Concentração das Atividades Tecnológicas

No artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, os coautores Célio Hiratuka e Fernando Sarti mostram que:

  • por um lado, a crescente internacionalização, mensurada por dados de comércio, investimento e produção manufatureira, mostra sinais de crescente participação de países em desenvolvimento, embora de um conjunto relativamente restrito de países;
  • por outro lado, as informações sobre a capacidade de comando através de redes de propriedade das grandes corporações globais apontam para um processo de maior concentração e centralização do capital.

Quando se observam os dados de internacionalização das atividades tecnológicas das empresas transnacionais (ETN), que justamente conferem a estas empresas a capacidade para absorver grande parte do valor criado ao longo dessas cadeias globais, também se observa uma situação de grande concentração. Em relação a esse último aspecto, Hiratuka e Sarti destacam que os gastos em P&D permanecem muito concentrados nos países desenvolvidos e dominados por um grupo reduzido de ETN.

Considerando as informações das 1.500 maiores empresas em termos de gastos em P&D, estas foram responsáveis por cerca de 45% dos gastos mundiais (inclusive os realizados fora do setor privado) em 2011. Considerando apenas as 100 maiores, estas representaram cerca de ¼ do total global e quase 60% das 1.500 maiores.

Analisando dados sobre a distribuição de patentes depositadas por empresas no European Patent Office (EPO), por país de localização do depositante, segundo os subperíodos 1980-1989, 1990-1999 e 2000-2009, no primeiro caso, nos três subperíodos, houve elevada concentração nos países da tríade, dentre os quais se destacam EUA, Japão, Alemanha e França.

Embora suas participações tenham mostrado pequena queda entre o primeiro e o último subperíodo, na década de 2000, as ETN originárias desses quatro países foram responsáveis por mais de 70% do total de patentes depositadas. Considerando o conjunto das empresas sediadas nos países desenvolvidos, o total chega a mais de 94,5% do total de patentes no último subperíodo.

A última tendência de transformações na estrutura produtiva global, desta vez mais associada ao cenário pós-crise, é o reforço das políticas nacionais de incentivo à mudança tecnológica e à reestruturação industrial como forma de recuperar dinamismo econômico, em especial nos países centrais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, muitas vezes a inovação só consegue avançar de maneira efetiva quando é colocada em um conjunto de atividades que inclui a atividade manufatureira. O movimento de expansão externa da manufatura talvez tenha ido longe demais. Os analistas norte-americanos ressaltam a necessidade de reforçar o ecossistema de produtores, fornecedores, instituições de pesquisa e de formação de mão de obra, com o objetivo de acelerar a geração de produtos e processos inovadores.

Dessa maneira, ao mesmo tempo em que a política estadunidense busca reforçar os laços entre manufatura e inovação, também aponta para apoio mais robusto à pesquisa científica em novas plataformas tecnológicas. Em documento oficial do governo dos Estados Unidos (National Economic Council, Council oferta Economic Advisers, and Office of Science and Technology Policy, 2011), é mencionada a necessidade de acelerar inovação nas seguintes áreas:

  1. energia limpa,
  2. biotecnologia,
  3. nanotecnologia e manufatura avançada,
  4. tecnologias educacionais,
  5. tecnologias para saúde,

Também no caso da União Europeia verifica-se a mesma preocupação em apoiar a atividade industrial, explícita por exemplo no Comunicado da Comissão Europeia sobre Política Industrial (2012). Além das ações de apoio à competitividade industrial, o comunicado menciona seis áreas prioritárias para fomentar a inovação:

  1. sistemas de tecnologia avançada para produção limpa,
  2. construção sustentável,
  3. tecnologias-chaves de comunicação e informação habilitadoras,
  4. veículos sustentáveis,
  5. produtos bio-based e
  6. smart grids.

Finalmente, é importante destacar que a China também tem avançado rápido na direção de tornar endógena a capacidade inovativa e aumentar o peso das atividades intensivas em conhecimento, consubstanciada em seu Plano de Médio e Longo Prazo para o Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (2006-2020) e no 12o. Plano Quinquenal (2011-2015).

Em suas considerações finais, no artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, os coautores Célio Hiratuka e Fernando Sarti argumentam que, apesar do caloroso debate em torno da questão da desindustrialização no Brasil, existem importantes aspectos associados às mudanças observadas na economia mundial que ficaram de fora deste debate.

A importância de melhor compreender essas mudanças reside no fato de que a sua profundidade as torna elementos fundamentais e necessários para discutir uma estratégia mais ampla de desenvolvimento da estrutura produtiva brasileira.

A intensificação da concorrência em nível global significou para as empresas líderes uma estrutura mais flexível e mais focada no domínio e controle sobre ativos intangíveis, ao mesmo tempo em que parte considerável das atividades produtivas mais commoditizadas foram segmentadas, tornadas externas e transferidas para países em desenvolvimento, especialmente na região asiática. A combinação dessas estratégias com políticas ativas de desenvolvimento por parte de alguns destes países, com destaque para a China, criou um ambiente onde surgiram novos competidores com capacitações produtivas e manufatureiras diferenciadas para produção com baixo custo em diversos setores e etapas das cadeias produtivas, ao mesmo tempo em que as empresas líderes globais dos países centrais acentuam seu esforço para desenvolver, adquirir e dominar os ativos-chave, capazes de manter o comando sobre as cadeias de valor internacionais, reforçando barreiras à entrada nessa dimensão superior.

Coloca-se, portanto, a dificuldade de enfrentar uma competição em custo bastante acirrada, liderada pela produção chinesa, mas que envolve outros produtores asiáticos, que combinam custos de mão de obra, escala, câmbio, e incentivos governamentais bastante potentes. De outro lado, a competição é reforçada pelas empresas líderes dos oligopólios globais que lançam mão de seu escopo mundial para reforçar ativos, em especial os intangíveis, como marcas, canais de comercialização e capacitações tecnológicas, capazes de comandar cadeias de valores globais, com maior flexibilidade em seu comprometimento de recursos.

Esse ambiente de concorrência acirrada se tornou ainda mais feroz depois do início da crise global em 2007-2008. O lento crescimento da demanda mundial a partir de então tem tornado a busca por mercados e a necessidade de ocupação de capacidade uma alavanca poderosa para estimular a competição e a mobilização de vários instrumentos para a conquista de market-share por parte de empresas e países.

Além disso, uma das consequências da crise foi a crescente discussão dentro de diferentes países sobre a necessidade de retomar de maneira mais firme a capacidade de produção manufatureira e o avanço da inovação em áreas consideradas estratégicas. Os países centrais, em especial, buscam estimular o desenvolvimento de novos setores, mercados e áreas tecnológicas.

O desafio que está colocado, portanto, vai além do que se estabelece apenas a partir do debate estrito sobre a desindustrialização no Brasil. Hiratuka e Sarti esperam que este texto tenha conseguido chamar a atenção para o fato de que o novo cenário global vai exigir um esforço redobrado de avaliação de:

  1. a posição relativa do país ante as transformações nos vários setores e cadeias produtivas mundiais,
  2. as capacitações existentes e potenciais no sistema produtivo nacional,
  3. a adequação ou não dos instrumentos e da institucionalidade presente hoje dentro da política industrial, científica e tecnológica para fazer frente a este cenário desafiador

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