Experiência de Vida versus Modelo Abstrato de Ciclos de Vida Financeira

O modelo básico de ciclos de vida financeira, proposto por Franco Modigliani, economista americano de origem italiana, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1985, parte da pressuposição de que as pessoas, em geral, seguem um padrão de acumulação de patrimônio.  O gráfico acima, encontrado na web, o ilustra.

As pessoas começam suas vidas profissionais, geralmente, na faixa dos 20 anos de idade, ganhando pouco.

Após os 30 anos, entram em seu estágio de maior ascensão profissional com promoções e aumentos salariais, o que propicia maior acumulação do patrimônio, assumindo-se que as obrigações familiares, nesta fase da vida, costumam não ser tão grandes.

Entre 40 e 50 anos, começam a ficar mais conservadoras, com foco maior na preservação do patrimônio já acumulado. Com isso, a curva de crescimento de ganhos de capital, por causa da suposta relação proporcional entre risco e retorno, começa a cair.

Assim segue até chegar na idade da aposentadoria em que se supõe que a pessoa para de acumular patrimônio e começa a usar o antes acumulado para sua subsistência. Aí, a curva reverte, apontando para a exaustão do patrimônio líquido financeiro.

Pois bem, ultrapassei a idade de aposentadoria (65 anos) e minha experiência vivenciada, até agora, falseia essa hipótese. Será um “cisne negro”? Por que minha vida real colide com esse modelo abstrato de Ciclos de Vida Profissional-Financeira?

Primeira lição de vida: ganhar dinheiro no mercado de trabalho e proteger seu poder aquisitivo contra a corrosão inflacionária no mercado financeiro. Uma evidência empírica disso, em termos macrossociais, é que, entre os rendimentos sujeitos à tributação exclusiva/definitiva registrados nas DIRPF 2016-AC 2015, o 13O. Salário somou R$ 79,33 bilhões, superando todos os rendimentos de aplicações financeiras: R$ 69,68 bilhões. Evidentemente, esse fato, que corresponde ao todo, não necessariamente se refere às partes, pois depende do montante acumulado por cada declarante. Quanto mais é concentrada a riqueza, menos gente se beneficia dos juros.

Quando completei 64 anos, consegui que meu patrimônio líquido (PL financeiro) fosse nove vezes a receita total líquida (RTL), isto é, o total anualmente recebido em todas as fontes de renda. O algoritmo denominado “1-3-6-9” sugere acumular, para manter o padrão de vida (ou de consumo) na aposentadoria, nove vezes a remuneração anual aos 65 anos. Com esse valor, é possível um saque mensal por cerca de vinte anos (240 meses) no mesmo valor presente da receita total líquida, considerando juros de 0,5% a.m. capitalizando o montante que resta.

O valor real do patrimônio líquido financeiro, deflacionado pelo IPCA, se multiplicou por cinco vezes no período 2008-2017. A média de crescimento anual, em termos reais, foi de 20% por ano, sendo que 2011 ficou “fora-da-curva”, seja por comprar um apartamento para meus filhos morarem em São Paulo, seja por “ter rasgado dinheiro” ao comprar/trocar automóveis. O primeiro é investimento, o segundo é consumo final.

Segunda lição de vida: vale mais a pena investir na formação escolar/profissional do que se arriscar em obter ganhos de capital na alienação de bens e direitos. Esta é a regra de ouro do comércio da casta dos mercadores: “comprar barato e vender caro”. De acordo com o ciclo de vida profissional, na fase pré-aposentadoria, a tendência é ficar mais conservador em Finanças Pessoais. Porém, no caso do investidor brasileiro comum, a preferência pela liquidez e segurança em renda fixa supera, largamente, a opção por ganhos de capital em renda variável. Eu tenho aversão ao risco da especulação com ações ou dólar, e não sou expert para fazer investimentos passionais como em coleções.

A preferência da geração anterior, que ficou adulta antes da reforma do mercado de capitais em 1964, era por investimento em imóveis. Não existia correção monetária indexada, que protegia os valores financeiros em longo prazo da inflação, nem uma Autoridade Monetária (Banco Central do Brasil), que concedesse generosos juros reais, isto é, uma taxa de juro básica bem acima da taxa de inflação. Imóvel oferecia uma garantia patrimonial real com uma firme tendência de alta em seu valor de mercado.

Então, a geração dos meus pais e avós especulava com a compra de imóveis e terrenos em uma época de grande elevação do grau de urbanização da população. As cidades, que eram polos de atração de imigrantes do campo, se expandiam. Os sítios ou as fazendas, comprados baratos em sua periferia, se transformavam em loteamentos, cujos lotes eram ainda comprados baratos para serem vendidos mais caros. A acumulação era realizada com capital imobiliário e não em capital financeiro.

Tanto que, devido ao desconhecimento da “complexidade” dos produtos financeiros, até hoje pessoas dessa geração mais idosa ainda preferem deixar seu dinheiro em “cadernetas de poupança”. Existem 80.510.421 contas de depósitos de poupança com saldos menores ou iguais a R$ 100,00 – em média R$ 14,40 –, que nem são consideradas ativas por distorcerem as estatísticas, e 58.614.513 contas com saldo superior a esse limite, cujo saldo médio atinge R$ 10.789,30 em setembro de 2017. No total, os depósitos de poupança somavam R$ 632 bilhões, superando o saldo de fundos de investimentos (R$ 508 bilhões) e o de títulos e valores mobiliários (R$ 519 bilhões) das Pessoas Físicas no varejo tradicional e no varejo de alta renda.

Vale observar que, embora na média anual o percentual da contribuição da renda do trabalho apareça com 35% e da renda do capital financeiro com 65%, há uma distorção no cálculo. Isto porque foi tomada a variação nominal a cada ano do patrimônio líquido financeiro e daí foi subtraído o saldo final entre todas as receitas e despesas familiares, considerando-o a sobra de renda do trabalho. Os ortodoxos chamam isso de “poupança”. A diferença entre um e outro foi considerada a contribuição dos juros compostos. O problema é que a sobra de renda do trabalho foi investida ao longo do ano, ou seja, entrava logo no processo de acumulação com juros.

De qualquer forma, revela um resultado interessante para a reflexão a respeito de estratégia de Finanças Pessoais. Na medida em que os juros incidiam sobre montantes cada vez maiores, desde 2014, os rendimentos do capital financeiro passaram a superar os rendimentos da ocupação principal. Durante a “Cruzada da Dilma” (2012 e 2013) contra os juros altos houve uma inversão: ganhei mais com trabalho do que com capital.

Terceira lição de vida: tanto o investimento na carreira profissional, ascendendo na escala salarial via titulações e ganhando extras via reputação, reconhecimento e/ou prestígio, quanto o autocontrole das despesas domésticas por todos os membros da família, ambas posturas são importantes para obter um saldo líquido positivo para aplicação financeira.

O total de vencimentos brutos, em período de crise (2009-2017), na média anual, ficou semelhante à receita total líquida. Como se deu isso? Houve uma compensação do total de descontos de impostos e encargos trabalhistas, além do “redutor constitucional”, com a receita imobiliária obtida por herança familiar. Grosso modo, o governo confiscou um terço da renda do meu trabalho e minha “sorte do berço” o repôs, de modo que, na média, pude contar com todo meu esforço pessoal para sustentar a família direta de quatro membros: casal com dois filhos.

Tornei-me Professor Titular da UNICAMP, ápice da carreira docente, em um concurso público realizado em 2015. Passei a receber maior salário bruto, porém, depois do redutor constitucional e desconto dos demais encargos, inclusive os planos de saúde, eu recebo cerca da metade dele em termos líquidos. Isto porque o governador do Estado não reajusta seu salário há cinco anos para se lançar como candidato remake de “caçador de marajás”, tal como o Collor, na campanha eleitoral de 2018. Ao fixar o teto de R$ 21.600, para uma carreira baseada em méritos/títulos dos professores, conquistados em defesa de teses e publicações, ele retira o incentivo à nova geração seguir essa carreira. Com um redutor constitucional mensal de R$ 4.332, ele me confisca, anualmente, R$ 56.316, ou seja, nos últimos três anos: R$ 168.948.

Observação importante: o teto salarial para servidores públicos, que equivale ao salário bruto dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), hoje está em R$ 33,7 mil mensais. Em outras palavras, mais que o dobro do vencimento do Professor Titular de Universidade pública paulista, desconsiderando adicional por tempo de serviço e sexta-parte.

Confira quanto ganham, bem acima desse teto, desembargadores e juízes no Brasil: Quanto ganham desembargadores e juízes no Brasil.

Os demais saltos salariais na minha carreira profissional aconteceram em 1978 com o título de Mestrado (MS-2), quando comecei a trabalhar no IBGE, em 1988 com o título de Doutorado (MS-3), e em 1994 com a Livre Docência (MS-5). Após meu retorno dos cinco anos de licença da Universidade, alcancei a referência MS-5.3. Finalmente, em 2015, tornei-me Professor Titular (MS-6). Nesse caso, “ganhei, mas não levei”…

Por isso, palestras, livros, capítulos de livros, EaD, etc., são oportunidades fundamentais para se obter uma reserva financeira condizente com o necessário para uma sobrevida de vinte anos, após a aposentadoria, mantendo o mesmo padrão de vida. São receitas extraordinárias, que cobrem também despesas extras, tais como pagamentos de impostos em certas datas (IPVA, IPTU, IRPF, ISS, etc.), viagens, troca de automóveis (e suas revisões e multas), eventuais eletrodomésticos, etc.

Quarta lição de vida: é prioritário o investimento na boa Educação dos filhos, em escola comunitária, onde os pais acompanham ativamente a evolução educacional deles, e em cursos de inglês. Gasta-se na faixa de 12% a 15% da receita total líquida, por cada filho, mas os capacita a ultrapassar a barreira dos vestibulares em Universidade pública de excelência com ensino gratuito.

Quando os filhos se tornam universitários, o gasto passa a ser com alimentação e moradia, inclusive aluguel, e planos de saúde, em outra cidade, no caso, São Paulo. Então, a conta é mais ou menos 30% da receita total líquida, no mínimo durante 24 anos, no caso de cada filho, até eles ficarem empregados e/ou independentes.

Como “planejamento sucessório” acho mais adequado os pais ajudarem os filhos no início da vida profissional e não ficarem só acumulando reservas para deixar uma boa herança depois de mortos. A longevidade humana está aumentando muito e com a esperança de vida atual, quando os pais morrerem os filhos já terão ultrapassado suas maiores necessidades.

Quinta lição de vida: aquisição de uma moradia ou construção de casa própria dá muita segurança em “época de vacas magras”, seja de desemprego, seja de queda de renda real. No meu caso, eu a construí em 1987, quando esperávamos o primeiro filho, e recebemos “ordem judicial de despejo” da casa que alugávamos — e negociávamos para a comprar. Era comum isso após o Plano Cruzado que congelou a correção dos alugueis.

Não tinha financiamento imobiliário aberto. Foi a única época da vida que especulei, tanto em terrenos na Cidade Universitária – comprei três com o FGTS, retirado com a demissão do IBGE, e vendi dois, construindo no terceiro ao lado do campus da Unicamp –, quanto em fundos de ações, durante a “bolha do Cruzado”, em que saí logo antes de sua explosão. Com esse ganho de capital, construí uma casa que cabia no orçamento, cortando os excessos: de 360 m2 passou para 200 m2. Hoje, depois de ampliada com uma sala de vídeo e piscina, com a Síndrome do Ninho Vazio, está grande para apenas um casal. Mas temos uma relação emocional com ela por termos criados os filhos aqui.

Quando não se paga aluguel ou prestações de financiamento imobiliário, e deixa de ter gastos com educação dos filhos, após a meia-idade ou na entrada da terceira-idade, esse percentual da receita total líquida pode ser destinado à acumulação de capital financeiro, para os rendimentos deste substituir os rendimentos do trabalho. Certamente, os gastos com saúde substituem os gastos com educação.

Sexta lição de vida: ao contrário do que sugere o Modelo de Ciclo de Vida, os rendimentos totais líquidos não necessariamente caem na idade mais avançada, isto é, acima de 60 anos. Isso depende de escolhas feitas ao longo da vida, por exemplo, entre ganhar mais no setor privado ou ter maior estabilidade no setor público, tanto no emprego, quanto na manutenção dos vencimentos na aposentadoria.

Como servidor estatutário não obtive o FGTS com carteira assinada a não ser nos sete anos de IBGE e quase cinco anos de Caixa — ⅓ da vida ativa, embora eu trabalhe há mais de 40 anos, desde 1977. Acumulei capital financeiro por conta própria, inclusive usando em todos os anos o incentivo fiscal de 12% da renda bruta para investimento em PGBL, ou seja, Previdência Privada complementar. Corresponde a cerca de 1/3 do total do meu patrimônio líquido financeiro. Não passará por inventário, quando eu morrer, indo diretamente para meus dependentes.

Este é um estudo de caso individual de um trabalhador intelectual, classificado na classe média de alta renda. Dele se pode tirar meia dúzia de lições úteis para um iniciante na carreira profissional. A meta estratégica é, durante a aposentadoria, substituir os rendimentos do trabalho pelos rendimentos do capital financeiro, ou seja, sem falso pudor, o assalariado se tornar “rentista”. Para isso, é necessária a Educação Financeira.

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