Do avarento

Os utopianos, habitantes da ilha Utopia, na concepção de Thomas More, em 1516, chamam volúpia todo o estado ou todo movimento da alma e do corpo, nos quais o homem experimenta uma deleitação natural.

Não é sem razão que eles acrescentam a palavra natural, porque não é semente a sensualidade, é também a razão que nos atrai para as coisas naturalmente deleitáveis. Por isto, devemos compreender os bens que se podem procurar sem injustiça, os gozos que não privem de um prazer mais vivo e que não arrastem consigo nenhum mal.

coisas fora da natureza, que os homens, por uma convenção absurda, intitulam prazeres (como se tivessem o poder de transformar a essência tão facilmente como modificam as palavras). Essas coisas, longe de contribuir para a felicidade, são outros tantos obstáculos em seu caminho. Aos que seduzem, elas impedem gozarem satisfações puras e verdadeiras, viciam o espírito, preocupando-o com a ideia de um prazer imaginário.

Há, com efeito, uma quantidade de coisas, às quais a natureza não juntou nenhuma doçura, as quais ela chegou até a misturar de amargura. No entanto, os homens as olham como altas volúpias de algum modo necessárias à vida, apesar de, na sua maioria, serem essencialmente más e só estimular as paixões perversas.

Os utopianos classificam nessa espécie de prazeres bastardos, a vaidade daqueles que se crêem melhores porque usam uma roupa mais bonita. A vaidade desses tolos é duplamente ridícula. Continue reading “Do avarento”