Herança Maldita do Golpe Depressivo: Reformas Neoliberais e Informalidade

Thais Carrança (Valor, 02/10/17) informa que o aumento da informalidade no mercado de trabalho será um dos legados da mais longa e profunda crise econômica registrada no Brasil. Apesar da queda na taxa de desemprego, desde o pico de 13,7% e 14,2 milhões de desempregados de março de 2017, a informalidade mantém trajetória de crescimento, o que aponta para uma piora qualitativa do mercado de trabalho, como resultado da prolongada recessão.

A taxa de informalidade da mão de obra chegou a 46,4% no segundo trimestre, valor mais alto já registrado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, cuja série histórica começa em 2012. Desde o segundo trimestre de 2014 – considerado o início da recessão pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) – o avanço foi de 2,6 pontos percentuais.

A crise reverteu a tendência anterior de queda da informalidade. Do primeiro trimestre de 2012 ao segundo trimestre de 2014, a taxa de informalidade havia recuado de 45,7% a 43,9%, queda de 1,8 ponto percentual. Continue reading “Herança Maldita do Golpe Depressivo: Reformas Neoliberais e Informalidade”

Proposta de Thomas Piketty: Democracia Radical

O economista Thomas Piketty participou, pela primeira vez, do fórum de palestras Fronteiras do Pensamento. Ao dar entrevista ao Valor (06/10/17), Piketty afirmou que o novo presidente francês não incorporara as sugestões do economista, no segundo turno da eleição francesa, como passaporte para seu apoio ao candidato do Em Marcha. A proposta, transformada em livro (“Por uma Europa Democrática“, Intrínseca, 2017), é a de que a única saída para a União Europeia é radicalizar a democracia.

A aposta de Piketty, cujo candidato (Benoît Hamon, do Partido Socialista), ficou em quinto lugar, é de que a UE não encontrará seu rumo enquanto suas decisões derivarem do embate de seus ministros de Finanças e não dos eleitos pelos parlamentos nacionais.

Foi sua segunda passagem pelo Brasil. Na primeira, em 2014, cumpria o circuito de lançamento de “O Capital no Século XXI“. O livro fez do economista de 46 anos, nascido de um casal de militantes de esquerda da geração de 1968, um bestseller mundial, com mais de 2 milhões de cópias vendidas em todo o mundo e 150 mil no Brasil.

O compêndio ficou desfalcado de informações mais precisas sobre o Brasil, que só seriam liberadas pela Receita no ano passado. Os dados sobre imposto de renda foram pioneiramente processados pelos economistas Marcelo Medeiros e Pedro Ferreira de Souza, mas são os estudos de seu orientado, o irlandês Marc Morgan, que levaram Piketty a ser mais assertivo: “Os países mais ricos do mundo adotam, há mais de um século, uma política de progressividade fiscal cujo desconhecimento no Brasil bloqueia seu desenvolvimento”, disse ao Valor.

Rechaçou a resiliente percepção da elite nacional de que é preciso crescer para distribuir: “Os países mais ricos se desenvolveram porque distribuíram”.

O economista fala como escreve. Explora a mesma ideia por vários caminhos até que esteja seguro de que foi bem assimilada. Restringiu o número de entrevistas desde que seu best-seller lhe impôs uma agenda de arauto da desigualdade, mas preservou o tom da ofensiva. Agora investe em estudos sobre os obstáculos políticos à redução da desigualdade e em ampliar seus contatos com pesquisadores do tema mundo afora.

Traz no seu tablet a fotografia da capa do livro “Tributação e Desigualdade“, organizado pelo economista José Roberto Afonso, que está para ser lançado com um artigo de sua autoria. Aos 23 anos, o matemático, doutor em economia, cruzou o Atlântico para dar aulas no MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Hoje permanece na EHESS, Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, e se limita a cruzar a Mancha para dar quatro dias de aula por ano na LSE (Escola de Economia de Londres).

Espera voltar ao Brasil para conhecer as praias do Ceará com a mulher, a economista Julia Cagé, e as filhas Juliette, Deborah e Hélène, agora que o pai casou-se novamente com uma cearense residente na França.

A seguir, a entrevista concedida à Maria Cristina Fernandes: Continue reading “Proposta de Thomas Piketty: Democracia Radical”