Estratégias Globais das Empresas Transnacionais

 

Em relação às estratégias globais das ETN, no artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, os coautores Célio Hiratuka e Fernando Sarti argumentam que  a mudança na gestão e nas formas de operação internacional foi alavancada pelas estratégias das corporações americanas, pressionadas pela competição acirrada levada a cabo por empresas da Europa Continental e do Japão.

No período do pós-guerra, a partir de um parque industrial renovado e de políticas industriais ativas, principalmente as empresas da Alemanha e do Japão passaram rapidamente a desafiar a superioridade das grandes empresas americanas. No caso do Japão, a estrutura organizacional mais flexível e com maior capacidade de organizar e coordenar as relações intra e interfirmas para o aprendizado e a inovação representou uma vantagem importante, dado o cenário típico de instabilidade prevalecente a partir dos anos 1970.

De outro lado, a grande empresa americana encontrou-se pressionada também pelo crescente questionamento acerca da eficiência do modelo gerencial da grande corporação multidivisional diversificada. Para os críticos desse modelo, a autonomia exagerada dos gerentes para alocar os lucros acumulados havia criado corporações excessivamente diversificadas, com a implementação de projetos de investimentos que não necessariamente geravam retornos aos acionistas, resultando em perda de eficiência e competitividade internacional.

Acionistas mais ativos, remunerações atreladas ao desempenho das ações e o movimento de fusões e aquisições hostis seriam as formas de disciplinar e implementar um novo modelo de gestão, mais alinhado com o interesse dos acionistas, nessas grandes corporações.

Esse processo resultou em um profundo processo de reestruturação, com a tentativa de aliar a acumulação de ativos intangíveis com movimentos de racionalização e busca por flexibilidade, de maneira a responder ao mesmo tempo à pressão competitiva, à maior instabilidade das variáveis macroeconômicas e às exigências de retorno mais elevado e rápido derivados da crescente pressão do mercado financeiro sobre a gestão corporativa.

Do ponto de vista da estrutura produtiva e da organização das atividades econômicas, observou-se uma intensa reversão na verticalização, com a fragmentação de atividades acompanhadas por uma intensa transferência internacional de etapas produtivas, de maneira a aproveitar as possibilidades de redução de custos, acompanhados dos ganhos de economias de escala e escopo, viabilizadas:

  1. pela ampliação dos mercados e
  2. pela gestão coordenada de atividades geograficamente dispersas.

O processo de produção passou a ocorrer crescentemente sob a forma de uma rede internacional, integrando diferentes países e diferentes empresas, realizando etapas da cadeia de valor sob a coordenação das grandes corporações. Este movimento foi capturado pela literatura de organização industrial e de economia internacional de diversas maneiras e com diferentes denominações.

Neste novo contexto, a articulação entre produção, exportação de manufaturas e desenvolvimento industrial e econômico mudou significativamente.

Como destacado por Baldwin (2011), a incorporação de atividades industriais por parte dos países em desenvolvimento passou a ser muito mais fácil, uma vez que se tornou possível realizar etapas produtivas manufatureiras específicas, mesmo aquelas para as quais praticamente o único requisito necessário é o baixo custo de mão de obra.

Antes do advento das redes globais de produção, essa incorporação exigia a internalização de cadeias produtivas inteiras e, muitas vezes, um conjunto de cadeias produtivas complementares, o que significava uma necessidade grande de mobilizar recursos financeiros, humanos, técnicos, gerenciais e tecnológicos. Além disso, demandava grande capacidade de coordenar os investimentos e a criação de capacitações em todos estes aspectos. Industrialização era sinônimo da criação e montagem desta estrutura.

No novo contexto, passou a ser possível atrair etapas específicas da cadeia de valor, dado a redução das barreiras para o início da atividade manufatureira, assim como para as exportações de produtos manufaturados. Nos termos de Baldwin, se tornou possível internalizar atividades manufatureiras através da inserção em etapas da cadeia de valor, enquanto no passado era necessário criar essas cadeias de valor internamente.

Mas, ao mesmo tempo em que a incorporação de atividades manufatureiras se tornou mais fácil, seus impactos e seu significado do ponto de vista do desenvolvimento econômico podem ser muito menores, uma vez que pode ocorrer criação de capacidade manufatureira sem necessariamente ocorrer industrialização a depender de:

  1. o tipo de atividade internalizada,
  2. a magnitude dos efeitos de encadeamentos,
  3. o processo de aprendizado e dos transbordamentos.

Dentro deste contexto, é possível entender melhor o intenso deslocamento da atividade industrial em direção aos Países em Desenvolvimento (PED) e a emergência da região asiática, em especial a China, como grande centro mundial produtor de manufaturas. O dinamismo industrial do Leste Asiático, por sua vez, foi em grande medida alavancado pela emergência da China como potência industrial, que é justamente a segunda tendência a ser analisada no próximo post.

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