Transformações na Estrutura Produtiva Global

O principal argumento do artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil de coautoria de Célio Hiratuka e Fernando Sarti, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, é que o conjunto de transformações concorrenciais, produtivas, tecnológicas e patrimoniais na economia global tem sido de grande magnitude, dificultando a análise dos desafios colocados para a estrutura produtiva brasileira, sem um aprofundamento no entendimento dessas transformações.

Antes, porém, de avançar em sua análise, eles justificam, teoricamente, essa necessidade. Em primeiro lugar, destacam que, considerando as três visões apresentadas nos posts anteriores, e a forma como essas visões se desdobram no debate sobre a desindustrialização, julgam que a terceira é com certeza a mais profícua por:

  1. incorporar avanços relacionados à análise da mudança técnica e ao papel das inovações no processo de desenvolvimento industrial,
  2. permitir incorporar as diferentes dinâmicas setoriais.

No entanto, mesmo nesta terceira abordagem, é necessário explicitar que a forma como o desenvolvimento industrial e tecnológico se projeta na economia global não é uniforme, existindo, portanto, assimetrias e especificidades importantes quando se analisa a inserção dos países em desenvolvimento.

Um ponto de partida interessante para reintroduzir essas questões na discussão é o proposto por Cassiolato e Lastres (2005) e Guimarães et al. (2007), a partir da aproximação teórica entre a literatura neoschumpeteriana, em especial a que centra a análise nos Sistemas Nacionais de Inovação (SNI) e o estruturalismo latino-americano.

A literatura sobre os SNI3 enfatiza que o desempenho industrial e inovador depende não apenas da performance individual de empresas e organizações de ensino e pesquisa, mas também das formas como elas interagem entre si e com vários outros atores e instituições. Refletem, portanto, condições culturais e institucionais locais historicamente construídas, que orientam o processo de aprendizado.

Esta literatura também chama a atenção para o caráter cumulativo do aprendizado. Neste sentido, existem barreiras que impedem a transmissão e reprodução pura e simples de conhecimento criado nos países centrais pelos países em desenvolvimento.

Tanto Cassiolato e Lastres (2005) quanto Guimarães et al. (2007) destacam que esta abordagem é compatível e convergente com um dos aspectos centrais do estruturalismo latino-americano, que é o reconhecimento das condições assimétricas de que partem os países em desenvolvimento da região, perante os países centrais.

Uma das marcas do pensamento estruturalista é o reconhecimento do papel do progresso técnico como motor da dinâmica capitalista, porém, sujeito a projeções globais diferenciadas. Essas assimetrias internacionais econômicas e tecnológicas podem se aprofundar principalmente pelas assimetrias também existentes em relação ao acesso ao conhecimento e ao aprendizado.

De acordo com Guimarães et al. (2007), “mais importante do que as assimetrias tecnológicas, são as assimetrias que implicam a impossibilidade de acessar, compreender, absorver, dominar, usar e difundir conhecimento” ( p. 217).

Como enfatizado por Chesnais (1996, 2013), essas assimetrias estão condicionadas em grande medida pela forma como o processo de concorrência ultrapassa as fronteiras nacionais e se modifica a partir da interação entre as estratégias dos grandes oligopólios (crescentemente globais) e as políticas dos Estados Nacionais.

A compreensão dos limites e possibilidades do desenvolvimento industrial e tecnológico nos países em desenvolvimento não pode prescindir, portanto, de analisar de maneira mais aprofundada as mutações na estrutura produtiva e tecnológica mundial, para buscar entender de que forma a estrutura produtiva doméstica interage com essas transformações.

Não se trata, contudo, de negar a importância de fatores internos, mas sim, como destacado por Tavares (1985) em seu estudo clássico sobre a industrialização brasileira, de entender que as estratégias dos oligopólios globais e das Empresas Transnacionais (ETN) não determinam, de maneira exógena, a dinâmica de acumulação dos países em desenvolvimento, mas se articulam com ela e a modificam a partir de dentro.

Neste sentido, Chesnais tem enfatizado que, desde as últimas décadas do século passado, estas estratégias têm alterado de maneira importante o mapa da produção, do comércio, dos investimentos, das finanças e do conhecimento tecnológico em nível global.

A partir dessa perspectiva, serão destacadas a seguir quatro tendências que Hiratuka e Sarti julgam fundamentais para organizar a análise das transformações que vêm ocorrendo na estrutura produtiva global nos últimos anos. Com poderá ser visto, essas transformações estão inter-relacionadas, porém optou-se por apresentá-las de maneira separada para maior clareza na exposição de cada uma delas.

A primeira diz respeito à reorganização das estratégias globais de organização da atividade produtiva por parte das ETN e como isso afetou as possibilidades de desenvolvimento industrial.

A segunda está associada ao ressurgimento imperial da China, agora como grande fornecedora mundial de produtos manufaturados.

A terceira diz respeito à continuidade da concentração no domínio de conhecimento tecnológico por parte das grandes ETN.

Finalmente, a quarta refere-se ao recente lançamento de políticas ativas por parte de diversos países para recuperar sua atividade industrial e fomentar a inovação em novas áreas e setores econômicos.

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