Por Linhas Tortas: As Tortas Linhas da Folha de S.Paulo

 

EDITORIAL DA FSP (29/08/2017), abaixo reproduzido, além do antipetismo típico da direita esnobe paulistana, demonstra o analfabetismo econômico do mainstream, i.é, da “corrente principal da Economia” — autodenominação dos economistas ortodoxos. Estes são fiéis seguidores da Ética Protestante e do Espírito do Capitalismo do século XIX, quando ainda se guardava “poupança” debaixo do colchão.

A economia do endividamento bancário não tinha  evoluído, há dois séculos, com o uso generalizado de cheques, a câmara de compensação, a expansão da rede de agências e a carteira de redesconto, ou seja, empréstimos de liquidez contra corridas bancárias. Essas instituições ganharam fôlego no século seguinte, quando o processo urbano-industrial superou a sociedade tipicamente rural.

Porém, o pensamento doutrinário de “tementes de Deus” permaneceu. A parcimônia individual continua sendo vista como uma virtude moral mesmo em sociedades consumistas como as anglo-saxônicas, cujo padrão de consumo colonizou a sociedade brasileira.

Os crentes ignoram o Paradoxo da Parcimônia: se todos poupam, todos acabam com menor poupança por causa do processo queda de vendas – capacidade produtiva ociosa – queda de investimentos – queda de renda. Face a esta, mesmo mantendo-se a cesta básica de consumo, registra-se menor poupança macroeconômica ex-post.

A Escola Austríaca abomina o crédito por causa disso. Botando fé na Lei de Say, os ultra-liberais almejam que os bancos sejam apenas canalizadores de poupança para o investimento, isto é, meros intermediários financeiros. Dessa forma, manter-se-ia o equilíbrio entre a oferta agregada e a demanda criada por ela e não haveria inflação de demanda fomentada por crédito extra.

Os neoliberais não percebem que o segredo dos negócios capitalistas é trabalhar com recursos de terceiros para obter maior escala e rentabilidade patrimonial face aos recursos próprios. Em outras palavras, eles desconhecem que a alavancagem financeira dá dinamismo à economia de mercado!

Os “sábios-sacerdotes pregadores da poupança” se escandalizam com os estímulos ao consumo. Revelam idiotice, não tendo consciência do mal que fazem a sua reputação nem aos outros que estão desempregados. É urgente a necessidade de estimular crédito ao consumo para ocupar a imensa capacidade produtiva ociosa na economia brasileira. Só depois disso que haverá estímulo para decisões de investimento com reversão das expectativas pessimistas quanto às vendas.

Deus não escreve certo em linhas tortas. O problema é que os economistas da “corrente principal” (sic) não sabem ler suficientemente bem

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Coleção Atlas Econômico da Cultura Brasileira

O Ministério da Cultura (MinC) está lançando um trabalho inédito no País: a Coleção Atlas Econômico da Cultura Brasileira. Os dois primeiros volumes da coleção, que será composta de seis obras — lançados em evento no Itaú Cultural, em São Paulo — são o pontapé inicial para o que promete ser a ferramenta que faltava para uma maior valorização da Cultura como um importante segmento na composição do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. 

Atualmente, o Brasil carece de um sistema unificado e padronizado para aferir a participação da Cultura no PIB nacional. Apelidado de “PIB da Cultura”, este sistema é chamado de Conta Satélite da Cultura e já existe em 21 países no mundo, sendo sete da América do Sul (Colômbia, Chile, Uruguai, Argentina, Peru, Bolívia e Equador). No Brasil, os dados existentes não são construídos com a periodicidade necessária para poderem ser comparados e não há consenso no setor sobre quais setores e subsetores deveriam ser acompanhados.

 O Atlas trará dados construídos com uma metodologia padrão para as diferentes regiões do Brasil. Os dois primeiros volumes, que trazem o marco referencial teórico e metodológico que será usado para aferição dos dados, esclarecem que o estudo será apoiado em quatro eixos: empreendimentos culturais, mão de obra do setor cultural, investimentos públicos e comércio exterior.

Atualmente só existem trabalhos que abordam emprego e empreendimentos no setor cultural. Ainda assim, de forma dispersa e usando diferentes metodologias. O Atlas aponta ainda para algumas das cadeias produtivas que serão estudadas de forma prioritária: audiovisual, games, mercado editorial, música e museus e patrimônio.

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Reformismo ou Revolução

Reformismo é o posicionamento político segundo o qual a transformação da sociedade, com vistas a melhorar a justiça social, pode efetuar-se no quadro das instituições existentes, por meio de reformas legislativas sucessivas. Em geral, é colocado por oposição à revolução. Esta é uma palavra com origem no latim revolutione, que significa ato ou efeito de revolver ou revolucionar. Pode ter vários significados aplicados a várias áreas diferentes, podendo ser sinônimo de revolta ou de um novo movimento evolucionário.

Uma revolução é alteração violenta nas instituições políticas de uma nação, muitas vezes alcançadas através de uma rebelião. É uma mudança radical dentro de uma sociedade, que ocorre no contexto político, econômico, cultural e social, onde é estabelecida uma nova ordem, que é instituída pelas forças políticas e sociais vencedoras.

No sentido figurado, uma revolução pode ser o sinal de uma transformação profunda. A questão-chave é: pode ocorrer de maneira pacífica e democrática? Isso implica em não atacar os direitos humanos universais, de acordo com os quais todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos, dotados de razão e de consciência, e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

As transformações mais sustentáveis ao longo da História da Humanidade se deram no âmbito da cidadania. Esta é o exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais que estão previstos na constituição. Exercer a cidadania é ter consciência de seus direitos e obrigações e lutar para que sejam colocados em prática.

Para exercer a cidadania, os membros de uma sociedade devem usufruir dos direitos humanos, direitos fundamentais tanto no âmbito individual, coletivo ou institucional. Também necessitam cumprir os seus deveres para o bem da sociedade. Uma boa cidadania implica que os direitos e deveres estão interligados. O respeito e cumprimento de ambos contribuem para uma sociedade mais harmônica e justa. Continue reading “Reformismo ou Revolução”

Considerações sobre o Papel do BNDES e o Financiamento do Desenvolvimento

Segue artigo do Thiago Pereira e meu ex-orientado Marcelo Miterhof sobre o BNDES, a TLP e a devolução dos recursos ao Tesouro: Thiago Pereira e Marcelo Miterhof – Considerações sobre o papel do BNDES e o financiamento do desenvolvimento – artigo para Economia e Sociedade

O texto será submetido à revista Economia e Sociedade do IE-Unicamp. Mas, dado o calor do debate, estamos circulando. Pedem para não citar, dado o caráter preliminar.

Abaixo, segue uma versão de opinião que saiu no Jornal GGN do Nassif:

Corporate Sem Crédito

Raquel Balarin (Valor, 18/08/17) informa que um empresário do setor de serviços com bom histórico de pagamentos (e que foi pouco afetado pela crise) vem, há 18 meses, só liquidando seus empréstimos nos bancos. Não consegue renovar nenhum deles. O setor de serviços é visto pelos bancos como muito suscetível ao desemprego e à crise econômica.

O caso do empresário ilustra uma situação que não tem ganhado muita visibilidade em tempos de aumento do rombo fiscal. Mas é essencial entender o que está acontecendo com o crédito à pessoa jurídica no Brasil — e o impacto disso na retomada do investimento e do crescimento econômico.

Há hoje um conjunto de fatores que restringem a concessão de crédito, especialmente para as pequenas e médias empresas:

  1. concentração bancária,
  2. poucos bancos médios ainda atuando no crédito à pessoa jurídica,
  3. necessidade dos bancos de renegociar empréstimos de grandes empresas fragilizadas,
  4. recorde de pedidos de recuperação judicial (fala-se em 4 mil empresas nessa situação) e
  5. um BNDES que só encolheu seus desembolsos nos últimos anos. Continue reading “Corporate Sem Crédito”

Utopia: O Que Deveria Ser ou Crítica a O Que É

Utopia, vulgarmente, é “a ideia de civilização ideal, fantástica, imaginária, a partir de plano que parece irrealizável, sendo então uma fantasia, um devaneio, uma ilusão, um sonho”. Do grego “ou+topos” que significa “lugar que não existe”.

No sentido geral, o termo é usado para denominar construções imaginárias de sociedades perfeitas, de acordo com os princípios filosóficos de seus idealizadores. Em sentido mais limitado, significa toda doutrina social que aspira a uma transformação da ordem social existente, de acordo com os interesses de determinados grupos ou classes sociais.

Utopia é um país idealizado por Thomas More, escritor inglês (1480-1535), onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. Para ele, Utopia é uma sociedade organizada de forma racional, cujos bens seriam compartilhados por todas as pessoas, que passariam seu tempo livre envolvidos com leitura e arte, e não seriam enviados para a guerra, a não ser em caso extremo. Assim, esta sociedade viveria em paz com plena harmonia de interesses.

É possível reler a Utopia como sendo uma crítica à realidade, pois, na primeira parte, Morus tece duras críticas à sociedade real em que vive, aspirando por uma sociedade perfeita. Na segunda parte, encontra-se a narração de uma ilha idealizada, apresentada como uma das sociedades possíveis, constituída com base na razão humana.

Podemos fazer um exercício mental para resolver problemas de dado um país, onde a razão humana possa resolver com isenção as questões do bem comum. Que soluções se dariam para sua organização econômica, política e social? A resposta é a Utopia. Continue reading “Utopia: O Que Deveria Ser ou Crítica a O Que É”

Mapa do Ensino Superior no Brasil 2017: UNICAMP no Topo

A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) aparece como a melhor da América Latina em 2017 segundo um dos principais rankings internacionais de universidades, o THE (Times Higher Education).

A instituição superou a USP (Universidade de São Paulo), líder no ano passado –é a primeira vez que ela é ultrapassada por outra entidade brasileira em uma classificação internacional.

A pontuação das duas foi bastante parecida, mas a Universidade Estadual de Campinas se saiu melhor em dois dos cinco indicadores: citações de artigos científicos e transferência de tecnologia.

Além destes dois critérios, são avaliados ainda ensino, pesquisa e perfil internacional. Essas cinco dimensões são compostas pela junção, ao todo, de 13 índices (veja o ranking das 50 melhores ao final).

Em que pese essas colocações nos dois primeiros postos, o teto salarial de R$ 21 mil das universidades estaduais paulistas é um “risco seríssimo” à capacidade das instituições de atrair os melhores profissionais.Quem chega a ser professor já está no topo da pirâmide social.

O teto salarial nas universidades paulistas é o do governador, candidato a fake de “caçador de marajás”, tal como na campanha eleitoral do Collor. Ele o congelou há cinco anos em R$ 21 mil. Líquido, esse teto fica em cerca de R$ 14 mil, abaixo não só do que acontece no setor privado, mas também da perspectiva de carreira das federais [que têm como teto o salário do ministro do STF, de R$ 33 mil] e muito abaixo do que acontece no mundo. Por que um jovem talento escolherá qualquer uma das três universidades paulistas?  Continue reading “Mapa do Ensino Superior no Brasil 2017: UNICAMP no Topo”