variância, apontou para uma influência importante da variação das exportações de commodities sobre a taxa de câmbio real e que estas duas variáveis, juntamente com o preço das commodities, exercem alguma influência sobre o crescimento do PIB.

Interessante observar que as duas correntes anteriores em geral destacam mais os aspectos macroeconômicos que afetam o processo de desenvolvimento industrial. De certa maneira, é possível dizer que o debate sobre a indústria nesse caso estaria “a serviço” de um debate que, em última instância, estaria relacionado ao debate macroeconômico.

Este é um aspecto que diferencia os dois primeiros grupos do terceiro, que justamente voltam seu foco para aspectos mais específicos da própria indústria, inclusive dando mais ênfase à evolução que ocorre no interior da indústria e entre seus diferentes setores.

Este terceiro grupo, em grande medida compartilha das mesmas ideias kaldorianas para justificar a importância da atividade industrial, porém acrescenta elementos estruturalistas e neoschumpeterianos na análise, na medida em que dão importância destacada à evolução do perfil setorial dentro da indústria. Parte-se do reconhecimento de que existem padrões setoriais de mudança técnica, que, por sua vez, dependem não apenas da base técnica, mas também das formas de aprendizado e dos diferentes graus de cumulatividade e apropriação das trajetórias tecnológicas. Estas características se traduzem, nos estudos empíricos, em diferentes taxonomias que buscam associar padrões de mudança técnica e inovação, a partir, por exemplo, dos trabalhos de Pavitt (1984).

Entre estes trabalhos podem ser destacados IED I (2007), Nassif (2008), Nassif et al. (2012), Squef (2012) e Morceiro (2012). O trabalho do IEDI destaca a redução da relação entre Valor da Transformação Industrial o Valor Bruto da Produção em grande parte dos setores industriais entre 1996 e 2006 para destacar as dificuldades da indústria no período. Por exemplo, o trabalho de Torres e Da Silva (2012) faz uma análise crítica do indicador VTI/PIB como indicador de agregação de valor, em razão da influência da taxa de câmbio sobre o indicador e da dificuldade de comparação consistente entre diferentes setores.

Apesar disso, o estudo aponta uma certa estabilidade na participação dos diferentes grupos de setores classificados por intensidade tecnológica. Da mesma maneira, Nassif (2008) assinalou um perfil de mudança estrutural entre 1991 e 2005 marcado pela manutenção da participação dos setores industriais intensivos em escala e baseados em ciência, embora os setores intensivos em recursos naturais tenham elevado sua participação em detrimento dos setores intensivos em trabalho. Não haveria, portanto, sinais inequívocos de desindustrialização.

No mesmo sentido, o trabalho de Squef (2012) aponta sinais contraditórios de acordo como o indicador utilizado para mensurar o processo de desindustrialização e de acordo com as fontes de informações. A partir de informações desagregadas setorialmente das Contas Nacionais, da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF), e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho, e observando dados para a produção, emprego e produtividade por intensidade tecnológica, o autor afirma não ser possível concluir pela desindustrialização.

O trabalho de Nassif et al. (2012) utiliza a base de dados PADI (Programa de Análise de Dinâmica Industrial) da CEPAL para avaliar o movimento da indústria brasileira em período mais longo, cobrindo o período 1970-2008. Em relação aos dados de estrutura industrial observa-se uma tendência de aumento do peso dos setores baseados em ciência e engenharia dentro do valor adicionado total da indústria em detrimento dos setores intensivos em mão de obra.

Apesar disso, os autores ressaltam que podem ser encontradas evidências de que o Brasil estaria entrando em um processo de desindustrialização precoce em razão do estancamento absoluto da produtividade a partir do final dos anos 1990 por:

  1. o distanciamento relativo em relação à produtividade dos Estados Unidos a partir do mesmo período,
  2. o aumento do déficit comercial de setores intensivos em tecnologia e
  3. o aumento da elasticidade-renda das importações em ritmo superior ao das exportações.

O trabalho de Morceiro (2012), além de realizar um amplo levantamento dos indicadores de desindustrialização, apresenta avanços em relação aos anteriores por trabalhar com novos indicadores para avaliar a capacidade de geração de encadeamentos dos diferentes setores industriais brasileiros, a partir da utilização das informações da Matriz Insumo-Produto. A partir da análise do coeficiente importado de bens comercializáveis, que trata da parcela dos insumos importados considerando apenas os bens que efetivamente concorrem com bens importados, o autor verificou que ocorreu aumento significativo do indicador, em especial nos setores classificados como de alta e média-alta intensidade tecnológica. Em todos os oito setores classificados desta maneira, o coeficiente importado de bens comercializáveis foi superior a 40%. Observa-se, assim, uma tendência importante de perda de densidade produtiva industrial, o que comprometeria a sua capacidade de gerar dinamismo.

A breve análise realizada por Hiratuka e Sarti mostra como o debate em torno da desindustrialização tem, em grande medida, organizado a discussão sobre o desenvolvimento industrial no Brasil. Essa discussão teve o mérito de reacender o debate sobre a importância da indústria brasileira para o desenvolvimento econômico e levantar um amplo questionamento sobre a existência ou não do processo, suas causas e consequências, além de permitir avanços nas discussões sobre as diferentes bases de dados e metodologias para mensurar a existência e o grau em que estaria ocorrendo o fenômeno.

Apesar dos avanços, de maneira geral, as análises têm certa dificuldade em incorporar e reconhecer de maneira mais profunda as transformações em curso no sistema produtivo global.

Na próxima seção do artigo, Hiratuka e Sarti argumentam que a escala e a intensidade destas mudanças têm redefinido o mapa da produção, do comércio, do investimento e da tecnologia globais, exercendo forças importantes que afetam todos os países com estruturas industriais minimamente diversificadas. O dimensionamento dos desafios para o desenvolvimento da estrutura produtiva brasileira, para além do debate sobre a existência ou não de um processo de desindustrialização, deve avançar na compreensão destas mudanças.

2 thoughts on “Desindustrialização segundo a Contracorrente dos Economistas

  1. Em resumo: a desindustrialização está acontecendo por uma desvalorização da taxa de cambio real. Teriamos que manter um taxa de cambio artificialmente valorizada (que acarretaria numa inflação oriunda dos bens e serviços importados) para desenvolver a industria. Valeria a pena ? Seria possível implementar um controle de cambio fora de um regime autoritário (como ocorreu no regime militar e como ocorre na China) ?

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