Pensamento Ultraliberal da Escola Austríaca: Capitalismo de Livre Mercado

Para elaborar uma crítica construtiva, aquela que coloca uma alternativa no lugar da ideologia criticada, no caso, o pensamento de economistas da direita, ou se quiserem, “economistas submissos à crença da casta dos mercadores”, postarei uma série de resumos de ideias dessa gente reacionária. Embora se encontre uma profusão de entrevistas e artigos deles na imprensa brasileira – e praticamente nenhuma manifestação de economista desenvolvimentista ou marxista que pense de maneira distinta deles –, creio que suas ideias não são muitas.

Na verdade, eles são monotônicos, isto é, há monotonia em seus artigos e entrevistas. Eles apresentam sempre o mesmo tom ou ladainha. Não tem variação. O discurso neoliberal é uniforme, invariável, não apresenta variedade, diversidade ou novidade. É enfadonho, mas o que fazer? Se quisermos enfrentar o debate sobre o futuro do País, temos de conhecer as (poucas) ideias adversárias para combatê-las.

Gary North é Ph.D. em História, ex-membro adjunto do Mises Institute. Em pesquisa sobre Capitalismo de Livre Mercado, encontrei um artigo dele no site Mises Brasil, postado em 3 de abril de 2017.

Ele parte do pressuposto ideológico de que, no capitalismo de livre mercado, “quem sempre ganha é o consumidor”. Diz sem pudor que “o objetivo do capitalismo é melhorar a vida do consumidor, e não do empregado ou do empregador”. Não é para rir?! A exploração dos trabalhadores no processo de produção de bens e serviços e dos consumidores no processo de comercialização, para maximização de lucros, é abstraída?!

Seu argumento é que “as empresas se engalfinham em uma brutal guerra de preços”. ‘Tadinhas… Carteis, oligopólios, monopólios, tudo isso é visto como “falhas de mercado”. O Mercado deveria funcionar no mundo real como somente funciona no mundo idealizado em sua mente ideológica.

Usa o viés heurístico da representatividade – só vêm de imediato na nossa mente amostras com o viés das últimas notícias escandalosas ou informações notáveis – para citar os seguintes exemplos. Esquece-se de apresentar contraexemplos que falseariam sua hipótese de acordo com o método científico.

 

“Ao redor do mundo, Uber, Lyft e Cabify estão em guerra não apenas contra o cartel dos táxis (mantido e protegido pelo Estado), mas também entre si. O AirBnB está reduzindo os lucros das grandes redes hoteleiras. Nos mercados que têm um setor aéreo mais livre, como na Europa, voar está cada vez mais barato. E isso sem falar na contínua redução dos preços dos produtos tecnológicos e eletroeletrônicos, bem como dos serviços fornecidos por eles. A Amazon, por exemplo, hoje concorre com a Netflix na área de streaming de filmes. Ambas tiraram clientes das TVs a cabo. E ambas também sofrem a concorrência de vários sites dos quais você pode fazer download de filmes”.

 

Daí prega para os ultraliberais já convertidos a seu credo. “A história do capitalismo de livre mercado é a história da competição de preços. Isso foi explicado, e sempre de maneira muito clara, por Ludwig von Mises ao longo de toda a sua vida”.

 

O que é o capitalismo de livre mercado? Na idealização mental de um pensador ultraliberal da Escola Austríaca, é aquele arranjo econômico em que:

  1. não há subsídios (ou empréstimos subsidiados com os impostos da população) governamentais para as empresas favoritas do governo,
  2. não há protecionismo via obstrução de importações,
  3. não há barreiras governamentais à entrada de concorrentes em qualquer setor do mercado (como ocorre em setores regulados por agências reguladoras),
  4. ninguém é impedido de empreender em qualquer área da economia, e
  5. não há altos tributos que impedem que novas empresas surjam e cresçam.

“Quanto mais próximo uma economia está deste arranjo, mais genuinamente capitalista ela é”. Quis? Quid? Ubi? Quibus auxilliis? Cur? Quomodo? Quando? [Quem? O que? Onde? Por que meios? Por que? Como? Quando?] Estas perguntas seguem o método científico para circunstanciar a pessoa, o fato, o lugar, os meios, os motivos, o modo, o tempo.

Instituições são as restrições criadas para dar forma às interações humanas. Restrições são as “regras do jogo”. Restrições informais são os códigos, os costumes e as tradições sociais. Restrições formais são as regras consolidadas na lei e na política de cada País. Em outras palavras, instituições estão embebidas de História. Impõem um método de análise de Economia Positiva – o que é – e não a idealização da Economia Normativa – o que deveria ser – na análise das experiências concretas ou realmente existentes da variedade de capitalismos.

 

Para o ideólogo ultraliberal continua sua pregação indiferente à falta de realismo. “Um capitalista bem-sucedido é aquele que não apenas sabe como atender aos desejos da massa, como também está sempre tentando aumentar a satisfação dela. A maneira como esse capitalista aumenta sua presença no mercado — sua fatia de consumidores — é por meio da concorrência de preços. Dado que seu objetivo é sempre aumentar seu público consumidor, o que ele realmente tem de fazer é ir atrás de pessoas que até então não estavam dispostas a, ou não tinham condições de, gastar dinheiro naquilo que ele está tentando vender. Ao utilizar a concorrência de preços, ele adquire acesso a esse grupo”.

 

Ele vê mundo da desigualdade social com lentes cor-de-rosa – e fica embabacado. “Isso é um ótimo negócio para todas aquelas pessoas que queriam comprar o produto, mas não tinham condições. E aquelas que já pagavam para adquirir o produto poderão agora pagar menos. A diferença entra o preço (mais alto) que elas pagavam antes e o preço (mais baixo) que irão pagar agora sob as novas condições é chamada pelos economistas de ‘excedente do consumidor’. É apenas um dos maravilhosos benefícios do capitalismo de massas”.

 

Embabacar é causar ilusão, enganar. O babaca é aquele que é ingênuo, simplório, tolo. Quando seu discurso não tem conteúdo verossímil, ele é fútil, superficial, tolo, vão…

 

Em seu admirável mundo do consumismo, “sempre haverá um mercado específico para produtos prestigiosos, sofisticados e caros. (…) Não ligo para prestígio. Mas há quem ligue. E tais pessoas são servidas por mercados específicos”.

 

De acordo com seu credo na soberania do consumidor, sucessor da crença na predestinação divina do soberano, ele é individualista, indiferente e narcisista. “Não faço a mais mínima ideia de como os fabricantes que vendem produtos para oligopsonistas conseguirão manter uma margem de lucro sobre cada produto vendido. Também não sei como aqueles que exploram serviços de compartilhamento com sua guerra de preços cada vez mais acirrada entre si mesmas e contra os carteis — conseguem se manter no mercado. Mas isso não é problema meu. Isso não tem qualquer relevância para mim. Sou um mero consumidor. Na condição de consumidor, estou olhando apenas para meus próprios interesses. Quando varejistas que atendem às massas estão concorrendo ferozmente entre si e forçam seus fornecedores (indústrias) a reduzir os preços, isso é ótima notícia para mim”.

 

O beabá da cartilha liberal clássica a la Adam Smith (1723-1790), ou melhor, “desde o tempo de Adão”, é a de que a defesa individualista do auto interesse leva ao melhor dos mundos, equilibrado como um sistema de forças mecânicas a la Isaac Newton (1643-1727). As ideias dos individualistas ainda não saíram do século iluminista, quando os indivíduos lutavam contra Monarquias Absolutistas. Ainda acham que a Revolução Francesa (1789) é muito recente para medir suas conquistas sociais…

 

Então, ele se revolta contra a infâmia dos intérpretes posteriores do capitalismo com Karl Marx, Karl Polanyi, Fernand Braudel, Thomas Piketty… Aliás, uma característica do trabalho do Braudel era sua compaixão para com o sofrimento dos povos marginalizados. Ele observou que muitas das fontes históricas sobreviventes provinham das classes ricas alfabetizadas. Enfatizou a importância da vida efêmera dos escravos, servos, camponeses e dos pobres urbanos, demonstrando a sua contribuição para a riqueza e o poder dos seus respectivos senhores e das sociedades. O seu trabalho foi muitas vezes ilustrado com representações contemporâneas da vida quotidiana, e raramente com imagens de nobres ou reis. Esse mundo real é totalmente distinto do mundo idílico dos ultraliberais.

 

Os críticos acham que “é um total equívoco imaginar que o capitalismo funciona primordialmente para beneficiar os produtores. Isso é uma total incompreensão sobre os princípios deste sistema. O capitalismo — ao menos o genuíno — opera em benefício do consumidor. E há um motivo simples para ser assim. Os consumidores possuem aquilo que os produtores querem: dinheiro. O dinheiro é a mercadoria de mais fácil comercialização em uma economia. Por isso, todos estão atrás do dinheiro. Quem tem dinheiro consegue trocá-lo pelos bens e serviços que quer. Quem tem dinheiro sempre será servido. Quem tem dinheiro está no assento do motorista em uma economia capitalista. E quem tem o grosso do dinheiro em uma economia de mercado? A massa dos consumidores”. :O

 

Neste ponto, o ultraliberal perde a coerência lógica de seu discurso. Antes, tratava da soberania do consumidor individual. Subitamente, passa a falar da “massa dos consumidores”. Nela não distingue os que têm e os que não têm dinheiro. Classes de renda ou riqueza são ignoradas.

 

“Produtores e empreendedores estão no mercado para ganhar acesso ao dinheiro dos consumidores. Os bens e serviços que eles produzem não podem ser utilizados como dinheiro. Não importa quão popular seja um produto específico, ele nunca será tão popular quanto dinheiro. Consequentemente, produtores e empreendedores têm de vender esses bens e serviços aos consumidores para conseguir dinheiro; eles não podem ir ao mercado e simplesmente tentar trocar, como num escambo, seus bens e serviços por outros bens e serviços. Para conseguir o que querem, eles têm de ter dinheiro. Para conseguir dinheiro, eles têm de vender para muitos consumidores. Eles ganharão dinheiro no volume, e não nos preços altos”.

 

Continua a ladainha para manter a crença dos crédulos nas virtudes alheias, cuja baixa autoestima coloca todos os problemas da vida real em si próprio. Internalizam a culpa por não serem “vencedores” (sic).

 

“Guerra de preços entre empresas sempre beneficia dezenas de milhões de consumidores. Consumidores não têm de negociar descontos com fabricantes ou implorar por preços menores; eles deixam esse serviço por conta das empresas. Na prática, eles terceirizam essa atividade, deixando que as empresas em concorrência façam essa negociação por eles. Todas as grandes redes varejistas têm de agir em prol dos consumidores. E é assim porque elas estão visando às massas. Elas querem vender para as massas. Elas querem o dinheiro das massas. Sua estratégia é fazer com que mais pessoas comprem seus bens e serviços. Os homens incrivelmente ricos se tornaram ricos porque compreenderam como funciona a concorrência de preços”.

 

É hora do apregoador das glórias da Economia de Livre Mercado condenar os incrédulos à fogueira. “Os críticos do capitalismo, que são muitos, simplesmente não entendem que capitalismo significa concorrência de preços, e que o mercado de consumo em massa criado pela concorrência de preços representou o maior benefício econômico para a humanidade nos últimos 200 anos”.

 

Não se discute os avanços ocorridos na Era do Capital, devido às conquistas sociais de direitos da cidadania. Os capitalistas, que eram progressistas antes das “revoluções burguesas” (Inglaterra de 1642 a 1688, Norte-americana de 1776, Francesa de 1789), tornaram-se reacionários conservadores após a revolução industrial. Abandonaram o liberalismo clássico e adotaram o neoliberalismo.

 

Os ultraliberais sempre têm um “bode-expiatório” de plantão para colocar a culpa das coisas no mundo real não acontecerem como eles apregoam. “Se os preços das coisas estão sempre aumentando, isso se deve às distorções criadas pelo governo, como a inflação da oferta monetária. Ainda assim, o custo real das coisas — isto é, a quantidade de horas de trabalho necessária para se conseguir comprar um bem básico — só faz cair”.

 

Mentira. O custo da produção cai pela incorporação de máquinas e contratação de mão de obra mais barata, mas a contrapartida é que “o salário real só faz cair”…

 

Os ultraliberais odeiam os críticos da esquerda democrática e igualitária. “Os críticos destas empresas que se esforçam para reduzir seus custos sempre as atacam ‘em nome dos trabalhadores’. Tais críticos sempre vêm a público denunciar os baixos salários pagos aos empregados. Mas a função do capitalismo é melhorar a vida dos consumidores, e não dos produtores, empreendedores e dos empregados. Produtores, empreendedores e empregados só irão se dar bem em uma economia de mercado se souberem satisfazer os consumidores. Eles só terão lucros se souberam agradar aos consumidores”.

 

Ora, os trabalhadores terão lucros se souberem agradar aos consumidores?! Não há uma contradição nos próprios termos? Não é uma ideia circular os trabalhadores constituírem a maioria dos consumidores – e não lucrar e nem agradar a si próprio?

 

“Quanto aos empregados, sempre vale ressaltar que eles também são consumidores. Consequentemente, na condição de consumidores, empregados também são beneficiados. Agora, se eles não são bem pagos em termos salariais, então é porque os consumidores não querem pagar bem para eles. [O patrão não tem nenhuma culpa disso!] Consumidores sempre estão interessados apenas em conseguir as melhores barganhas para si próprios, e não os melhores negócios para os produtores, empreendedores e empregados do setor industrial, atacadista e varejista. Quem determina a sobrevivência de empregos, salários e lucros são os consumidores, e não os capitalistas. Os críticos do capitalismo jamais entenderam isso”.

 

Pasmem, os ultraliberais no afã de apregoar as virtudes inigualáveis – e, portanto, inalcançáveis – do capitalismo, acabam por promover ou dar a conhecer os próprios méritos e qualidades, que acham muito superiores às dos críticos do capitalismo. É comum o economista de direita alardear, bravatear, jactar-se, eles adoram apregoar suas proezas! Apregoa-se de especialista em quase tudo!

 

E se queixam de quem não os admira. “Tais críticos são guiados essencialmente pela inveja, e sempre quiseram atacar e destruir capitalistas e empreendedores. Eles odeiam empreendedores. Só que, ao atacar empreendedores e exigir que o governo confisque grandes fatias de seu lucro, eles estão apenas reduzindo os benefícios que acabariam sendo ofertados aos consumidores”.

 

Os pobres ultraliberais acham que isso – a inveja – é “coisa de pobre”. “Eles são motivados pela inveja. Eles querem dar uma lição nos ricos. Eles preferem destruir um rico, e com isso sofrer preços mais altos em decorrência desta redução na concorrência, a permitir que o empreendedor continue rico, e com isso se beneficiar de preços menores. É por isso que a inveja é um pecado horrendo, e os críticos do capitalismo são conduzidos por ela. O indivíduo invejoso jamais poderá ser apaziguado pelo rico. Somente a destruição do rico irá satisfazer o crítico motivado pela inveja”.

 

O submisso à fé ultraliberal se caracteriza pela subserviência aos ricos. Ele foi educado para adotar sem questionamento a qualidade de subserviente, isto é, dá a anuência para a sujeição servil à vontade de “vencedores ricos”. Esta é a atitude de quem tenta agradar de modo exagerado ou servil: seu oportunismo beira a bajulação, o servilismo aos exploradores, mercadores, empregadores, patrãos…

 

A confissão de idiotia – a inconsciência do mal que faz a si e aos outros – é clara para quem não compartilha suas crenças. “Para mim, na condição de consumidor, só me resta recostar e apreciar toda a guerra de preços feita por empreendedores que querem o meu dinheiro. Se a concorrência de outros obrigar a manter seus preços baixos, isso será um grande benefício para mim. Isso é o capitalismo em ação”. Doce ilusãocoitado.

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