Da Economia dos Utopianos

Toda a república utopiana é como uma única e mesma família, afirma Thomas Morus no livro “Utopia” (1516).

A ilha é sempre abastecida por dois anos, na incerteza de uma boa ou má colheita para o ano seguinte. Exportam-se para fora da ilha os gêneros supérfluos, tais como trigo, mel, lã, linho, madeiras, matérias para tinturas, peles, cera, sebo, animais.

A sétima parte dessas mercadorias é distribuída aos pobres do país para onde se exporta. O resto é vendido a um preço moderado. Este comércio permite à Utopia importar não somente objetos de necessidade, o ferro, por exemplo, como, também, uma massa considerável de ouro e prata.

Desde que os utopianos praticam este negócio que acumularam uma quantidade incrível de riquezas. É por isso que lhes é indiferente, hoje, vender a vista ou a prazo.

Habitualmente, recebem vales em pagamento, mas não se fiam em assinaturas individuais. Os vales devem estar revestidos das formas legais e garantidos à fé e selo da cidade que os aceita. No dia do vencimento, a cidade signatária exige o reembolso aos devedores particulares. O dinheiro é depositado no tesouro público e o seu valor é garantido até que os credores utopianos o reclamem.

Estes não reclamam quase nunca o pagamento da dívida inteira. Acreditariam cometer uma injustiça, tirando a um outro uma coisa que lhe é necessária e que para ele é inútil.

Entretanto, há casos em que retiram toda a soma que lhes é devida, Isto acontece quando querem se servir desta para emprestar a uma nação vizinha ou para empreender uma guerra.

Neste último caso, juntam todas suas riquezas para fazer como que uma trincheira de metal contra os perigos urgentes e imprevistos. Estas riquezas são destinadas a engajar e a pagar copiosamente as tropas estrangeiras, porque o governo da Utopia prefere expor à morte os estrangeiros que os seus cidadãos.

Ele sabe também que o inimigo mais encarniçado se vende algumas vezes, se o preço da venda está à altura de sua cobiça. Sabe que, em geral, o dinheiro é o nervo da guerra, quer para comprar traições, quer para combater abertamente.

Para tais fins, os utopianos têm sempre à sua disposição imensos tesouros. Mas, longe de conservá-los com uma espécie de culto religioso, como fazem outros povos, eles os empregam em coisas que mal ouso dizer-vos.

Temo que não acrediteis, pois eu mesmo, confesso-vos francamente, se não tivesse visto a coisa não acreditaria sobre palavra. Isto é muito natural. Quanto mais os costumes estrangeiros são opostos aos nossos, menos estamos dispostos a acreditar neles.

Contudo, o homem sábio que julga judiciosamente, ao saber que os utopianos pensam e agem de modo exatamente contrário aos outros povos, não se surpreenderá que eles empreguem o ouro e a prata de modo inteiramente diverso de nós. Na Utopia não se utiliza jamais dinheiro em moeda nas transações mútuas. São elas reservadas para os acontecimentos críticos sempre possíveis, ainda que incertos.

O ouro e a prata não têm, nesse país, mais valor do que lhes deu a natureza.

Esses dois metais são ali considerados bem abaixo do ferro, o qual é tão necessário ao homem quanto a água e o fogo. Com efeito, o ouro e a prata não têm nenhuma virtude, nenhum uso, nenhuma propriedade cuja privação acarrete um inconveniente natural e verdadeiro. Foi a loucura humana que pôs tanto valor em sua raridade.

A natureza, esta excelente mãe, escondeu-os em grandes profundidades, como produtos inúteis e vãos, enquanto que expõe a descoberto a água, o ar, a terra, e tudo o que há de bom e realmente útil.

Os utopianos não escondem seus tesouros nas torres, ou em outros lugares fortificados e inacessíveis. O vulgo, em uma extravagante malícia, poderia suspeitar que o príncipe e o senado enganassem o povo, enriquecendo-se e pilhando a fortuna pública.

Com o ouro e a prata não se fabricam nem vasos, nem obras artisticamente trabalhadas. Porque, se houvesse necessidade de um dia fundi-los, para pagar o exército em caso de guerra, os que tivessem posto sua afeição e suas delícias nesses objetos de arte e de luxo, sentiriam, ao perdê-los, uma dor amarga.

A fim de prevenir esses inconvenientes, os utopianos imaginaram um uso perfeitamente em harmonia com o restante de suas instituições, mas em completo desacordo com as do nosso continente, onde o ouro é adorado como um Deus, procurado como o bem supremo.

Eles comem e bebem em louça de barro ou vidro, que se é elegante na forma, é, no entanto, despida do menor valor. O ouro e a prata são destinados aos usos mais vis, tanto nas residências comuns, como nas casas particulares. São feitos com eles até os vasos [sanitários] noturnos. Forjam-se cadeias e correntes para os escravos, e marcas de opróbrio para os condenados que cometeram crimes infames. Estes últimos levam anéis de ouro nos dedos e nas orelhas, um colar de ouro no pescoço, um freio de ouro na cabeça.

Assim, tudo concorre para manter o ouro e a prata na ignominia. Entre outros povos a perda da fortuna é um sofrimento tão cruel como um dilaceramento de entranhas. Mas quando se arrancasse à nação utopiana todas suas imensas riquezas ninguém pareceria ter perdido um cêntimo.

Os utopianos recolhem pérolas na sua costa, diamantes e pedras preciosas em certos rochedos. Sem ir à cata desses objetos raros, eles gostam de polir os que a sorte os presenteia, a fim de adornar os seus filhinhos, que ficam todo orgulhosos de trazer esses ornamentos.

Mas, à medida que crescem, percebem logo que estas frivolidades não convêm senão às crianças pequenas. Então, não esperam pela observação dos pais. Espontaneamente e por amor próprio livram-se desses enfeites. É como entre nós, quando as crianças que vão crescendo, abandonam as bolas e as bonecas.

Estas instituições, tão diferentes das dos outros povos, gravam no coração do utopiano sentimentos e ideias inteiramente contrárias às nossas.

(…)

Os utopianos admiram-se de que seres razoáveis possam se deleitar com a luz incerta e duvidosa de uma pedra ou de uma pérola, quando têm os astros e o sol com que encher os olhos.

Encaram como louco aquele que se acredita mais nobre e mais estimável só porque está coberto de uma lã mais fina, lã tirada das costas de um carneiro, e que foi usada primeiro por este animal.

Admiram-se que o ouro, inútil por sua própria natureza, tenha adquirido um valor fictício tão considerável que seja muito mais estimado do que o homem, ainda que somente o homem lhe tenha dado este valor e dele se utilize, conforme seus caprichos.

Espantam-se também que um rico, de inteligência de chumbo, estúpido como uma acha de lenha, tão tolo quanto imoral, mantenha em sua dependência uma multidão de homens sábios e virtuosos, apenas porque a sorte lhe deixou algumas pilhas de escudos.

Mas, dizem, a fortuna pode traí-lo e a lei (que tanto quanto a sorte precipita frequentemente o homem do pináculo ao lodo) pode arrancar-lhe o dinheiro, fazendo-o passar às mãos do mais ignóbil de seus lacaios. Então, este mesmo rico se sentirá feliz em passar também, na companhia de seu dinheiro, a serviço de seu antigo criado.

Há uma outra loucura que os utopianos detestam ainda mais, e que dificilmente concebem, é a loucura dos que rendem homenagens quase divinas a um homem porque é rico, sem serem, entretanto, nem seus devedores nem seus súditos. Os insensatos sabem, não obstante, como é sórdida a avareza desses Cresos egoístas. Sabem, perfeitamente, que nunca terão um vintém de todos os tesouros destes últimos.

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