Emergência da China como Potência Industrial

No artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, os coautores Célio Hiratuka e Fernando Sarti citam dados da UNIDO (2011), segundo os quais a China representava em 1980 cerca de 1,4% do valor adicionado manufatureiro e 1% das exportações globais. Em 2010, esses indicadores passaram a 15,4% e 10,3%, respectivamente.

A economia chinesa soube aproveitar o movimento de deslocamento de atividades manufatureiras ocorrido ao longo dos anos 1980 e 1990 para alavancar seu processo de desenvolvimento industrial, inicialmente com as etapas mais simples do processo de montagem dentro das cadeias das ETN, mas avançando rapidamente para etapas mais complexas e com participação crescente de empresas nacionais e estatais.

O nível de desenvolvimento econômico atingido pela China, refletido também em suas elevadas escalas de produção e consumo, tem posicionado o país não apenas como um grande produtor de manufaturas industriais, mas também como um grande importador de insumos e matérias-primas industriais e de bens de capital, além de crescente consumidor de manufaturas, alimentos e matérias-primas minerais e energéticas.

Embora o efeito do crescimento chinês sobre o aumento de preço de commodities seja o fato mais enfatizado, existem outros dois aspectos, mais diretamente ligados à produção industrial que devem ser destacados.

O primeiro aspecto foi a incorporação de um amplo contingente de mão de obra de baixo custo aos processos de produção em rede voltadas para o mercado internacional, aumentando ao mesmo tempo a escala de produção e o número de produtores nas etapas menos complexas da cadeia, vem reduzindo de maneira acentuada o preço mundial de alguns produtos manufaturados, principalmente computadores e semicondutores, mas também em outros setores. Esse efeito pode ser visualizado, tomando- se os índices de preços das importações dos Estados Unidos como proxy dos preços internacionais. É possível perceber, através do Gráfico 1, que os preços de importações de bens de capital tiveram uma redução de 20%, os equipamentos de telecomunicações, 30%, e os computadores e semicondutores, 70%.

O segundo efeito diz respeito ao extraordinário aumento de capacidade de produção manufatureira em várias indústrias voltadas ainda para o mercado interno chinês, mas que podem aumentar ainda mais os impactos sobre a indústria mundial caso sejam mais direcionadas ao mercado internacional.

Um exemplo é a indústria de aço, onde a produção chinesa correspondeu a 47% da produção mundial em 2012 de acordo com a World Steel Association. Apenas a adição de capacidade da China em 2012, correspondeu a 119 milhões de toneladas, o que representou mais do que toda a produção do Japão (segundo maior produtor mundial, com 107 milhões de toneladas) no mesmo ano e cerca de 3,5 vezes a produção total do Brasil (9o. maior produtor).

Outro exemplo ocorre na indústria automotiva, onde, de acordo com a OICA (International Organization of Motor Vehicles Manufacturers), a produção de 18 milhões de automóveis de passageiros na China respondeu, em 2013, por 27% da produção mundial e foi maior do que a produção somada dos três maiores produtores seguintes no ranking (Japão, Alemanha e Estados Unidos).

Em outras palavras, o estabelecimento de um conjunto de produtores asiáticos, liderados pela China, ao mesmo tempo em que:

  1. elevou a demanda por diferentes commodities e insumos básicos,
  2. tem criado uma competição extremamente acirrada nos mercados de produtos manufaturados e que futuramente pode aumentar ainda mais.

Vale destacar que o crescimento elevado e sincronizado da economia global entre 2003 e 2008 acentuou o primeiro aspecto e atenuou o segundo. O período posterior à crise, por outro lado, atenuou o primeiro fenômeno e acentuou o segundo.

A terceira tendência está relacionada a um aspecto bastante importante e muitas vezes negligenciado na literatura sobre cadeias globais de valor. Apesar do surgimento de novos competidores e da abertura de espaços seletivos para a inserção dos países em desenvolvimento dentro das redes de produção, este movimento não significou uma mudança nos oligopólios globais na direção de uma redução generalizada das barreiras à entrada, com uma consequente maior facilidade para implementar estratégias de catching-up por parte de empresas e indústrias dos países em desenvolvimento.

Em que pese a abertura de espaços em etapas específicas da atividade manufatureira em várias cadeias produtivas para empresas de países em desenvolvimento, o processo de descentralização produtiva não significou necessariamente possibilidade de redução de assimetrias competitivas. Pelo contrário, as grandes empresas, ao mesmo tempo em que se desfaziam de atividades fora do core business consideradas não essenciais, mesmo na manufatura, buscaram:

  1. reforçar seus ativos intangíveis,
  2. aumentar o controle sobre padrões tecnológicos e
  3. adquirir ativos de concorrentes estratégicos através de um processo intenso de fusões e aquisições.

A elevação do poder de comando das grandes corporações dos países centrais sobre o valor gerado nas diferentes regiões aumentou de potência. O aumento da escala global passou a ser um fator fundamental na luta competitiva, resultado das vantagens associadas à capacidade de:

  1. diversificar riscos,
  2. operar em vários mercados,
  3. explorar diferenciais de custos e vantagens de localização em diferentes regiões.

 

 

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