Autoengano: Torturar Números para Confessarem “Otimismo”

“Correlação é causalidade”?! Se fosse, a causa do câncer seria beber água, pois todos os seres humanos que morreram de câncer bebiam água… Para sua cura, bastaria não beber água!

Uma coisa que acontece depois da outra não significa que aconteceu por causa da outra, necessariamente. Este é o viés do historicismo: método em que se organiza uma narrativa histórica a partir do ponto-de-chegada. Daí, organiza os fatos, desde certo início, de maneira encadeada, logicamente, em causas-e-efeito, de acordo com hipótese apriorística do historiador. Este não colhe (ou esconde) dados que falseariam sua hipótese. Nesse viés de confirmação — ou auto validação ilusória –, o historiador se transforma em um vidente do passado!

Os romanos chamavam esse método de que o antecedente é causa do subsequente (não necessariamente “consequente”) de “post hoc ergo propter hoc” [“depois disso, logo causado por isso”].

Compare os gráficos acima com o abaixo e indague qual é a correlação maior do PIB: com o investimento (FBCF) ou com o consumo das famílias?

No curto prazo, isto é, em período de mercado, principalmente em situação de excesso involuntário de estoques, a demanda de crédito aparece amplamente como insensível às variações dos custos de juros. No médio prazo, ou seja, período de produção, tal processo, cumulativamente, reverte expectativas, leva à suspensão de decisões de produção, férias coletivas, dispensa de empregados. No longo prazo, dito período de investimento, o aumento da capacidade ociosa provoca adiamento de decisões de investimento, recessão e desemprego. Veja o fluxograma lógico-temporal abaixo:

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Crescimento Sincronizado na OCDE

Josh Zumbrun (Valor, 25/08/17) informa que, pela primeira vez em dez anos, as maiores economias do mundo estão crescendo em sincronia, resultado dos prolongados estímulos proporcionados pelas baixas taxas de juros dos bancos centrais e do gradual diminuição das crises que reverberaram pelo planeta nos últimos anos, desde os EUA e a Grécia até o Brasil.

Todos os 45 países acompanhados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estão no rumo para crescer neste ano, sendo que 33 deles deverão acelerar-se em comparação a 2016, segundo o grupo. É a primeira vez desde 2007 que todos estão em expansão e é o maior número de países em aceleração desde 2010, quando muitos vivenciaram uma recuperação passageira da crise financeira global.

Em julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetava uma expansão de 3,5% da produção econômica global neste ano e de 3,6% em 2018 – de 3,2% em 2016.

Nos últimos 50 anos, foi raro ver um crescimento simultâneo em todos os países acompanhados pela OCDE. Além da década passada, isso aconteceu apenas no fim dos anos 80 e, por poucos anos, antes da crise do petróleo de 1973. Continue reading “Crescimento Sincronizado na OCDE”

Herança Maldita: “Regra de Ouro” das Finanças Públicas

Não bastará a gente brasileira ter de suportar 2,5 anos perdidos na nossa vida nacional à espera do fim do governo mais impopular desde 1985. Seu desastre econômico, político e social ainda deixará herança por muitos anos para ser consertado.

Aliás, o golpe parlamentarista foi dado por isso mesmo: um oportunismo político para derrubar a Presidenta reeleita em 2014 e impor à força do Congresso o programa neoliberal derrotado nas quatro últimas eleições no restante do mandato. E ainda o Poder Judiciário quer finalizar a obra inacabada dos golpistas do Poder Legislativo inviabilizando a candidatura popular do Lula!

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, admitiu (Valor, 22/08/17) que há riscos para o cumprimento da chamada “regra de ouro” das finanças públicas nos próximos anos, caso não sejam feitas reformas estruturais, em especial a da Previdência. “A partir do próximo ano e dos seguintes, precisamos aprovar as reformas. O problema do Brasil é que a maior parte das despesas do Orçamento são definidas pela Constituição”, disse Meirelles, destacando que a parcela de gastos públicos que pode ser contingenciada é menor que 10%. “A margem de manobra é muito pequena. Isto tem que ser alterado para que a regra de ouro, que é fundamental, seja respeitada.”

A “regra de ouro” é o apelido dado ao inciso terceiro do Artigo 167 da Constituição. Ele veda que as operações de crédito do governo (basicamente emissões de títulos) em um ano superem as despesas de capital, essencialmente investimentos, mas que incluem também as tecnicamente chamadas inversões financeiras (como aportes no Minha Casa, Minha Vida) e amortização da dívida federal. Em outras palavras, busca evitar que o governo se endivide para bancar despesas correntes, como salários de servidores e benefícios previdenciários, entre outros.

A equipe econômica deixará como “herança maldita” os riscos de descumprimento dessa determinação constitucional a partir de 2018, por conta da continuidade de elevados déficits e da queda dos investimentos. Um novo governo eleito democraticamente terá de obter uma maioria no Congresso Nacional para mudar toda regra estapafúrdia que imobilizará um Estado desenvolvimentista. Continue reading “Herança Maldita: “Regra de Ouro” das Finanças Públicas”