Da Sabedoria dos Utopianos

Nossos insulares da Utopia, segundo Thomas Morus, adquirem tais sentimentos de desprezo da riqueza, parte no estudo das letras, parte na educação que recebem no seio de uma República cujas instituições são formalmente opostas a todas as nossas espécies e gêneros de extravagância.

É verdade que um número muito pequeno é dispensado dos trabalhos materiais [manuais], entregando-se exclusivamente à cultura do espírito. São, como já disse, aqueles que, desde a infância, demonstraram aptidões raras, um gênio penetrante, vocação científica. Mas nem por isso se deixa de dar uma educação liberal a todas as crianças. E a grande massa dos cidadãos – homens e mulheres – consagra, cada dia, seus momentos de repouso e liberdade aos trabalhos intelectuais.

Os utopianos aprendem as ciências em sua própria língua, rica e harmoniosa intérprete fiel do pensamento. Ela é difundida, mais ou menos alterada, sobre uma grande extensão do globo.

Os utopianos nunca tinham ouvido falar de filósofos tão famosos no mundo. Entretanto, fizeram as mesmas descobertas que os visitantes estrangeiros, no terreno da música, da aritmética, da dialética, da geometria.

Se igualam em quase tudo aos antigos, são bastante inferiores aos dialéticos modernos, porque ainda não inventaram nenhuma dessas regras sutis de restrição, amplificação, suposição, que se ensinam à juventude nas Escolas de Lógica. Ainda não aprofundaram as ideias de fontes secundárias. Quanto ao Homem Universal, segundo a gíria metafísica, este colosso, o maior dos gigantes, que nos mostram aqui, ninguém na Utopia pode ainda percebê-lo.

Em compensação, conhecem de uma maneira precisa o curso dos astros e o movimento dos corpos celestes. Imaginaram máquinas que representam com grande exatidão os movimentos e as posições respectivas do sol e da lua e dos astros visíveis acima do seu horizonte.

Quanto aos ódios e às amizades dos planetas e às demais imposturas de adivinhação pelo céu, nem mesmo em sonhos disso se ocupam. Sabem prever, por indícios confirmados por uma longa experiência, a chuva, o vento e as outras revoluções do ar. Fazem apenas conjecturas sobre as causas desses fenômenos, sobre o fluxo e o refluxo do mar, sobre a composição salina dessa imensa massa líquida, a origem e a natureza do céu e do mundo.

Seus sistemas coincidem em certos pontos com os dos nossos antigos filósofos. Em outros, se afastam. Mas, nas novas teorias que imaginaram, há dissidências entre eles, como entre nós.

Em Filosofia Moral, agitam as mesmas questões que os nossos doutores.

Procuram na alma do Homem, no seu corpo e nos objetos exteriores, o que pode contribuir para sua felicidade. Perguntam, procuram saber se o nome de Bem convém indiferentemente a todos os elementos da felicidade material e intelectual, ou só ao desenvolvimento das faculdades do espírito. Dissertam sobre a virtude e o prazer, mas a primeira e principal de suas controvérsias tem por fito determinar a condição única, ou as diversas condições da felicidade do homem.

Talvez possais acusá-los de propender demais para o epicurismo, porque, se a volúpia não é, para eles, o único elemento da felicidade, é um dos mais essenciais. E, fato singular, invocam em apoio dessa moral voluptuosa a religião tão grave e severa, tão triste e rígida. Têm por princípio não discutir jamais sobre o bem e o mal, sem partir dos axiomas da religião e da filosofia, de outra maneira, temeriam raciocinar em bases falhas e edificar falsas teorias.

Eis aqui seu catecismo religioso: “A alma é imortal: Deus que é bom, criou-a para ser feliz”. Depois da morte, as recompensas coroam a virtude, suplícios atormentam o crime.

Embora esses dogmas pertençam à religião, os utopianos pensam que a razão pode induzir a crer neles e aceitá-los. Não hesitam em declarar que, na ausência desses princípios, fora preciso ser estúpido para não procurar o prazer por todos os meios possíveis, criminosos ou legítimos.

A virtude consistiria, então, em escolher, entre duas volúpias, a mais deliciosa, a mais picante. E em fugir dos prazeres a que se seguissem dores mais vivas do que o gozo que tivessem proporcionado.

Mas praticar virtudes severas e difíceis, renunciar aos prazeres da vida, sofrer voluntariamente a dor e nada esperar depois da morte em recompensa às mortificações da terra, é, aos olhos dos nossos insulares, o cúmulo da loucura.

A felicidade, dizem, não está em toda espécie de voluptuosidade. Está unicamente nos prazeres bons e honestos. É para esses prazeres que tudo, até a própria virtude, arrasta irresistivelmente a nossa natureza. São eles que constituem a felicidade.

Os utopianos definem a virtude: viver segundo a natureza. Deus, criando o homem, não lhe deu outro destino.

O homem que segue o impulso da natureza, é aquele que obedece à voz da razão, em seus ódios e seus apetites. Ora, a razão inspira, em primeiro lugar, a todos os mortais o amor e a adoração da majestade divina, à qual nós devemos o ser e o bem-estar. Em segundo lugar, ela nos ensina e nos instiga a viver alegremente e sem lamentações, e a proporcionar aos nossos semelhantes, que são nossos irmãos, os mesmos benefícios.

De fato, o mais enfadonho e o mais fanático zelador da virtude, o inimigo mais odiento do prazer, ao vos propor imitar seus trabalhos, suas vigílias e mortificações, ordena-vos, também, mitigar, com todas as vossas forças, a miséria e as aflições dos outros. Esse moralista severo cumula de elogios, em nome da humanidade, o homem que consola e que salva o homem. Crê, assim, que a virtude mais nobre e mais humana, em qualquer terreno consiste em suavizar os sofrimentos do próximo, arrancá-lo ao desespero e à tristeza, restituir-lhe as alegrias da vida, ou, em outros termos, fazê-lo ter parte também na volúpia.

E por que a natureza não induziria cada um de nós a se fazer, a si mesmo, o mesmo bem que aos outros? Pois, das duas uma: ou uma existência agradável, isto é, a volúpia, é um bem ou um mal.

  • Se é um mal, não somente não se deve ajudar seus semelhantes a fruí-la, mas ainda deve-se arrancá-la como coisa perigosa e condenável.
  • Se é um bem, pode-se e deve-se procurá-la para si próprio como para os outros.

Por que iríamos ter menos compaixão de nós do que dos outros? A natureza, que inspira em nós a caridade por nossos irmãos, não ordena que sejamos cruéis conosco mesmos.

Eis o que leva os utopianos a afirmarem que uma vida honestamente agradável quer dizer que a volúpia é o fim de todas as nossas ações; que tal é a vontade da natureza e que obedecer a esta vontade é ser virtuoso.

A natureza, dizem eles, convida todos os homens a se ajudarem mutuamente e a partilharem em comum do alegre festim da vida. Este preceito é justo e razoável, pois não há indivíduo tão altamente colocado acima do gênero humano que somente a Providência deva cuidar dele.

A natureza deu a mesma forma a todos. Aqueceu-os todos com o mesmo calor, envolve todos com o mesmo amor. O que ela reprova, é aumentar o próprio bem-estar agravando a infelicidade de outrem.

É por isto que os utopianos pensam que é necessário observar não só as convenções privadas entre simples cidadãos, mas ainda as leis públicas, que regulam a distribuição das comodidades da vida, em outros termos, que distribuem a matéria do prazer, quando estas leis foram justamente promulgadas por um bom príncipe, ou sancionadas pelo consentimento geral de um povo, nem oprimido pela tirania, nem embaído pelo artifício.

A sabedoria reside em procurar a felicidade sem violar as leis. A religião é trabalhar pelo bem geral. Calcar aos pés a felicidade de outrem, em busca da sua, é uma ação injusta.

Ao contrário, privar-se de algum prazer, para comunicá-lo a outrem, é indício de um coração nobre e humano, e que, aliás, torna a achá-lo muito superior ao prazer sacrificado. Primeiro que tudo, esta boa ação é recompensada pela reciprocidade dos serviços. Em seguida, o testemunho da consciência, a lembrança e o reconhecimento dos que foram obsequiados causam à alma delícia maior que não poderia ter dado ao corpo o objeto de que se foi privado.

Finalmente, o homem que tem fé nas verdades religiosas, deve estar firmemente persuadido de que Deus recompensa a privação voluntária de um prazer efêmero e passageiro, com alegrias inefáveis e eternas. Assim, em última análise, os utopianos reduzem todas as ações e mesmo todas as virtudes ao prazer, como finalidade.

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