A Economia dos Desajustados

A bela Alexa Clay (foto acima) é norte-americana, tem 33 anos, mesmo assim transita bem no mundo acadêmico e corporativo mais tradicional. Seu livro “A Economia dos Desajustados” (editora Figurati), escrito em parceria com Kyra Maya Phillips, é um best-seller entre jovens e executivos atrás de alternativas informais para um mundo em crise. Traduzido para mais de 15 idiomas, ele rendeu às autoras um programa na NatGeo, artigos na “Harvard Business Review” e o crédito do Fórum Econômico Mundial como um dos melhores livros de negócios da atualidade. Desde o lançamento em 2015, ela tem viajado o mundo dando palestras e workshops em empresas globais, universidades, ONGs, feiras e festivais de inovação como o SXSW.

Alexa esteve em São Paulo em um evento da Cia de Talentos para falar para mais de 200 executivos interessados em entender as transformações do mundo atual. Em seu livro, ela pesquisa como as companhias podem aprender a promover inovação usando a sabedoria informal dos hackers, traficantes, falsificadores, gangsters e ‘outsiders’, em geral. Um submundo, que, segundo ela, movimenta mais de US$ 10 trilhões na economia informal. “São exemplos de empreendedores à margem da sociedade que precisaram burlar leis para desenvolver seus negócios e que acabam sendo bastante inovadores em seus métodos e práticas de gestão.”

Filha de antropólogos, ela começou cedo a viajar e a conhecer outras culturas. Com o pai, que trabalhava em uma ONG que luta pelos direitos dos povos indígenas, ela veio para o Brasil e passou um tempo na Amazônia. Com a mãe, que era assistente de um professor da área de psiquiatria da Universidade de Harvard, cujo trabalho era investigar pessoas que diziam ter sido abduzidas por extraterrestres, ela viajou por quase todo o mundo. Dessas experiências, herdou o lado investigativo e o gosto pelos estudos sociais.

Formou-se em etnografia pela Universidade de Brown e fez o mestrado em ciências econômicas e sociais na Universidade de Oxford. Estudou também escrita criativa, especializou-se na obra do porta Robert Creeley e na filosofia dos séculos 18 e 19. Embora represente bem a sua geração, estando conectada a coletivos, programas sociais e tenha uma rede ampla de contatos com organizações ligadas à subcultura mundo afora, ela é um tanto cética quanto ao uso exagerado da tecnologia. “Hoje as pessoas ficam muito tempo nos celulares e não conseguem mais ler livros porque eles requerem um tipo de atenção que não traz uma compensação imediata. Existe uma grande dependência tecnológica”, disse em entrevista à Stela Campos (Valor, 22/06/17).

Alexa acredita que as lições do submundo, que ela pesquisou viajando para 20 países, valem tanto para os “cowboys das starups do Vale do Silício” quanto para as companhias mais “tradicionais e burocráticas”. “Os jovens, que não estão em empregos tradicionais, precisam criar coisas novas o tempo todo, do nada, em uma velocidade incrível e vivem desafios incríveis de gestão. Se eles pudessem olhar para os piratas e entender como eles fazem seus negócios ilegais crescerem e como envolvem as pessoas, talvez isso os ajudasse em muitas questões.”

Ela conta que ao pesquisar o comportamento de gangsters, percebeu o quanto eles eram capazes de criar uma cultura à qual as pessoas querem pertencer, enquanto muitas empresas gastam fortunas tentando obter esse nível de engajamento dos funcionários sem sucesso. Alexa diz que muitas organizações clandestinas experimentam novas formas de gestão naturalmente, como por exemplo, as estruturas mais horizontais. “Um exemplo são os coletivos formados por hackers, como o Anonymous“, diz. “Não existe um líder.”

Para a autora, questionar a dinâmica do poder é importante para derrubar as trincheiras erguidas por sistemas muito hierárquicos que acabam tornando difícil gerar criatividade e inovação. “As pessoas estão muito menos abertas para colaborar em uma cultura de medo e punição”, afirma.

Outra lição importante da subcultura para as empresas, segundo ela, é a transparência. “Os grupos de ativistas são especialmente bons nisso. Eles são transparentes com as finanças, mostram tudo o que gastam, quanto as pessoas ganham e os participantes ainda podem questionar a aplicação do dinheiro”, diz. Ela cita também a eficiência dos orçamentos coletivos e os sistemas de crowdfunding.

Dos fanáticos e provocadores que ela ouviu em seu estudo, Alexa traz ensinamentos de liderança; das gangues de rua, exemplos de recrutamento e da construção de um senso de propósito. “Na favela, por exemplo, um pequeno negócio na marginalidade funciona na base da palavra e da construção de uma reputação“, diz. Ela acredita que todos podemos lançar mão de nossa porção “desajustada” para nos arriscarmos mais no que fazemos. “É preciso ter coragem para fazer as coisas de um jeito diferente e resiliência para levar adiante.”

Mas embora defenda as inovações, Alexa acredita que a nova geração pode ser muito arrogante e não perceber a sabedoria nos sistemas antigos. Segundo ela, é preciso entender que, em algum momento, eles representaram a vanguarda, o novo. “Adam Smith, de algum modo, já foi um radical e agora é visto como um super conservador”, dia. Para a pesquisadora, existe o risco de você sempre querer criar o novo e montar sistemas que ignoram as coisas que funcionaram no passado.

Em sua busca pela estratégia dos desajustados, Alexa conversou com líderes de gangues hispânicas, piratas da Somália, falsificadores da China e até heremitas, que, segundo ela, têm uma qualidade que falta aos administradores atuais, que é a capacidade de se isolar para pensar. “Muitas vezes é preciso silêncio para se chegar a ideias inovadoras.”

Uma cultura que a impressionou entre os ‘outsiders‘ foi a Amish, tanto pela organização comunitária baseada em princípios morais como pelos negócios socialmente responsáveis. Foi então que decidiu criar uma personagem chamada Rebecca, que ela classifica como “Amish Futurista”. Vestida à caráter, ela frequenta reuniões nas startups no Vale do Silício para fazer provocações socráticas sobre o uso da tecnologia e a ganância dos novos empreendedores, que na pressa nem sempre entregam produtos de qualidade.

Alexa participa de outros projetos que questionam o modus operandi dos negócios, como o “Wisdon Hackers“, incubadora de questões filosóficas e a “The League of Intrapreneurs“, rede global que busca soluções inovadoras conectando profissionais de diversas indústrias e países. A trilha sonora dos vídeos de seus produtos é tão diversificada quanto seu público e vai da combativa M. I. A. no teaser do livro à bucólica Vashit Bunyan na apresentação da “Amish Futurista“.

Em setembro de 2017, Alexa se prepara para lançar um guia sobre comunidades utópicas. São startups de idealistas que, segundo ela, conseguem ter sucesso sem conhecimento formal sobre administração. “São ecovilas, coletivos de hackers, entre outras comunidades”, diz. Serão 50 pessoas, de diversos países, dando dicas de como fazem a gestão de seus negócios. Ela avisa: “vou incluir qualquer pessoa que queira mudar o mundo.”

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