Defesa Ultraliberal da Lei de Say

Per Bylund foi consultor de negócios na Suécia e hoje é Ph.D em economia pela Universidade do Missouri e professor na Hankamer School of Business, da Baylor University, no Texas. Encontra-se no site Mises Brasil seu artigo, postado em 11 de julho de 2017, em que ele defende a Lei de Say como esta fosse natural como a Lei da Gravidade… Mas a reduz à Lei da Oferta e Demanda. 🙂

A ideologia ultraliberal torce (para Mises) e distorce (o pensamento de Keynes) no intuito de apregoar sua fé infinita no Capitalismo de Livre Mercado. Alguém já viu este em algum lugar e/ou em qualquer tempo?! Ele só existe nas cartilhas de seus ideólogos – e nos discursos da casta dos mercadores quando interessa que o Estado lhe ceda mercados sem nenhuma regulação para explorar trabalhadores e consumidores.

Vamos à catilinária ultraliberal com acusação violenta e eloquente contra Keynes. É uma imprecação, denúncia acerba e arrogante, defendendo o indefensável: a Lei de Say em uma economia monetária!

Ela estabelece que a oferta cria sua própria demanda, impossibilitando uma crise geral de superprodução. Em outras palavras, se você enxerga uma capacidade produtiva ociosa, durante a atual Grande Depressão, isto é ilusão de ótica! É proibido ver isso! É pecado de keynesianos, “gente do mal” que intervém no sublime livre-mercado!

De acordo com os que praticam o auto engano com a ilusão de “equilíbrio econômico”, a soma dos valores de todas as mercadorias produzidas seria sempre equivalente à soma dos valores de todas as mercadorias compradas. Em outras palavras, ao ser criado, um produto está ao mesmo tempo abrindo um mercado para outro produto do mesmo valor. Em consequência, a economia capitalista seria perfeitamente auto regulável, não exigindo a intervenção estatal. Prá que Estado?! O Mercado se basta!

A Lei de Say constitui o suporte fundamental da teoria econômica ultraliberal da Escola Austríaca. Keynes questionou seriamente a sua validade nas condições de economia de endividamento. Rigorosamente, a Lei dos Mercados aplicar-se-ia a uma economia baseada no escambo, isto é, uma economia não-monetária de troca diretas de mercadorias.

Nas condições de economia monetária de produção, contudo, a intermediação da moeda cria sempre a possibilidade de adiar decisões de compra, portanto, interrompendo as vendas. Isto causa uma retração da demanda agregada, podendo resultar em depressão econômica. Há potencial de oferta agregada com capacidade produtiva não utilizada (máquinas ociosas e trabalhadores desempregados) por deficiência de demanda efetiva.

Os ultraliberais afirmam que tudo isso que você está vendo na economia brasileira — 14 milhões de desempregados e excesso de liquidez nos bancos — é mera questão de preços. Um processo de deflação corrigirá?! Ora, aí os consumidores estarão sempre adiando o consumo enquanto aguardam preços menores no futuro…

Vejamos porque os ultraliberais abominam a concessão de crédito aos consumidores. Estes não podem antecipar a futura capacidade de pagamento! Se a Lei de Say fosse imperativa, o capitalismo não teria chegado nem ao século XIX!

“Poucos conceitos são tão distorcidos e mal compreendidos quanto a chamada Lei de Say. Em parte, isso foi obra de John Maynard Keynes, que precisava acabar com ela para abrir espaço para suas políticas intervencionistas. Keynes precisava mostrar que a Lei de Say era falsa porque todo o seu tratado econômico foi construído tendo por base este pilar (o de que Say estava errado).

E como você refuta uma “lei” que sempre havia sido central para os economistas entenderem e explicarem a economia de mercado nos últimos 150 anos? Simples. Você a distorce, cria um espantalho e então bate com gosto neste espantalho. Afinal, bater em espantalhos é muito mais fácil do que refutar a tese verdadeira.

Consequentemente, a “Lei da Say” passou a ser conhecida, segundo os próprios termos criados por Keynes, como uma teoria que diz que “a oferta cria sua própria demanda”, o que obviamente é uma descaracterização.

Originalmente, o significado era outro. Até mesmo o nome era outro. Economistas anteriores a Keynes se referiam a ela como a ‘Lei dos Mercados’, pois ela descrevia em termos muito simples os fundamentos de como um mercado funciona. Jean-Baptiste Say foi aquele que expressou e explicou a lei da maneira mais simples e direta, o que pode explicar por que ela passou a ter o seu nome.

Say observou que o valor dos bens e serviços que qualquer indivíduo pode comprar é igual ao valor de mercado daquilo que esse indivíduo pode ofertar. Segundo o próprio: “Dado que cada um de nós só pode comprar a produção de terceiros com nossa própria produção, e dado que o valor do que podemos comprar é igual ao valor do que podemos produzir, então quanto mais o homem pode produzir mais ele pode comprar”.

Em outras palavras, a produção precede o consumo e a demanda de um indivíduo só pode ser satisfeita se este indivíduo também ofertar algo a alguém.

A Lei dos Mercados, portanto, diz que o valor dos bens e serviços que qualquer indivíduo pode comprar é igual ao valor de mercado daquilo que ele pode ofertar. Em um sentido macroeconômico agregado, o valor dos bens e serviços que qualquer grupo de pessoas pode comprar no agregado é igual ao valor de mercado daquilo que ele pode ofertar no agregado. Say, em suma, simplesmente expressou a realidade de que nós produzimos (trabalhamos) para poder consumir.

(…)

Pelo fato de a demanda ser incerta, toda produção é necessariamente especulativa e fruto do empreendedorismo. A demanda real só será descoberta quando os bens forem apresentados aos compradores em potencial. Consequentemente, empreendedores são prognosticadores, avaliadores de projetos, tomadores de risco. Em uma economia avançada, eles direcionam fundos para a mão-de-obra, para os proprietários de terra, e para os fabricantes de bens de capital, e só conseguirão recuperar este investimento se forem bem-sucedidos nesta antecipação das demandas dos consumidores e, consequentemente, conseguirem vender seus produtos a preços que viabilizem todo o seu investimento.

Ao mesmo tempo, os consumidores só poderão comprar esses bens e serviços se tiverem eles próprios praticado uma produção que tenha atendido aos desejos e demandas de terceiros — caso contrário, eles terão apenas o desejo de comprar, mas não a capacidade (e isso não é demanda).

Isso não é um argumento circular, mas sim a própria explicação de como ocorre o crescimento econômico. A capacidade de vender bens no mercado, e consequentemente de incorrer em uma produção especializada, requer investimentos anteriores. Por isso, para se especializar em algo, foi necessário que estas pessoas produzissem bens e vendesse em uma quantidade que excedesse a própria necessidade de consumo (para assim acumular poupança). Esta poupança será utilizada para financiar o desenvolvimento de um novo bem. Isso caracteriza um investimento. E esse investimento será especulativo porque a verdadeira demanda só será conhecida quando o produto chegar ao mercado.

A implicação deste raciocínio é que nunca é possível haver uma “superprodução” ou um “excesso de oferta” na economia. Consequentemente, não é possível haver uma “deficiência na demanda agregada”, sendo este o cerne de toda a teoria keynesiana. É certamente possível haver um excesso de oferta ou uma escassez de uma mercadoria específica, algo que ocorre regularmente em decorrência de empreendedores não terem sido bem-sucedidos em antecipar corretamente a demanda de mercado por seu produto. Mas isso só pode ocorrer no curto prazo.

Dado que toda produção é feita com o intuito de vender os bens produzidos para então comprar os bens e serviços que irão satisfazer os desejos do produtor, sua eventual incapacidade de vender irá se tornar sua incapacidade de consumir. Não é possível demandar sem antes ter produzido.

Consequentemente, quando uma pessoa não consegue vender o que produziu, isso não caracteriza uma “deficiência da demanda”. Ao contrário, caracteriza uma falha na produção. É uma falha na produção o que causa uma redução na demanda efetiva — uma falha do empreendedor.

Para tornar seus bens atrativos ao consumidor e, assim, conseguir vendê-los, este produtor terá de reduzir seus preços. Houve um erro no empreendedorismo de sua parte. Ou ele estimou erroneamente seus custos de produção ou ele estimou erroneamente seu preço de venda. Um dos dois, ou ambos, terá de ser corrigido. Caso contrário, ele não conseguirá vender. E consequentemente não conseguirá demandar.

O que houve, portanto, foi um erro na precificação, o qual deve ser corrigido. Empreendedores — por vários motivos — imaginaram que os consumidores atribuiriam a seus bens e serviços valores maiores do que aquele que de fato foi atribuído. Não houve um ‘excesso de produção’; houve, isso sim, um erro de cálculo quanto ao futuro valor de mercado dessa produção.

Esse tipo de erro do empreendedorismo coletivo ocorre tipicamente quando O Governo embarca em uma política de crédito farto e barato, o qual gera um aumento temporário da renda disponível das pessoas, que então passam a consumir mais. Ludibriados por esse consumo maior — o qual foi causado pelo mero endividamento barato e não por um aumento genuíno da produção e da renda —, empreendedores passam a crer que haverá maior renda disponível no futuro, de modo que seus bens e serviços serão mais demandados, o que significa que poderão cobrar preços maiores. Mas tão logo essa expansão do crédito é interrompida, todo o cenário de aumento da renda se revela fictício e artificial, mostrando que nunca houve realmente um aumento da renda da população. Houve apenas endividamento. Consequentemente, seus bens e serviços não poderão ser vendidos pelo maior preço antecipado pelos empreendedores.

Logo, se empreendedores erraram em sua estimativa e em sua produção — por qualquer motivo —, então a correção deve necessariamente passar pelo rearranjo dos esforços produtivos, de modo a estimar mais corretamente os desejos dos consumidores e a mais bem servi-los.

Esse diagnóstico [ultraliberal] da recessão é bastante diferente do diagnóstico keynesiano, que enfatiza que houve uma redução da demanda em decorrência de misteriosas flutuações no “espírito animal” dos empresários, o qual deve ser retificado por meio de mais expansão do crédito, mais endividamento e mais gastos governamentais.

No diagnóstico de Say, o governo deve remover ao máximo os obstáculos burocráticos e regulatórios para que os empreendedores possam rapidamente corrigir seus erros e descobrir quais bens e serviços os consumidores realmente querem (e podem comprar). Dado que o mecanismo de preços é a principal fonte de informação dos empreendedores, uma flexibilidade nos preços de mercado é essencial para uma rápida recuperação.

Se O Governo, no entanto, impedir essa correção por meio de política que estimule a demanda, isso irá apenas subsidiar estes bens que foram produzidos a um custo muito alto. Consequentemente, os erros empresariais serão protegidos e blindados das preferências do consumidor. Os consumidores perderão e os empreendedores ineficientes são premiados. E a economia continuará desalinhada, com a oferta não sendo aquela demandada pelos consumidores. Ao final, a produção estará em descompasso com a demanda, os empreendedores ruins continuarão no mercado consumindo recursos escassos (e, com isso, prejudicando os mais competentes), os consumidores terão menos poder, e a economia será menos eficiente.

Por isso, é fácil entender por que os defensores do intervencionismo querem abolir a Lei dos Mercados. Se a demanda for separada da oferta e passar a operar independentemente desta, então os mercados jamais serão eficientes, jamais tenderão ao equilíbrio e o governo sempre terá de intervir para nos salvar de nós mesmos”.

Ora, na concepção ultraliberal dos adoradores de Mises, eliminar a sagrada Lei dos Mercados não seria o mesmo que abolir a Lei da Gravidade?!  🙂

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