Juros Reais Líquidos Ex-Ante

Quando toma decisões de alocação do capital, o investidor financeiro deve estimar a taxa de juros real (acima da taxa de inflação), líquida (descontados o imposto de renda e a taxa de administração), ex-ante (antes do período considerado e não ex-post, i.é, resultado do passado). E com base nela, considerar o custo de oportunidade (o ganho de capital que se poderia obter com o mesmo montante de dinheiro aplicado em investimento alternativo).

Diana Benfatti (Valor, 31/07/17) responde à consulta financeira se um investidor com investimentos em renda fixa deve se preocupar com a queda da taxa de juros.

“Essa preocupação é natural e muito válida. A trajetória da taxa de juros é sim importante, mas o seu movimento isoladamente não determina o rendimento dos investimentos.

Muitos outros fatores são relevantes, como:

  1. o indexador do investimento,
  2. os preços da curva de juros futuros,
  3. a oferta e a demanda por títulos,
  4. as diretrizes da política monetária,
  5. o movimento da inflação,
  6. os impostos, etc.

São temas ricos e todos merecem aprofundamento. Aqui iremos focar no impacto da inflação e do imposto de renda, principalmente sobre os juros pós-fixados diários (Selic e CDI).

A taxa de juros “cheia” de um investimento é o que chamamos de juros nominais brutos. A diferença entre os juros nominais e a inflação são os juros reais que, em termos práticos, é quanto o seu dinheiro realmente se valorizou no período, mantido o mesmo poder de compra.

Para ilustrar, em 2016, a taxa Selic rendeu 14,02%, que são os juros nominais deste indicador, e a inflação (IPCA) foi de 6,29%. Ou seja, a inflação corroeu 6,29% do seu capital investido, portanto, com a taxa de 14,02%, o rendimento real foi de 7,27% brutos.

A maior parte dos investimentos em renda fixa têm incidência de imposto de renda, que é pago sobre os juros nominais. Assim, apesar da parcela dos juros referente à inflação ser apenas correção do poder de compra, o imposto também incide sobre ela. Consequentemente, quanto maior for a inflação em relação aos juros nominais, maior será a parcela do seu verdadeiro rendimento (os juros reais), que será corroída pelo imposto, sobrando menos juros reais líquidos (após impostos).

A tabela acima nos ajuda a visualizar a trajetória da Selic e o impacto da inflação e do imposto de renda sobre a rentabilidade real. Os dados de 2013 a 2016 são históricos e, a partir de 2017, as projeções têm como fonte o último Boletim Focus. Para calcular o imposto de renda, vamos utilizar a menor alíquota da renda fixa, que é de 15% após 2 anos.

Perceba que os juros reais em 2016 foram bem maiores que em 2015, apesar de a Selic ter sido apenas um pouco mais alta. Inversamente, a projeção de juros reais para 2017 fica um pouco abaixo do dado de 2016, mesmo com uma queda importante prevista para a taxa de juros. O impacto da inflação nos rendimentos é significativo, sendo impossível julgar o seu desempenho sem levá-la em conta.

Ademais, repare que os juros reais líquidos oscilam quase sempre de forma mais ampla que a taxa de juros e a inflação, por conta do impacto do imposto de renda no rendimento final do investimento. Mas seria possível ter rendimentos reais líquidos negativos em renda fixa? Sim, caso o imposto de renda seja mais alto que a taxa de juros real bruta.

Essa situação aconteceria caso a Selic fosse 20% e o IPCA 17%, por exemplo. Se a taxa for pré-fixada, o risco disso acontecer é maior, pois os juros nominais são fixos e um possível movimento de alta da inflação afetará diretamente os juros reais resultantes. [Isto que é denominado “Eutanásia do Rentista“.]

Por outro lado, investimentos indexados à inflação têm juros reais brutos fixos (por exemplo, IPCA + 5% ao ano), mas os juros reais líquidos são resultantes do imposto de renda pago sobre o rendimento total. Portanto, em casos extremos também é possível que apresentem juros reais líquidos negativos.”

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