Queda da Inflação: Redução dos Preços de Alimentos no Domicílio

O boxe do Relatório de Inflação do Banco Central do Brasil divulgado em setembro de 2017, sob o título acima, analisa o comportamento recente da taxa de inflação. Sua grande queda foi provocada pela Grande Depressão ou pela superação da Grande Seca, com uma grande safra de alimentos, decorrente de fator climático benigno no ano corrente? Se foi isso, o BCB confessa ter cometido uma “barbeiragem na política monetária” com overdose de juros para combater quebra de oferta por acidentalidade climática!

A inflação em doze meses, medida pelo IPCA, registrou forte ciclo de aceleração e arrefecimento nos últimos anos, quando avançou de 6,41%, em dezembro de 2014, para 10,71%, em janeiro de 2016, e recuou para 2,46%, em agosto de 2017 (Gráfico 1). Nesse contexto, este boxe analisa o recente ciclo de inflação com base em estimativas de persistência, que permitem comparar a velocidade de ajuste dos preços dos segmentos do IPCA após a incidência de choques.

A persistência da inflação de um determinado setor pode ser calculada pela soma dos componentes autoregressivos. Quanto maior a dependência da série em relação às suas próprias defasagens, maior sua persistência.

Foram estimadas a persistência de:

  1. a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA);
  2. a inflação dos segmentos alimentação no domicílio, monitorados, bens industriais e serviços; e
  3. a média das medidas de núcleo de inflação calculadas pelo Banco Central.

As estimativas mencionadas encontram-se no Gráfico 2 (eixo horizontal), que relaciona estes resultados com as respectivas médias mensais da aceleração inflacionária ocorridas de dezembro de 2014 a janeiro de 2016. No Gráfico 3, encontra-se a comparação entre a persistência e a desinflação mensal média observada de janeiro de 2016 a agosto de 2017.

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Ciclos de Aperto e Frouxidão Monetária: EUA-Brasil “iguais e contrários”?

Reafirmo, insistentemente, que por má-fé (ou crença) interesseira ocorreu o retardo da queda da taxa de juro Selic, ocorrida só a partir de outubro de 2016, muito após queda da taxa de inflação em fevereiro de 2016. Com isso, houve a elevação da taxa de juro real de menos do que 4% aa para quase 8% aa. A diretoria do Banco Central do Brasil deveria se declarar impedida de elevar os juros por conflito de interesses, isto é, “legislar em causa própria”.

Esse conflito distributivo não é “neutro”, pois resulta em maior concentração de riqueza financeira. Por exemplo, com a Selic acumulada de 14% no ano de 2016, o varejo tradicional (6,5 milhões de contas FIFs e TVMs) elevou em R$ 2.804 sua riqueza per capita (para R$ 49.213); o varejo de alta renda (3,5 milhões de contas) elevou em R$ 10.652 sua riqueza per capita (para R$ 174.445). Essa classe média desconhece que o Private Banking (112 mil CPFs), enquanto isso, elevou em R$ 939 mil (quase um milhão de reais) sua riqueza per capita, atingindo R$ 7,422 milhões per capita. Isto em um ano de queda de -4,4% na renda per capita. A elevação percentual da riqueza financeira dos ricaços foi exatamente 14%, enquanto a da classe média baixa foi 6% e a da alta, 7%.

O grande aumento do déficit nominal foi devido à elevação disparatada da taxa de juros no Brasil. A prova disso está se confirmando agora, quando tanto o custo de carregamento como o custo de emissão da dívida pública brasileira seguem em trajetória de queda, captando a redução da Selic, que está em 8,25% aa, e da inflação, que roda abaixo dos 3% no acumulado em 12 meses. O mês de agosto de 2017 marcou o 12o. mês seguido de queda do custo do estoque total, que está em 10,62% ao ano e é o menor desde julho de 2010 (10,58%).

Considerando apenas a dívida interna, o custo fechou agosto em 10,85%, o menor desde janeiro de 2014 (10,80%), mas maior do que a taxa Selic. Para dar uma dimensão da queda, em agosto do ano passado (2016) esse custo estava na casa dos 14%.

As emissões em mercado primário também têm custo cadente. Em agosto, o custo foi de 11,1%, contra 11,38% em julho e 14,56% em agosto de 2016. O custo médio da NTN-B, que é indexada ao IPCA, por exemplo, foi de 8,5%, contra 16,52% em agosto do ano passado. A LTN teve custo de 11,36% no mês passado, recuando de 14,78% um ano antes.

Mesmo com taxas cadentes, o Tesouro Nacional não enfrenta falta de demanda, falseando a hipótese de que “a taxa de juros é alta no Brasil porque o TN fica refém dos investidores”. O problema da disparidade não está na emissão primária dos títulos pelo TN, mas sim na atuação do BCB no mercado secundário para colocar a Selic-mercado no nível da Selic-meta, mesmo com excesso de liquidez.

E a paridade entre as taxas de juros interna e a externa é causa do problema da disparidade? Roberta Costa (Valor, 21/09/2017) informa que a decisão do Federal Reserve (Fed) em iniciar a contração da enorme expansão de liquidez que se produziu, desde a crise financeira de 2008, é um marco na história da política monetária global.

O BC americano, além de reduzir a zero a taxa de juros em resposta à crise, fez três rodadas de programas de compras de ativos [títulos de dívida pública que foram emitidos para gerar os recursos para salvar o sistema financeiro norte-americano], o chamado “QE” [Quantitative Easing ou “Afrouxamento Monetário”]:

  1. o primeiro veio na esteira da quebra do Lehman Brothers, e durou até março de 2010;
  2. em novembro do mesmo ano, a segunda rodada de compras foi anunciada;
  3. em setembro de 2012, a última.

Em decorrência, a carteira de ativos do Fed subiu de cerca de US$ 800 bilhões para US$ 4,5 trilhões. [E ainda há analista financeiro tupiniquim que não entende que a principal função de um BC, historicamente, é ser o emprestador em última instância, ou seja, dar suporte ao sistema financeiro contra corridas-bancárias, e não fazer “o controle monetário geral para combater a inflação”, segundo a TQM – Teoria Quantitativa da Moeda. Argh…] Continue reading “Ciclos de Aperto e Frouxidão Monetária: EUA-Brasil “iguais e contrários”?”