Plano B

A CNTU colocou em discussão, na sua 11ª Jornada Brasil Inteligente, realizada em 18 de agosto de 2017, no auditório do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), os caminhos para se chegar ao Bicentenário da Independência, em 2022, com empregos decentes e desenvolvimento sustentável. Ciro Gomes falou sobre os entraves que inibem o crescimento brasileiro à abertura da Jornada Brasil Inteligente.

Vale a pena examinar suas ideias. Caso seja dado um golpe judicial na candidatura mais popular do Lula, talvez Ciro Gomes, aliado com o Fernando Haddad, seja a melhor alternativa para os eleitores de centro-esquerda. Anular o voto como forma de protesto contra  o novo golpe na democracia brasileira não me parece ser sensato face à perspectiva de facilitar a eleição de um candidato da direita, seja neoliberal, seja neofascista.

A tarefa de elaborar um projeto de Nação para a economia brasileira voltar a crescer a renda e oferecer empregos, como salientou à abertura a presidente em exercício da entidade, Gilda Almeida, “é fundamental no momento em que o País enfrenta o desemprego crescente e a desindustrialização”. Para ela, à confederação se apresenta o desafio de participar do processo de enfrentamento de políticas errôneas “para sairmos vitoriosos”.

Na sequência, o ex-governador do Ceará e advogado Ciro Gomes fez uma digressão abrangente sobre a situação nacional, fazendo paralelos com outros momentos políticos e econômicos do País.

“Preciso transformar a minha revolta em energia para subverter esse quadro depressivo”, exortou, apontando que o Brasil, hoje, está proibido de crescer por três razões básicas. Ele relacionou:

“Os juros altos que inviabilizam a iniciativa privada, o setor produtivo. O colapso nas finanças públicas com a menor taxa de investimentos desde a Segunda Guerra Mundial. A União vai investir apenas R$ 0,33 para cada R$ 100 do PIB (Produto Interno Bruto); todos os estados e municípios juntos vão investir o equivalente a R$ 1,22 para cada R$ 100 do PIB.

Por outro lado, o governo, com recursos do Tesouro, repassará ao setor financeiro rentista 11% do PIB.

E, por fim, enfrentamos uma interdição que deriva de uma prostração ideológica, vendida como ciência boa, que adotou o neoliberalismo que introduz o mito do laissez-faire, do estado mínimo; aquele que diz que o mercado, funcionando livremente, teria a capacidade de resolver a equação do desenvolvimento do País.”

E completou: “Não há experiência humana, nem teórica nem empírica, que sustente o desenvolvimento apenas pelo espontaneísmo individualista das forças do mercado.”

Enquanto o País abre mão de discutir um projeto de nação, com a preservação do interesse e da soberania nacional, continuou Ciro Gomes, a China, exemplificou, “está investindo um “Brasil” siderúrgico por ano, de olho numa estratégia de dominar o setor no mundo daqui a 10 ou 15 anos”.

O ex-governador lamentou que os chineses já dominem de 15 a 20% do mercado de aços planos brasileiro. “Estamos perdendo o nosso mercado para a aciaria chinesa, e ainda com o custo de frete para atravessar o planeta placas de aço para chegar ao Brasil.”

Para ele, o Brasil abriu mão de projetos econômicos estruturais, como:

  1. políticas industriais e de comércio exterior;
  2. ciência e tecnologia aplicada à inovação e ao desenvolvimento econômico;
  3. infraestrutura que desconsidere o ano fiscal para considerar que os custos de transferência são inerência à competitividade sistêmica da economia.

“Isso significa dizer que não fazemos a manutenção regular de uma rodovia para economizar U$ 10 mil por ano para cinco anos depois gastarmos mais de U$ 70 mil para recuperá-la”, lamentou. Da mesma forma, prosseguiu Ciro Gomes, o País “abriu mão de verticalizar o seu mercado de óleo e gás e hoje exportamos óleo bruto barato e importamos derivados de petróleo em dólar”.

Todavia, asseverou ele, o Brasil, entre 1930 e 1980 saiu do nada, da agricultura da subsistência e de excedentes extraídos da monocultura do café e da cana de açúcar, para se transformar na 15ª economia industrial do planeta.

“A China vai bater esse recorde agora, mas ainda é nosso o vice-campeonato de progresso capitalista e industrial em tão curto tempo.”

Ele ironizou: “Ou seja, não há defeito genético na nação brasileira como essa nossa elite alienada, que pensa que Miami (EUA) é a capital cultural da humanidade, induz a acreditarmos. Quando estabelecemos minimamente uma hegemonia moral e intelectual que guie as nossas energias, produzimos prodígios. Temos na nossa história qual é o tipo de economia política eficaz. Não é copiar nenhum modelo de fora, como está fazendo esse governo autoritário, ilegítimo e golpista que temos hoje.”

A estagnação nacional, segundo ele, começa a partir da década de 1980, quando todas as energias se dedicaram a apagar “fogueiras”, em episódios conjunturais, como o restabelecimento da democracia e o combate às altas taxas de inflação, por exemplo.

Patinamos desde então, observou Ciro Gomes, valendo-se, mais uma vez, da comparação entre o Brasil e a China: “Não conseguimos aumentar a nossa participação no comércio exterior dos 1% verificados há 37 anos; por outro lado, os chineses têm 12,5% de participação, podendo chegar a 20% nos próximos anos.” Tal cenário, que ainda inclui uma média de crescimento econômico nacional de 2% ao ano, mostra, afirmou, que “temos um grave problema de projeto modular, estrutural”.

Outra questão que agrava toda a dificuldade do País em superar seus problemas econômicos é o descaso com a educação. “O Chile e a Colômbia têm mais de 30% dos jovens entre 18 e 25 anos de idade matriculados no ensino superior; com toda a expansão que aconteceu no Brasil temos a ridícula taxa de 16% dos nossos jovens no ensino superior. Isso em pleno século XXI. Não é possível pensar em desenvolvimento com essa base”, criticou Ciro Gomes.

“A gente precisa mobilizar a sociedade para discutir o País antes de qualquer processo eleitoral. Não dá mais para fazer remendos”, condenou. “Precisamos recuperar a capacidade de planejamento. Afirmar objetivos nacionais, gerais e difusos, mas concretos. Estabelecer objetivos permanentes, sustento que esses devem ser a superação da miséria e da desigualdade. E, por fim, definir as práticas.”

Para ele, não é retórica dizer que o “Brasil tem que se decidir a crescer. Hoje a nossa decisão é de não crescer”.

Tal fato, sustentou Ciro Gomes, leva em conta que, desde a desvalorização cambial de 1999, “somos guiados por uma trinca de políticas que tem a pretensão de colocar a administração da economia política brasileira no piloto automático imune ao povo”.  E explicou: “Basicamente, o Brasil obrigou-se a meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. O câmbio flutua hostil a quem produz, desestimula a produção e acaba com a competitividade sistêmica da indústria e estimula o consumismo insustentável.”

De forma contundente, o ex-governador cearense disse que o único caminho para a retomada do crescimento é a reindustrialização. “A participação da indústria brasileira na riqueza brasileira, hoje, que já foi de 30% nos anos 1980, é de apenas 8%, o equivalente ao que era em 1910.”

Com esse perfil, lamentou, “vamos virar apenas exportadores de commodities, que jamais pagarão – ainda que sejamos extraordinários em volume e competitividade na soja, no milho, no petróleo, minérios etc. – celulares, eletroeletrônicos, informática, novos materiais supercondutores, tecnologias ligadas ao moderno modo de vida”.

Ao final da sua exposição, Ciro Gomes parabenizou a CNTU pela iniciativa, a despeito de todo o ataque atual à organização sindical, de colocar de forma oportuna a discussão sobre o Brasil que queremos e precisamos. “Viva a iniciativa de vocês!”

3 thoughts on “Plano B

  1. Bom dia.
    O problema é bem maior do que parece apontar Ciro Gomes, homem reconhecidamente culto, articulado. Nosso problema começa onde a nossa esquerda pensa, historicamente, poder compor com a direita e sair incólume. Repare que Dilma caiu no dia em que levou o Antônio Patriota (?) para a Diplomacia. Levy foi só o coice, pois a queda se deu no início. Ter um Governo de Coalizão não significa juntar cobra com jacaré. E Ciro não seria minha opção. Fui governado por ele, pois sou servidor público cearense e posso dizer que ele não é nada do que parece demonstrar. É um político bem tradicional, digamos assim. Pelo menos não é um “apolítico”, como os Dórias de morte.
    Sim, argumentarão. As pessoas mudam! Ideologicamente? Nem tanto…

    1. Prezado Morvan,
      será que Fernando Haddad conseguirá votação maior em nível nacional? Dependerá da campanha.

      Será que aliando-se a Ciro Gomes, aumentará a chance da esquerda democrática?

      O cenário político da eleição do próximo ano está ainda nebuloso. Teremos de analisar o quadro político à medida que as informações surgirem.
      att.

      1. Boa tarde. Fernando, sequer cogitei Haddad, não por suas qualificações, mas porque não parece ser o ungido, no caso de ‘impedimento’ de Lula. Apostaria mais em Jacques Wagner. E, retornando o problema da desindustrialização, é profundamente difícil reverter isso, num Governo de coalizão.
        Por fim, concordo com você: é prematuro fazer prognóstico, agora. Há muitas variáveis a entrar no jogo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s