Sobre Vaca Sagrada, Bezerro de Ouro e Bode Expiatório

A vaca foi possivelmente reverenciada como sagrada porque os hindus dependiam dela para consumo de leite e derivados, para lavrar os campos e por seu esterco, fonte de combustível e fertilizante. Antigamente, o gado era possuído por poucas pessoas afortunadas, as vacas eram valorizadas como ouro ou dinheiro. Tanto que pecuniário tem sua etimologia em pecúnia, originalmente, riqueza em gado. A origem remota a pecus – gado –, que serviu de base a pecúlio (poupança) e peculato (desvio de dinheiro público), almejados, respectivamente, por “gente de bem” e “do mal”.

O bezerro de ouro é referido em passagem bíblica, quando o reino de Israel é dividido e o rei, que fica com uma parte do reino sem ser de descendência real, cria dois bezerros para o povo adorar, e esquecer do Deus da linhagem real. Na linguagem corrente, a expressão “bezerro de ouro” tornou-se sinônimo de um falso ídolo, ou de um falso “deus”, simbolicamente, o dinheiro. Por exemplo, discurso do Papa Francisco, em 2013, disse que “criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão na idolatria do dinheiro e na ditadura de uma economia realmente sem fisionomia nem finalidade humanas”.

O bezerro-de-ouro virou o touro de Wall Street, que ataca de baixo para cima, tal como o perfil de uma curva  de alta

E o bode-expiatório, visto como “os bancos”, leva a culpa de seus malfeitos…

Dois bodes eram levados, juntamente com um touro, ao lugar de sacrifício, no Templo de Jerusalém. Os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente. Expiar é sofrer os efeitos ou consequências de algo errado ou malfeito, purificando-se de crimes ou pecados cometidos. É uma pena.

Discurso da Servidão Voluntária é um discurso de autoria de Étienne de La Boétie, publicado originalmente após sua morte em 1563. O texto foi elaborado depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal, aliás, origem etimológica de salário.

A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las. Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária: como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade?

Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de comunidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária.

Eu, quando leio artigos como o de Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha, “A vaca sagrada da economia” (Valor, 11/10/17), data venia, do qual discordo, vem à minha mente essa série metafórica: vaca sagrada, bezerro de ouro, bode expiatório. E me pergunto: por que todos os milhões de clientes, voluntariamente, se submetem a um sistema bancário? Resposta simples: porque esse comportamento é racional. Continue reading “Sobre Vaca Sagrada, Bezerro de Ouro e Bode Expiatório”