“Deus dará… E o Diabo tomará!”

Adriana Cotias (Valor, 03/0717) informa que, em meio às discussões para a reforma da Previdência, “o brasileiro” [mas quem é este tipo representativo da heterogeneidade dos habitantes no Brasil, heim?] aumentou a sua reserva para a aposentadoria, mas ainda poupa menos do que o necessário para manter a sua renda e qualidade de vida, segundo uma pesquisa mundial da gestora americana Legg Mason.

No recorte de Brasil, a instituição ouviu 900 investidores, separando-os por grupos geracionais, de gênero e classes de renda. A percepção geral dos entrevistados é que um ano de salário seria suficiente para viver os anos da velhice fora do trabalho, e mesmo nas classes de renda mais alta se observa esse tipo de ilusão financeira.

Ao redor do mundo, os entrevistados têm poupado entre 3,7% e 14,6% do que precisariam, de fato, para prover um sustento estimado em 70% do que tinham na ativa por 20 anos, como recomenda a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Brasil se fica com uma reserva de 5,3% do valor considerado adequado.

Pelo levantamento, na média:

  • quem já tem algum dinheiro para a aposentadoria acredita que R$ 170 mil acumulados são suficientes para viver a fase da velhice.
  • Os “millenials” (de 18 a 35 anos) calculam que R$ 133 mil bastam.
  • Já o grupo da geração X (de 36 a 52 anos) pensa que R$ 189,5 mil é um valor adequado.
  • Os “baby boomers” (de 53 a 71 anos) falam em R$ 233 mil.
  • Mesmo entre os indivíduos da alta renda afluente uma acumulação de R$ 519,8 mil é considerada o bastante.

O algoritmo 1 – 3 – 6 – 9 (abaixo) oferece maior realismo quanto às necessidades de reservas financeiras para manter o padrão de vida durante vinte anos de aposentadoria.


Quando se compara com o perfil social, ninguém se aposenta com isso. O brasileiro entende que a previdência pública tem problemas, acha que não vai receber o que gostaria do governo e dos fundos privados, mas ainda não investe o suficiente para ter uma vida confortável lá na frente.

Paradoxalmente, na média:

  • 74% dos entrevistados mencionaram ter como meta desfrutar de uma boa renda na velhice,
  • 66% aspiram ter dinheiro suficiente para manter o padrão de vida pré-aposentadoria, e
  • 63% deles manifestaram a pretensão de pendurar as chuteiras cedo.
  • 56% acrescentou a importância de ter acesso a um bom plano de saúde.

O futuro incerto do sistema público de pensão brasileiro provavelmente influenciou nesses resultados. Um dos problemas para essa percepção irrealista é que o investidor costuma fazer a conta de juros nominais em cima do que guarda, quando o ideal seria calcular o ganho real, quanto se obtém acima da inflação. Não adianta ter mais dinheiro nas aplicações se o poder aquisitivo caiu.

Para se ter uma ideia, um indivíduo com 35 anos e que tenha gastos mensais de R$ 4.850 teria que fazer uma contribuição mensal de R$ 1.276 se começasse a fazer aportes num plano de aposentadoria hoje para ter uma renda próxima da atual quando se aposentasse aos 60 anos. Pelo cálculo feito no simulador de aposentadoria Target, da Icatu Seguros, o aplicador com perfil moderado de tolerância a risco teria acumulado R$ 1,082 milhão nesse intervalo, considerando-se um retorno médio de 6% ao ano.

Neste ano, até 7 de julho, os Fundos de Previdência Complementar atraíram R$ 18,9 bilhões, atingindo um patrimônio líquido de R$ 671,4 bilhões. Só no ano passado, a categoria registrou captação recorde de R$ 48,2 bilhões, segundo dados da Anbima, a entidade que representa o mercado de capitais e de investimentos.

Todo o noticiário em torno da reforma da Previdência Social parece contribuir para que o investidor passe a considerar uma reserva exclusiva para a aposentadoria. A estreia de gestoras independentes no segmento, com uma dezena de novos nomes, e a distribuição de fundos pelas plataformas têm auxiliado na disseminação, como a da XP Investimentos, responsável pela plataforma de fundos.

Esse é um mercado relativamente novo no Brasil. Foi a partir da estabilização da moeda, com o Plano Real, que a Previdência Privada começou a florescer no país. E foi apenas em 1998 que surgiram o Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL), que permite abater de cálculos do IR até 12% do aporte anual, e o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL), em que o imposto incide sobre o rendimento do plano e não sobre o total acumulado.

Os principais produtos têm menos de 20 anos, é natural que haja um aculturamento. Estamos saindo de um período em que havia certa expectativa, ou ilusão, de que o Estado redistribuiria de forma benevolente os recursos. Agora, com o debate para a revisão das regras, começa a haver uma conscientização de que a Previdência Pública será apenas para cobrir o básico.

Mesmo assim, “o brasileiro” começa a planejar mais tarde do que deveria a aposentadoria, o que exige um sacrifício de poupança maior. Se começasse a pensar nisso aos 23, 24 anos, poderia guardar o equivalente a uma pizza por mês.

Desde o primeiro salário, o trabalhador deve reservar uma pequena fração para a previdência, que pode começar em 4% da renda, e não usar essa acumulação para nenhum outro fim. Se quiser viajar ou comprar um carro, deveria poupar o dinheiro em reservas separadas.

O recomendável é, desde os primeiros aportes, condicionar o padrão de vida sem contar com o dinheiro já separado para a aposentadoria. A cada aumento de salário, incrementar a parcela destinada à previdência.

Com o aumento da longevidade e as mudanças das condições macroeconômicas, as contas feitas há dez anos por alguém que tenha planejado a aposentadoria já não valem mais. O investidor tem sempre que revisitar esse tema, atualizar as condições porque muda:

  1. a expectativa de vida,
  2. o padrão de renda e
  3. o retorno esperado.

Com o envelhecimento da população, cada vez mais há o reconhecimento do investidor de que a Previdência Pública não será suficiente para custear a aposentadoria. E se a economia, de fato, reagir, com juros sensivelmente mais baixos, a renda variável tende a ser o destino para engordar o valor reservado para a velhice.

Tal inclinação aparece na pesquisa da Legg Mason, que investigou o sentimento do investidor de maneira ampla, não só sob a perspectiva da aposentadoria. Entre os brasileiros ouvidos, 53% mostraram disposição para tomar mais risco neste ano, comparados a 37% globalmente. Contudo, apenas 20% dos aplicadores locais descrevem sua tolerância a risco como agressiva, ante uma fatia de 28% no mundo. E são justamente os millennials o grupo com maior propensão a arriscar mais (71%), enquanto na geração X e entre os baby boomers essa proporção é de 47% e 35%, respectivamente.

Apesar de o histórico de taxas altas na renda fixa no Brasil ofuscar a busca pela diversificação, é justamente o público mais jovem que pode se expor mais por ter um horizonte de acumulação de capital maior. O jovem tem 40 anos para correr risco, se a bolsa cai ou sobe por três anos, por que ficar preocupado? A pergunta que tem que fazer é se em 40 anos o investimento vai render mais do que o CDI.

Questionados sobre que investimentos tendem a trazer as melhores oportunidades em 12 meses, 33% dos entrevistados citaram o mercado acionário local e 24%, o internacional. O mercado imobiliário liderou as respostas, com 43%.

Aos 24 anos, quem faz depósitos mensais de R$ 160 em um fundo de previdência há quatro e com essa reserva espera se aposentar aos 50 anos e dispor de uma renda próxima de R$ 3 mil se ilude. Em meio aos esforços do governo para pautar reformas fiscais no Congresso,  acredita que não vai poder contar com a previdência pública quando quiser viajar e curtir a vida, sem se preocupar com o calendário de volta ao trabalho.

Com o país em crise, não tem mais como depender do governo para a aposentadoria, ainda mais sendo tão baixa. Quem é aposentado não consegue viver com o que recebe, se aposenta e continua trabalhando. Ninguém quer isso para si.

Tal consciência, aparentemente atípica nessa faixa etária, é mais comum do que se imagina. Uma pesquisa feita pela Consumoteca, consultoria especializada no comportamento do consumidor, com mais de 2 mil pessoas entre 18 e 50 anos, mostra que o planejamento de vida envolve o lado financeiro desde o início da maioridade. E é entre os mais jovens, com até 35 anos, que situa-se a maior parcela que possui algum dinheiro guardado, o equivalente a 60%, enquanto entre os mais velhos essa proporção é de 46%. Cerca de 36% dos pesquisados respondeu que não contribuiria para a previdência social se tivesse escolha, principalmente para não “financiar o sistema corrupto”.

A ideia era estudar o impacto da reforma da Previdência para essa geração, se era verdade que só vive o hoje e não faz planejamento nenhum, e se fosse assim a revisão das regras não seria um problema. Mas o que se viu foi o contrário.

  • O mais jovens têm menor capacidade de poupança ao ingressar no mercado de trabalho e reservam, em média, R$ 238 mensais entre 18 e 24 anos.
  • Aqueles com 25 a 35 anos guardam R$ 588.
  • Entre 36 e 50 anos, o valor aplicado limita-se a R$ 426.

A renda pessoal dos pesquisados oscilou de R$ 1,8 mil até R$ 4,7 mil.

A caderneta de poupança é o destino mais comum entre todas as faixas etárias, chegando a 76% no grupo de 25 a 35 anos, enquanto os fundos aparecem com uma parcela de até 26% entre os entrevistados com 36 a 50 anos. A previdência privada surge com uma proporção maior também nessa faixa etária, com 20%.

A escolha da caderneta como opção prioritária se justifica não só pela carência de Educação Financeira, mas também porque os jovens guardam dinheiro para adquirir bens ou realizar objetivos de curto e médio prazo. Poupar parte da renda para a velhice só começa a figurar como necessidade a partir dos 35 anos.

A reserva que se faz mensalmente para a aposentadoria provavelmente vai ser insuficiente para uma saída precoce do mercado de trabalho. Um cálculo feito no simulador de aposentadoria Target, da Icatu Seguros, mostra que para se aposentar aos 50 anos, a jovem teria que fazer uma aplicação mensal de R$ 1.198 em um plano conservador, acumulando assim R$ 891,7 mil.

O investidor, em qualquer idade, tem de estar atento aos custos. Muitos planos cobram taxas de carregamento e de saída, o que na prática são pedágios para aplicar e resgatar. Como o setor é ainda dominado por gestores de grandes bancos e a maioria tem gestão conservadora em títulos públicos, as taxas acabam corroendo a rentabilidade.

O mercado de previdência se modernizou e os valores mínimos para fazer um plano caíram muito e já é possível acessar a gestão de um multimercado como o Verde, da gestora de Luis Stuhlberger, com uma contribuição mensal de R$ 100.

Na seguradora, a base de clientes jovens já representa 30%, embora em reserva respondam por menos de 7% do bolo. Se no passado esse era um público que estava fora do alvo, a tecnologia quebrou tal barreira. Antes, era caro carregar esse cliente por 10, 20 anos. Agora, com o débito automático e o extrato on-line, ficou mais barato trazer o jovem para essa órbita e com produto bom.

3 thoughts on ““Deus dará… E o Diabo tomará!”

  1. Excelente texto, que vem na mesma linha altamente instrutiva já de outros que apareceram por aqui algum tempo atrás. No entanto tenho umas dúvidsa quanto ao valor necessário ter acumulado no momento da aposentadoria. No simulador 1-3-6-9 aos 65 anos de vida teria que ter acumulado 9 anos de salários, e minha dúvida se isso seria suficiente para manter o mesmo padrão de vida por 20 anos? Isso se pensar que se vá viver até a expectativa média de vida de um japonês.
    Outra dúvida que nestas simulações levam em conta um rendimento real de 6% ao ano, o que convenhamos é muito difícil, uma taxa real de 2% a 3% ao ano não seria mais realista?

    1. Prezado Paulo,
      o futuro é incerto, tanto quanto à longevidade ou esperança de vida, quanto pela taxa de juros. Recorrendo ao passado recente como guia para o futuro, no Brasil, em tese, 6,17% aa sobre a inflação é o que rende os depósitos de poupança.

      Fiz um cálculo rápido com HP: R$ 2.700.000 (PV) propiciaria retiradas mensais de R$ 25.061,97 (PMT) por 240 meses (n) até se exaurir. Isto considerando juros mensais (i) de 0,5%.
      att.

      1. Obrigado pela resposta. O blog é dos melhores, parabéns.

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