Das Relações Mútuas Entre Os Cidadãos

Agora passo a expor as ideias de Thomas More, autor do livro Utopia (1516), sobre as relações dos cidadãos entre si, seu comércio e a lei da distribuição das coisas necessárias à vida.

A cidade inteira se divide em quatro quarteirões iguais. No centro de cada quarteirão, encontra-se o mercado das coisas necessárias à vida. São depositados aí os diferentes produtos do trabalho de todas as famílias. Esses produtos, depositados primeiramente nos entrepostos, são em seguida classificados nas lojas de acordo com sua espécie.

Cada pai de família vai procurar no mercado aquilo de que tem necessidade para si e os seus. Tira o que precisa sem que seja exigido dele nem dinheiro nem troca.

Jamais se recusa alguma coisa aos pais de família. A abundância sendo extrema, em todas as coisas, não se teme que alguém tire além de sua necessidade.

De fato, aquele que tem a certeza de que nada faltará jamais, não procurará possuir mais do que é preciso. O que torna, em geral, os animais cúpidos e rapaces é o temor das privações no futuro. No animal humano em particular, existe uma outra causa de avarezao orgulho, que o excita a ultrapassar em opulência os seus iguais e a deslumbrá-los pelo aparato de um luxo supérfluo.

Mas as instituições utopianas tornam este vício impossível.

Os mercados de que acabo de falar estão juntos dos mercados de comestíveis, onde se depositam os legumes, as frutas, o pão, o peixe, as aves domésticas e as partes de se comer dos animais quadrúpedes.

Fora da cidade, existem os matadouros onde se abatem os animais destinados ao consumo. Esses matadouros são mantidos sempre limpos graças a correntes de água que arrastam o sangue e as imundícies dos animais. É daí que é levada ao mercado a carne limpa e retalhada pelas mãos dos escravos.

A lei proíbe aos cidadãos o ofício de carniceiro, temerosa que o hábito da matança destrua pouco a pouco o sentimento de humanidade, o sentimento mais nobre do coração do homem. Esses açougues são situados fora da cidade no intuito de evitar também aos cidadãos um espetáculo hediondo, ao mesmo tempo que desembaraça a cidade das sujeiras e matérias animais cuja putrefação poderia provocar moléstias.

Os provedores se reúnem no mercado a uma hora fixa e requerem uma quantidade de víveres proporcional ao número de bocas que têm de nutrir. Começa-se sempre por servir os doentes, que são alojados em enfermarias públicas.

(…)

Uma trombeta marca a hora das refeições. Então toda a sifograntia encaminha-se para o refeitório comum, com exceção dos indivíduos acamados em casa ou no hospital. É permitido ir ao mercado à procura de víveres para o consumo particular, mas só depois que as mesas públicas estiverem completamente providas. Os utopianos, porém, não se utilizam jamais desse direito, a não ser por graves motivos: se cada qual é livre de comer em sua casa, ninguém encontra prazer em fazê-lo. Ademais, seria loucura dar-se ao trabalho de preparar um mau jantar, quando se pode ter um bem melhor a alguns passos.

Os escravos são encarregados dos trabalhos de cozinha mais sujos e penosos.

As mulheres cozinham os alimentos, temperam os guisados e servem e tiram as mesas. Revezam-se nestes misteres, família por família.

Preparam-se três mesas ou mais, de acordo com o número de convivas. Os homens assentam-se do lado da parede; as mulheres ficam dispostas em frente, a fim de que, se alguma for acometida de uma indisposição súbita, o que acontece frequentemente às mulheres grávidas, possam se retirar sem incomodar ninguém, e ir para os aposentos das amas.

As amas se sentam à parte com as crianças de peito, em salas particulares, sempre aquecidas e providas de água limpa e berços; desta maneira elas podem deitar as criancinhas, desenfaixá-las e fazê-las brincar próximo do fogo.

Cada mãe aleita seu filho, exceto em caso de morte ou de doença. Nestes dois casos, as mulheres dos filarcas procuram imediatamente uma ama, o que não é difícil encontrar. As mulheres em situação de prestar este serviço são as primeiras a se oferecer. Aliás, esta função é uma das mais honrosas, e a criança pertence tanto à sua ama de leite como à sua mãe. (…)

Os almoços e os jantares começam pela leitura de um livro de moral; esta leitura é breve para que não aborreça. Quando terminada, os mais idosos encetam conversações honestas, mas cheias de jovialidade e alegria. Longe de falar exclusivamente, eles gostam de escutar os jovens; provocam mesmo seus repentes, a fim de apreciar-lhes a natureza do caráter e do espírito. Ao calor e liberdade reinantes nas horas de refeição, essa natureza facilmente se trai.

O almoço é rápido; a ceia é demorada; porque ao almoço seguem-se os trabalhos, enquanto que depois da ceia, vêm o sono e o repouso da noite. Ora, os utopianos acreditam que o sono da noite é mais favorável do que o trabalho a uma boa digestão. A ceia não se realiza sem música e sem uma sobremesa copiosa e delicada. Os perfumes, as essências mais recendentes, nada é poupado para o bem-estar e o gozo dos convivas. Poder-se-á, talvez, por isto, acusar os utopianos de uma tendência excessiva ao prazer? Eles têm por princípio que a volúpia que não engendra nenhum mal é perfeitamente legítima.

É assim que vivem entre si os utopianos das cidades. Aqueles que trabalham no campo estão muito apartados uns dos outros para comer em comum; tomam suas refeições em casa, individualmente. De resto, as famílias agrícolas têm assegurada uma alimentação abundante e variada. Nada lhes falta: não são elas as provedoras, as mães nutrizes das cidades?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s