Percursos Musicais entre Espaços e Tempos

Fiquei tão satisfeito com esse feito, que já estou com saudade de “quando eu era professor”, nesse novo ano pré-aposentadoria. Consegui Licença-Prêmio (“privilégio” depois de uma vida dedicada a ensinar e aprender, passando por todos os concursos públicos com títulos e publicações) e férias acumuladas para enfrentar novos desafios: dar um acabamento literário a três livros que montei com base em +/- 300 artigos pessoais que aqui postei (+/- 600 páginas), dois livros do meu Memorial para Titular (+/- 250 páginas), e minha Cartilha de Finanças Comportamentais (+/- 100 páginas). Também quero repetir a experiência de EaD, inédita para mim antes de gravar um curso sobre “Bancos Públicos no Brasil”, agora sobre o tema Finanças dos Trabalhadores. Além disso, quero ter mais tempo para atender convites para o debate público no próximo ano eleitoral. Só.

Foi com satisfação que obtive novas informações propiciadas por caderno especial (FSP, 15/12/17) com o mapeamento da popularidade dos diversos gêneros musicais no Brasil (veja figuras acima). Expressa também meu percurso no tempo e entre espaços.

Eu era adolescente quando morava em BH nos anos 60: adorava rock e blues. Apreciei bossa-nova e MPB no Rio de Janeiro. Passei a gostar mais de reggae e dub em férias na Lagoa da Conceição/Praia Mole de Florianópolis, embora já o escutasse quando visitei Belém do Pará e São Luís do Maranhão. Tenho grande satisfação tanto com o humor quanto com o forró nordestino. Gostava de escutar novos(as) cantores(as) de jazz em Brasília. O funk paulista conheci durante o curso citado. Depois de 32 anos de Campinas, finalmente, fiz uma “desconstrução” dos meus preconceitos em relação à música caipira, mas ainda não cheguei a tanto “populismo” 🙂 : conhecer o “sertanejo universitário” e o “feminejo”. Outro desafio é escutar a mistura latino-americana/brasileira do reggaeton.

Esse percurso é lógico no espaço e emocional no tempo! Eu gosto de todos os gêneros de raízes africanas que misturaram seus ritmos com músicas europeias! Eu gosto mesmo é da mistura das etnias humanas sem discriminação!

Gustavo Alonso é historiador e autor do livro “Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira” (ed. Civilização Brasileira, 2015). Escreveu um artigo interessante para o Especial da Folha de SP (15.dez.2017) que mapeou a popularidade regional dos distintos gêneros musicais através da audiência do YouTube. Pós-caipira, “o Sertanejo é a face recente da antropofagia das massas” no Brasil. Reproduzo-o abaixo.

“A história da música sertaneja é um dos capítulos da história da antropofagia brasileira. Assim como a antropofagia andradiana dos anos 1920 e a tropicalista nos anos 1960, a música sertaneja vem incorporando a modernidade e construindo uma brasilidade múltipla a partir dos intercâmbios culturais.

De forma mais abrangente, embora simplificada e, não obstante suas limitações e diferenças, transformou a afetividade de milhões de brasileiros de todos estratos sociais.

Desde a primeira gravação em 1929 feita por Cornélio Pires, a música sertaneja foi se transformando, indo além de suas fronteiras originais, estados cuja colonização foi de bandeirantes paulistas (SP, MG, PR, MS, MT e GO).

A atual noção de música sertaneja surgiu nos anos 1950, quando gêneros estrangeiros entraram de forma sistemática na música rural brasileira. Um dos primeiros importados foi a guarânia paraguaia. O bolero e rancheira mexicanos e o chamamé argentino também entraram.

Desde a década de 1950, a música sertaneja foi acusada de trair as tradições rurais brasileiras por importações estéticas e modismos. Esse discurso perdura a cada geração que surge e inova esteticamente o gênero. A partir daí, dois polos surgiram na música rural de origem paulista:

  1. os caipiras e
  2. os sertanejos.

Passou-se a definir como sertanejos aqueles do meio musical rural que viam com bons olhos a importações de gêneros, estéticas, instrumentos e modas alheias à tradição.

Do outro lado, os caipiras negavam a validade dessas transformações e, animados por um viés folclorista e regionalista, queriam preservar as tradições da música rural, mantendo instrumentos como a viola caipira e seus ritmos originais como o cateretê, cururu e modas de viola.

Depois vieram o rock e as baladas em fins dos anos 1960. A dupla Leo Canhoto e Robertinho, influenciada por Beatles e Jovem Guarda, foi pioneira em pôr baixo, bateria, teclados e guitarras na música sertaneja. A cada nova incorporação, mais popularidade, suplantando os caipiras.

A partir dos anos 1980, a música brega e a música country americana também adentraram a música sertaneja.

Na virada dos anos 1990, a música sertaneja conseguiu sucesso nacional com Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e Zezé Di Camargo e Luciano. Foram amados e odiados em igual proporção afetiva, embora não numérica.

Em 2005, surgiu uma nova geração, os sertanejos universitários. Baseados na estética musical do “acústico MTV”, chave nos anos 1990 e 2000, essa estética trocou a guitarra pelo violão de cordas de aço e o teclado pelo acordeom.

É possível notar pelo menos três temáticas bastante claras nas letras do sertanejo universitário:

1) o otimismo amoroso, que se contrapôs a estética da música “de corno” melodramática das gerações anteriores;

2) a apologia da festa; e

3) a defesa da furtividade das relações amorosas.

O sucesso mundial de “Ai Se Eu te Pego” ilustra bem as propostas. Essas temáticas se aliaram aos tradicionais melodramas sertanejos, que cantam a distância entre amantes, a atual “sofrência”.

Desde 2015, com a aceitação crescente da participação das mulheres neste mercado, vem se instaurando nova mudança na estética sertaneja.

Artistas como Marília Mendonça, Simone e Simaria e Maiara e Maraisa vêm construindo o chamado feminejo, tornando o gênero, tradicionalmente produzido por homens, mais inclusivo.

Com mais debate cultural massivo, o feminismo pode crescer mais, a despeito das possíveis simplificações.

Pode parecer que a música sertaneja esteja vivendo um boom momentâneo, moda de verão. Este espanto é recorrente nas elites intelectuais nacionais, que se deparam com tamanho sucesso de tempos em tempos.

Foi assim com Nelson Pereira dos Santos, o pai do cinema novo, que para explicar seu espanto resolveu filmar “Estrada da Vida” em 1980, uma cinebiografia de Milionário e José Rico. Foi assim nos anos 1990, quando muitos se questionaram sobre a nacionalização da música sertaneja e, para depreciá-la, acusaram-na de “trilha sonora da Era Collor”.

Nos anos 2000 muitos se espantaram com o sucesso mundial de “Ai Se Eu te Pego”, algo que até então apenas “Garota de Ipanema” havia conseguido em igual dimensão.

Hoje, grande parte da imprensa está interessada no feminejo. Há um motivo contextual a explicar o fenômeno: uma grande sede da sociedade por debates de gênero e empoderamento feminino.

Mas não se pode esquecer que o que explica os constantes ápices da música sertaneja é uma longa cadeia produtiva que não desaparece de geração em geração, apenas é rearticulada (e alargada) pela antropofagia pop-massiva.

A cada rearticulação novos valores aparecem, nomes surgem, questões da atualidade massiva são incorporadas.

É preciso, assim, estudar o pop massivo a sério, entender suas potencialidades e questões, para além do achincalhe que nossa intelectualidade brasileira gosta de proferir com frequência.

Influenciada de todos os lados, a música sertaneja mistura de guarânia a forró, arrocha a funk, melodrama sofrência a louvação do indivíduo. Tudo cabe na boca antropofágica massiva do sertanejo, epíteto do que se tornou grande amálgama de gêneros da geleia geral cultural massiva brasileira.”

Taí, gostei! Bom artigo!

Leia mais (dê um Google com o título e baixe a Tese de Doutoramento):

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