Defasagem da Política Monetária

Já disse inúmeras vezes neste modesto blog pessoal que o retardo da queda da taxa de juro Selic, ocorrida só a partir de outubro de 2016, muito após queda da taxa de inflação em fevereiro de 2016, elevou a taxa de juro real de menos do que 4% aa para quase 8% aa. A diretoria do Banco Central do Brasil (BCB) deveria se declarar impedida de elevar os juros por conflito de interesses, isto é, “legislar em causa própria”.

Esse conflito distributivo entre renda do trabalho (desemprego) e renda do capital financeiro (eutanásia do rentista pela inflação) não é “neutro”, pois resulta em maior concentração de riqueza financeira. Com a Selic acumulada de 14% no ano de 2016:

  1. o varejo tradicional (6,5 milhões de contas FIFs e TVMs) elevou em R$ 2.804 sua riqueza per capita (para R$ 49.213);
  2. o varejo de alta renda (3,5 milhões de contas) elevou em R$ 10.652 sua riqueza per capita (para R$ 174.445);
  3. o Private Banking (112 mil CPFs), enquanto isso, elevou em R$ 939 mil (quase um milhão de reais) sua riqueza per capita, atingindo R$ 7,422 milhões per capita. Isto em um ano de queda de -4,4% na renda per capita.

A elevação percentual da riqueza financeira dos ricaços foi exatamente 14%, enquanto a da classe média baixa foi 6% e a da alta, 7%.

Por causa disso, fiquei curioso quando vi quadros da PUC-Rio assinando artigo (Valor, 29/09/17) em que também denunciam que “modelos do BCB erram, em média, mais que os de O Mercado”. Qual modelo é pior? 🙂

Ricardo de Menezes Barboza é mestre em macroeconomia e finanças pela PUC-Rio, mestre em economia pela UFRJ e professor colaborador do Instituto Coppead. João Marco Cunha é mestre em economia pela FGV-Rio e doutor em engenharia elétrica pela PUC-Rio. Reproduzo o artigo abaixo. Continue reading “Defasagem da Política Monetária”

Vossos Velhos da Dayse Torres na Final do Prêmio Jabuti!

O Prêmio Jabuti, principal troféu literário do país, divulgou ontem (03/10/17), a lista de livros que concorrem à sua final. A categoria romance mostra uma hegemonia da Companhia das Letras -que tem crescido nos prêmios literários deste ano, em especial nesse gênero. Sete dos dez selecionados são da editora.

Entre os selecionados, está “Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas”, de Elvira Vigna, escritora morta em julho que era uma das principais vozes da literatura contemporânea brasileira.

Com ela, concorrem o escritor Cristovão Tezza, com “A Tradutora” (Record), e Bernardo Carvalho, com “Simpatia pelo Demônio” (Companhia das Letras). Ambos são colunistas da Folha.

Na lista também aparecem “Descobri que Estava Morto” (Tusquets), de João Paulo Cuenca, e “Machado” (Companhia das Letras), de Silviano Santiago, entre outros. A única casa menor é a @linkeditora, cujo romance “Tristorosa”, de Eugen Weiss, foi eleito.

Já em outras categorias importantes há mais diversidade. Em contos e crônicas, concorrem a “Caixa Rubem Braga” (Autêntica), com crônicas organizadas por André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda e Carlos Didier; “Sul” (ed. 34), de Veronica Stigger; “Trinta e Poucos” (Companhia das Letras), de Antonio Prata (também colunista da Folha); e “Vossos Velhos“, de Dayse Torres, em edição do autor.

Dayse Torres é minha companheira e/ou esposa há 33 anos! Estou muito orgulhoso!

Fernando e Dayse – 1985

Leia mais:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2016/11/23/vossos-velhos/

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Aumentar a Igualdade de Oportunidades

Naercio Menezes Filho é professor titular, Cátedra IFB, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, professor associado da FEA-USP e membro da Academia Brasileira de Ciências. Publicou artigo (Valor, 22/09/17) sobre “a ficha que caiu”: a desigualdade na distribuição da renda do trabalho diminuiu um pouco, porém a concentração da renda do capital, em especial, da riqueza financeira — e talvez da imobiliária — se elevou. Uma coisa é a pobreza, outra é a desigualdade. O combate à primeira não necessariamente altera a segunda. Reproduzo-o abaixo.

“Um estudo divulgado recentemente aparentemente mostra que a desigualdade no Brasil não teria diminuído nos últimos anos: Extreme and Persistent Inequality New Evidence for Brazil – MARC MORGAN WID WP 2017-12. Se isso for verdade, um dos principais legados do período em que o PT permaneceu no governo federal não teria realmente ocorrido. Mas parece claro que o padrão de vida dos mais pobres realmente cresceu bastante na última década. Afinal, o que aconteceu com a desigualdade de renda no Brasil nos últimos 15 anos?

Na verdade, não existe somente uma medida de desigualdade de renda, existem várias. Cada medida tem um foco diferente e deve ser escolhida dependendo do fenômeno que se pretende analisar. Tradicionalmente usamos o índice de Gini, mas podemos também analisar a parcela da renda apropriada pelos mais ricos, pela classe média e pelos mais pobres. Além disso, podemos examinar somente o que aconteceu com a desigualdade da renda do trabalho ou incluir também rendimentos oriundos do capital.

No caso brasileiro, o tipo de renda e a medida utilizada faz muita diferença para uma interpretação correta dos resultados. Por exemplo, se utilizarmos somente a renda obtida no mercado de trabalho (salários) a desigualdade realmente declinou, qualquer que seja a medida utilizada. As análises que utilizam as pesquisas domiciliares do IBGE (amplamente divulgadas) mostram isso claramente. Continue reading “Aumentar a Igualdade de Oportunidades”