Utopia de Thomas More

Thomas More (ou Morus, em latim) defende o Epicurismo, de maneira indireta, através da vida idealizada em uma ilha chamada Utopia, cujos habitantes acham estupidez não procurar o prazer por todos os meios possíveis. A virtude, para eles, consiste em escolher entre duas volúpias, a mais deliciosa, a mais picante. E fugir dos prazeres a que se seguissem dores mais vivas do que o gozo que tivessem proporcionado.

Epicurismo é um sistema filosófico, que prega a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de sofrimento corporal pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos. No entanto, quando os desejos são exacerbados, podem ser fonte de perturbações constantes, dificultando o encontro da felicidade que é manter a saúde do corpo e a serenidade do espírito.

Epicurismo é um sistema criado por um filósofo ateniense chamado Epicuro de Samos no século IV a.C. Existem vários fundamentos básicos do epicurismo, porém, se distingue o desejo para encontrar a felicidade, buscar a saúde da alma, lembrando que o sentido da vida é o prazer, objetivo imediato de cada ação humana considerando sem sentido as angústias em relação à morte e a preocupação com o destino.

Os seguidores do epicurismo são chamados de epicuristas e, de acordo com o sistema filosófico, devem procurar evitar a dor e as perturbações, levar uma vida longe das multidões (mas não solitário), dos luxos excessivos, se colocando em harmonia com a natureza e desfrutando da paz.

Outro valor defendido pelo epicurismo e seus defensores é a amizade. A amizade traz uma grande felicidade para as pessoas, já que a convivência pode ocasionar uma troca saudável de pensamentos e opiniões enriquecedoras.

Segundo Epicuro, o criador do epicurismo, as pessoas não podem viver de forma agradável se não forem prudentes, gentis com os outros e justas em suas atitudes e pensamentos sem viver prazerosamente. As virtudes então devem ser praticadas como garantia dos prazeres.

Praticar virtudes severas, renunciar aos prazeres da vida, sofrer voluntariamente a dor e nada esperar depois da morte em recompensa às mortificações da terra seria o cúmulo da loucura para os utopianos. Em última análise, reduzem todas as ações e todas as virtudes à finalidade do prazer e entendem a volúpia como todo estado ou movimento da alma e do corpo, no qual o homem experimenta deleite natural.

Por isso, o ser humano deveria compreender os bens que podem ser procurados sem injustiça, os gozos que não privem de um prazer mais vivo e não acarretem nenhum mal. Bens da moda são desejados porque outros já os possuem, ou seja, por inveja: querer ter igual aos outros. Bens esnobes são desejados porque os outros não os possuem, devido ao desejo de ser diferente, exclusivo, de se “destacar da multidão” pelo gosto peculiar. Bens de consumo conspícuo são facilmente notados e desejados na medida em que são reconhecidos como caros.

Bens básicos são sui generis, isto é, não fazem parte de outro bem. São indispensáveis já que são necessidades (condições sine qua non) de modo que qualquer pessoa que não os possua tem perda ou danos sérios. São finais, ou seja, bons em si mesmo e não apenas como um meio para alcançar outro bem. Finalmente, são universais, pois pertencem à vida boa de maneira geral, não apenas a algum conceito particular e local da vida boa.

Bens básicos pela qualidade e não em função da quantidade. Não são avaliados por estatística, pois bens básicos são objetos de discernimento, não de medição. A publicidade bombardeia a mensagem de que tudo é ou poderia ser tratado como um bem essencial.

Bens essenciais são saúde (sem impedimento do corpo), segurança (sem perturbação por violência física ou econômica), personalidade (espaço privado para se assumir), respeito (mútuo, tolerância, civilidade), harmonia com a natureza, amizade (afeto desinteressado, com igualdade e solidariedade), e lazer (atividade criativa em lugar de trabalho ou descanso alienantes).

Humanista típico, Thomas More sintetiza na Utopia o paganismo do pensamento clássico grego com a concepção de vida do cristianismo. A Utopia constitui expressão do desejo de reforma de toda a vida social, política e religiosa dos europeus do século XVI, com o Renascimento. É o livro matriz de outras tentativas de retratar uma sociedade ideal.

Em 1516, More contrapõe ao nascente capitalismo comercial uma sociedade ideal comunista. Para abolir a ideia da propriedade individual e absoluta, os utopianos trocam de casa a cada dez anos e tiram a sorte da que lhes deve caber nas partilhas periódicas. Não se exige qualquer espécie de pagamento, seja em dinheiro, seja em outras mercadorias, no mercado que atende à subsistência por oferta dos diferentes produtos por todas as famílias.

Os habitantes da Utopia professam várias religiões. Apesar dessa diversidade, os adeptos das diferentes seitas não entram em conflito e todas as crenças são integralmente respeitadas. O Estado não impõe nenhum credo e assegura a tolerância religiosa.

Quanto à organização política, a Utopia regula-se por um regime democrático, com um sistema completo de eleição dos magistrados até a autoridade máxima do príncipe, de forma a não permitir o abuso de autoridade. Muitas das principais instituições têm por finalidade impedir por todos os meios a possibilidade de os governantes conspirarem contra a liberdade, oprimirem o povo com leis tirânicas ou mudar a forma de governo.

Na verdade, mediante sua apresentação como uma sociedade imaginária, ou melhor, ideal, o autor da Utopia se permitia criticar os regimes políticos existentes sem correr perigo de censura. A Utopia, nesse sentido, é uma crítica à realidade!

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